Em uma semana, palestra sobre capital de risco e inteligência artificial no Living Lab MS, em Campo Grande, e a Jornada de Inovação Aberta do Fórum Encadear, em São Paulo, mostraram os dois caminhos que as startups do Estado perseguem para crescer: atrair investidores e vender para grandes empresas
Dinheiro e clientes. Os dois combustíveis de que qualquer startup precisa para sair da fase de protótipo estiveram no centro de duas agendas que envolveram o ecossistema de inovação de Mato Grosso do Sul na semana passada. Na quinta-feira (15), o Sebrae/MS reuniu empreendedores no Living Lab MS, seu laboratório de inovação em Campo Grande, para uma palestra sobre como grandes fundos avaliam startups e como a inteligência artificial está mudando o valor de mercado dos negócios. Entre os dias 14 e 15 de outubro, em São Paulo, empresas e startups sul-mato-grossenses participaram do Fórum Encadear 2026, evento nacional do Sebrae dedicado a aproximar grandes companhias de pequenos fornecedores — incluindo uma rodada da Jornada de Inovação Aberta, na qual corporações apresentam desafios reais e startups disputam a chance de resolvê-los.
Os dois encontros, embora diferentes no formato, convergem em um diagnóstico: o capital ficou mais seletivo, e a startup que quiser crescer precisa chegar organizada, com indicadores consistentes e uma solução que resolva problemas concretos de quem paga a conta.
Recursos escassos, exigência maior
A palestra no Living Lab MS teve o título “Como os Grandes Fundos e a Visão do Vale do Silício Estão Redefinindo Eficiência e Valor de Mercado” e foi conduzida por Fernando Rolim, investidor-anjo, conselheiro de empresas e presidente da FEA Angels, rede de investidores-anjo do Brasil. Ele apresentou referências do ecossistema do Vale do Silício e discutiu fundamentos de valuation — o método usado para estimar quanto vale uma empresa —, capital de risco, tendências de investimento para 2026 e as chamadas estratégias AI-First, em que a inteligência artificial é colocada no centro da construção ou da transformação do modelo de negócio.
Na avaliação de Rolim, a IA está alterando não só a forma como as empresas operam, mas também a forma como são analisadas por quem investe. “A Inteligência Artificial está transformando os negócios e, com isso, também muda a forma como os fundos avaliam essas empresas. A expectativa é que os ciclos de amadurecimento, crescimento e valorização dos negócios sejam acelerados, desde que a IA realmente agregue valor”, afirmou, segundo a Agência Sebrae de Notícias. O investidor destacou que os fundos estão especialmente atentos a esse potencial em empresas B2B, aquelas que desenvolvem soluções para outras empresas.
O diretor de Operações do Sebrae/MS, Tito Estanqueiro, resumiu o cenário que levou a instituição a promover o encontro. “Os recursos estão mais escassos e existe uma grande oferta de novos negócios que precisam de capital. Por isso, buscamos aproximar as startups de conhecimento e informação para que possam tomar decisões melhores e se preparar para atrair investidores. É fundamental que o empreendedor tenha o negócio organizado e apresente indicadores consistentes”, disse.
Segundo Estanqueiro, o papel do Living Lab MS é justamente funcionar como ponto de conexão entre startups, mentores e apoio técnico, ajudando a transformar ideias em negócios com potencial de crescimento.
A visão de quem está começando
Entre os participantes, os desafios relatados mostram o estágio em que se encontra boa parte das startups do Estado. Danilo Chaves, da Caiman Tech, contou que a empresa está iniciando as vendas e ainda aprende a lidar com temas como valuation e estruturação de uma rodada de captação. “Para nos prepararmos para novos investimentos, precisamos validar o modelo de negócio e construir uma máquina de vendas que traga previsibilidade”, afirmou. A plataforma da startup usa inteligência artificial para reduzir esforços e aumentar a eficiência dos profissionais que a utilizam, o que obriga a equipe a acompanhar de perto as inovações do setor.
Vitor Garcia, da Causi, startup do segmento jurídico cuja principal solução usa IA para ajudar advogados a fechar mais contratos, destacou a dificuldade de acesso a informações sobre o mercado de capital de risco. “Entender melhor como buscar investimentos e conhecer o mercado de capital de risco é muito importante, porque nem sempre essas informações são fáceis de encontrar, e eventos como esse proporcionam esse acesso”, comentou.
O interesse não ficou restrito às empresas de base tecnológica. Daniele Pereira Rodrigues, da Sauá Consultoria Ambiental, que atua com conservação da biodiversidade, disse buscar no contato com outros empreendedores caminhos para ampliar o alcance do trabalho da empresa. “Nosso desafio é conseguir chegar a novos espaços e fazer a diferença com o trabalho de conservação da biodiversidade”, afirmou.
O outro caminho: vender para grandes empresas
Se o capital de risco está mais exigente, uma alternativa cada vez mais valorizada pelas startups é conquistar grandes clientes corporativos — o que, além de gerar receita, cria casos de sucesso que pesam na hora de negociar com investidores. É essa a lógica da Jornada de Inovação Aberta, iniciativa nacional do Sebrae que conecta médias e grandes empresas a startups com soluções para desafios reais de mercado.
No dia 14 de outubro, durante o Fórum Encadear, empresas e startups participantes da Jornada se reuniram diante de uma banca avaliadora. As corporações apresentaram seus desafios e as startups selecionadas expuseram suas soluções. A partir dessas avaliações, as empresas poderão escolher as propostas mais adequadas para avançar à etapa de prova de conceito — o teste prático da solução dentro da operação do cliente.
Mato Grosso do Sul esteve presente dos dois lados da mesa. Entre as empresas demandantes, a Digix apresentou dois desafios e a Unimed Campo Grande, um. Entre as startups, a SBR Prime e a Landgrow, ambas sul-mato-grossenses, tiveram soluções selecionadas pelo programa e participaram da avaliação durante o evento.
O desafio levado pela Digix, segundo o gerente de negócios Marcel Ebner, vem da educação pública. “Levamos um desafio da educação pública: transformar avaliações pedagógicas, que ainda envolvem correções manuais e consolidação de dados em planilhas, em um processo integrado, capaz de entregar informações mais rápidas e confiáveis para professores e gestores”, explicou. O objetivo, segundo ele, é permitir que os resultados das avaliações apoiem, em tempo hábil, ações para melhorar a aprendizagem dos estudantes.
Para a Unimed Campo Grande, a inovação aberta já é tratada como estratégia. “A inovação aberta vem sendo um pilar estratégico e fundamental da Unimed Campo Grande, ampliando a nossa capacidade de inovar, de buscar soluções para os desafios que temos no dia a dia e também nos aproximar de oportunidades que, por vezes, não vemos no mercado”, afirmou o diretor administrativo da cooperativa médica, Filipe Vieira.
Do lado das startups, o fundador e CEO da SBR Prime, Eduardo Figueiredo, teve quatro soluções selecionadas pela iniciativa. “A conexão com grandes empresas é importante pela possibilidade de trabalharmos de forma conjunta, ganharmos experiência e compartilharmos conhecimento. Ampliar esse leque é sempre bom para conquistar mais mercado e construir cases de sucesso”, disse. Nayara Cordeiro, representante da Landgrow, destacou a seleção em meio a concorrentes de todo o país. “Para nós, a oportunidade é principalmente de relacionamento com as grandes indústrias, além de podermos implementar nossa solução nas maiores empresas do Brasil e gerar grandes cases”, afirmou.
Vinte anos de encadeamento na Costa Leste
O Fórum Encadear também serviu de vitrine para uma experiência sul-mato-grossense mais antiga de aproximação entre grandes e pequenos: a parceria entre o Sebrae/MS e a Suzano na Costa Leste. No dia 15, o painel “Impacto territorial na prática: o caso Suzano e as oportunidades para os pequenos negócios” reuniu representantes da empresa, da Associação de Desenvolvimento Sul da Bahia e da Associação Integra Costa Leste.
A parceria começou em 2007 e, desde 2008, desenvolve projetos de encadeamento produtivo — metodologia que qualifica pequenos negócios para que se tornem fornecedores de grandes empresas. Segundo dados do programa divulgados pelo Sebrae, foram concluídos 12 projetos, que qualificaram mais de mil empresas e geraram negócios da ordem de R$ 2 bilhões exclusivamente com micro e pequenas empresas.
“A parceria entre Sebrae e Suzano vem de longa data. Praticamente vinte anos. Começou com a Fibria ainda no território de Três Lagoas, e hoje já são duas plantas, uma em Três Lagoas, outra em Ribas do Rio Pardo, e configurou o Vale da Celulose na Costa Leste do Mato Grosso do Sul”, lembrou a diretora-técnica do Sebrae/MS, Sandra Amarilha, que participou como painelista. Para ela, quando um grande investimento chega, é fundamental organizar a governança e compartilhar os planos de desenvolvimento.
O gerente executivo de Relações Corporativas da Suzano, André Brito, afirmou que a parceria é fundamental para a qualificação de fornecedores e para projetos estruturantes nos territórios. A cooperação também chegou à educação: segundo Regina Souza, diretora do eixo de Educação e Aprendizagem da Associação Integra Costa Leste, o trabalho reúne os secretários de educação de 11 municípios da região em um planejamento conjunto.
Próximos passos
Para as startups de Mato Grosso do Sul que participaram da Jornada de Inovação Aberta, o próximo marco é a eventual escolha de suas soluções para a fase de prova de conceito com as corporações. Um contrato desse tipo pode valer, para uma empresa iniciante, tanto quanto uma rodada de investimento: gera receita, valida o produto e fornece justamente os indicadores que investidores como os ouvidos no Living Lab MS dizem procurar.
A combinação das duas agendas indica o desenho que o ecossistema local tenta consolidar — startups preparadas para negociar com fundos, grandes empresas abertas a testar soluções locais e programas de encadeamento que transformam investimentos bilionários em oportunidade para os pequenos.
Fontes: Agência Sebrae de Notícias MS — Investimentos e inteligência artificial entram em debate durante encontro no Living Lab MS (16/10/2026) e Conexões entre grandes empresas e pequenos negócios marcam presença de MS em Fórum Encadear (16/10/2026).
