Do outro lado da ponte de Porto Murtinho, MOPC conclui aterro e soma 20 km de base asfáltica no Lote 2 do trecho Mariscal Estigarribia–Pozo Hondo, inicia a pavimentação do Lote 4 e leva a 23% as obras de acesso em Carmelo Peralta; ritmo paraguaio define quando a rota fará sentido para as cargas de MS
Enquanto o lado brasileiro da Rota Bioceânica discute aduana, acessos e prazos de operação, o Paraguai acelera a parte mais extensa e menos visível do corredor que deve ligar Mato Grosso do Sul aos portos do Pacífico: a travessia do Chaco. Boletins do Ministério de Obras Públicas e Comunicações (MOPC) divulgados ao longo de setembro mostram que o terceiro trecho da rodovia PY15, entre Mariscal Estigarribia e Pozo Hondo, na fronteira com a Argentina, entrou na fase de pavimentação em diferentes frentes, e que as obras de acesso à ponte binacional em Carmelo Peralta, cidade vizinha a Porto Murtinho, atingiram 23% de avanço geral no fim de agosto.
A cobertura do empreendams.com sobre a rota tem se concentrado no lado brasileiro — como a oficialização do nome da ponte e o descompasso entre a obra quase pronta e a aduana em Porto Murtinho, cuja operação a Receita Federal só prevê para 2028. O dado novo, agora, vem do território paraguaio: os números de avanço físico do Chaco, que até aqui eram apresentados de forma genérica, passaram a ser detalhados lote a lote, permitindo medir o quanto falta para que o corredor esteja de fato contínuo do Rio Paraguai até a Argentina.
Lote 2: aterro concluído e 20 km de base asfáltica
O terceiro trecho da Rota Bioceânica no Paraguai tem cerca de 220 quilômetros divididos em quatro lotes, entre Mariscal Estigarribia e Pozo Hondo. O Lote 2 é o que apresenta o balanço mais detalhado. Segundo o MOPC, as obras atingiram 100% de conclusão do aterro, e 20 quilômetros de base de mistura asfáltica já foram aplicados.
As camadas que sustentam o pavimento também avançaram. O solo estabilizado com cal chegou a 96% de conclusão acumulada, e o solo estabilizado com cimento, a 80%. A base estabilizada está 50% concluída, o equivalente a 30 quilômetros. São etapas consideradas essenciais para garantir a resistência da rodovia sob tráfego contínuo de veículos pesados — exatamente o perfil de uso esperado para um corredor de exportação.
O Lote 2 está a cargo de um consórcio formado pelas empresas LT SA, Constructora Heisecke SA e Benito Roggio e Hijos SA. O investimento é de 589,27 bilhões de guaranis (G. 589.273.467.223), com financiamento do Fonplata, o Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata, banco de fomento regional do qual o Brasil também é sócio.
Tecnologia para evitar buracos precoces
No fim de setembro, o MOPC anunciou a incorporação de um equipamento que ainda é pouco comum em obras rodoviárias da região: o MTV, sigla em inglês para veículo de transferência de material. A máquina funciona como intermediária entre os caminhões que transportam o asfalto e a vibroacabadora, responsável por espalhá-lo na pista, garantindo fornecimento constante de material e reduzindo as interrupções durante a pavimentação.
“Está sendo utilizado um alimentador de material asfáltico, conhecido como unidade de transferência. Isso permite que a pavimentadora se mova continuamente”, explicou o diretor de Estradas do MOPC, Alejandro Bordón. Segundo ele, os técnicos ainda fazem testes e ajustes diretamente na pista do Lote 2. “Estamos calibrando todo o trabalho, observando as vantagens de usar esse equipamento para melhorar nossa malha viária”, acrescentou.
O objetivo técnico é evitar a chamada segregação — quando os componentes da mistura asfáltica se separam e geram pontos com qualidade e resistência diferentes. Com distribuição mais uniforme, a obra busca densidade homogênea e melhores índices de regularidade da superfície, medidos pelo IRI (Índice de Irregularidade Internacional), indicador usado para aferir o conforto e a uniformidade ao rodar sobre uma estrada. Na prática, pavimento mais regular significa menos desgaste prematuro, menos manutenção e mais segurança para caminhões carregados.
Lote 4 começa a ser pavimentado rumo à Argentina
No extremo oeste do trecho, mais perto da divisa com a Argentina, o Lote 4 também avançou para a fase de pavimentação, segundo informou o MOPC em meados de setembro. As obras desse lote abrangem 52 quilômetros, do km 270 ao km 322 da PY15, e são executadas pelo Consorcio TCR, sob supervisão do ministério. A conclusão desse segmento é o que vai conectar o corredor a Pozo Hondo e, dali, à malha rodoviária do norte argentino, rumo a Salta e Jujuy e, depois, aos portos chilenos.
Em paralelo às máquinas, o governo paraguaio tem tentado associar a obra a ações de desenvolvimento nas comunidades ao longo do traçado. O Ministério do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Mades) promoveu capacitações técnico-produtivas para 45 famílias de Pozo Hondo, com oficinas sobre avicultura, apicultura e organização comunitária, além de estímulo à geração de excedentes comercializáveis e à participação de mulheres, jovens e comunidades indígenas. É um sinal de que o corredor é visto no país vizinho não apenas como via de passagem de cargas, mas como vetor de ocupação econômica de uma das regiões menos povoadas da América do Sul.
Carmelo Peralta: a porta de entrada do lado paraguaio
A frente mais próxima de Mato Grosso do Sul é a dos acessos à ponte binacional em Carmelo Peralta. As obras atingiram 23% de progresso geral no fim de agosto, com intervenções que começam a ligar diretamente o tecido urbano da cidade chaquenha à ponte sobre o Rio Paraguai.
Na área urbana, na avenida de pista dupla, o pavimento rígido de concreto avança entre os quilômetros 0,040 e 0,517 do lado direito, com 477 metros lineares concluídos; no lado esquerdo, começou a demolição do pavimento existente e a execução do novo pavimento estrutural. As equipes também constroem poços de visita, bueiros e um canal aberto para melhorar a drenagem pluvial da cidade, um problema recorrente nos períodos de chuva.
Em direção à ponte, prosseguem os trabalhos de fundação e cravação de estacas. Os encontros e pilares estão em construção no quilômetro 3,41, enquanto no quilômetro 2,98 as fôrmas estão sendo retiradas das fundações das estruturas previstas para o trecho. Na zona rural, o aterro está sendo formado por dragagem no quilômetro 2,5, e a faixa de domínio está sendo delimitada com cercas e passagens para as linhas de bombeamento.
A ponte em si, de 1.294 metros e financiada pela Itaipu Binacional, é tratada pelos dois governos como peça central do corredor. Do lado brasileiro, a previsão é concluir cerca de 13 quilômetros de acessos até o fim de 2026, com inauguração da estrutura prevista até 2027.
Por que o ritmo paraguaio importa para MS
Para o setor produtivo sul-mato-grossense, o avanço no Chaco é tão decisivo quanto a ponte. A proposta da Rota Bioceânica é encurtar a distância entre o Centro-Oeste brasileiro e os mercados asiáticos, levando cargas de Campo Grande a Porto Murtinho e, pelo Paraguai e pela Argentina, até os portos do norte do Chile. Sem a travessia paraguaia pavimentada de ponta a ponta, a ponte binacional ficaria sem continuidade logística para caminhões pesados.
O MOPC afirma que, concluída, a rota vai agilizar o transporte de cargas, melhorar a competitividade comercial do Paraguai e fortalecer a conectividade com os países vizinhos, além de gerar empregos locais durante a construção. Do ponto de vista brasileiro, o quadro desenhado pelos boletins é de que o Paraguai avança de forma consistente na infraestrutura física, enquanto os gargalos mais imediatos estão em estruturas complementares, como a aduana e os sistemas de controle de fronteira.
A combinação desses calendários será determinante para empresas de Mato Grosso do Sul que se preparam para usar o corredor — de exportadores de proteína e grãos a operadores logísticos, agências de turismo e prestadores de serviço de Porto Murtinho. Se a pavimentação chaquenha mantiver o ritmo, o risco passa a ser o de uma estrada pronta à espera de condições de operação aduaneira, e não o contrário.
Parte do empresariado do Estado já se movimenta para estar pronta quando o corredor abrir. O Centro Internacional de Negócios de MS (CIN-MS) e o Sistema Fiems começaram em 1º de outubro uma formação online em comércio exterior e Rota Bioceânica, com 40 horas de aulas até dezembro. O Sebrae/MS, por sua vez, encerrou em setembro um ciclo de missões de empresárias ao Chile, ao Paraguai e à Argentina voltado ao corredor, e levou a Bonito uma rodada de negócios do Circuito Turismo na Rota Bioceânica. São iniciativas que dependem, no fim das contas, de uma estrada pronta e de uma fronteira operando — e o avanço no Chaco é a parte dessa equação que, por ora, anda mais rápido.
Próximos passos
Os próximos boletins do MOPC devem mostrar a evolução da base asfáltica no Lote 2, o avanço do Lote 4 e o andamento das fundações dos acessos em Carmelo Peralta. Do lado brasileiro, seguem no radar os acessos rodoviários em Porto Murtinho e a definição do cronograma da estrutura aduaneira. A expectativa é que, ao longo de 2027, as peças do corredor comecem a se encaixar para que o primeiro caminhão possa atravessar o Chaco em pista contínua rumo ao Pacífico.
Fontes
Rota Bioceânica (MOPC-PY) — https://rotabioceanica.com.br/2026/09/a-inovacao-tecnologica-na-rota-bioceanica-permitira-a-construcao-de-rodovias-mais-duradouras/ , https://rotabioceanica.com.br/2026/09/o-acesso-a-ponte-bioceanica-avanca-23-e-consolida-a-ligacao-carmelo-peralta/ e https://rotabioceanica.com.br/2026/09/rota-bioceanica-py15-completa-o-aterro-e-adiciona-20-km-de-base-asfaltica-no-lote-2/ ; La Nación (Paraguai) — https://www.lanacion.com.py/negocios/2026/09/14/el-mopc-avanza-con-la-integracion-del-chaco-paraguayo-con-obras-viales-en-la-ruta-py15/ ; Agência Senado — https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2026/09/23/nova-lei-da-nome-a-ponte-que-integra-brasil-e-paraguai-pela-rota-bioceanica ; Campo Grande News — https://www.campograndenews.com.br/economia (aduana em Porto Murtinho, 29/09/2026)
