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Empreenda MS > Economia > Corante verde no etanol coloca em xeque os custos da maior safra de MS
Economia

Corante verde no etanol coloca em xeque os custos da maior safra de MS

Empreenda MS Publicado em 14/09/2026 3 visualizações
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12 minutos de leitura
Vista externa de uma planta industrial com tubulações e chaminés
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Proposta da ANP para inibir a adulteração de bebidas alcoólicas exigiria adequação industrial nas usinas de um Estado que produziu 5 bilhões de litros na safra 2025/2026; Semadesc cobra que a regulamentação demonstre efetividade e proporcionalidade

A proposta de tornar obrigatória a adição de corante verde ao etanol hidratado combustível ainda dentro das usinas acendeu um sinal de alerta em Mato Grosso do Sul, quarto maior produtor nacional do combustível. A medida, desenhada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) como solução provisória para coibir o desvio de etanol combustível na fabricação clandestina de bebidas alcoólicas, foi tratada pelo Governo do Estado, na última semana, como um fator capaz de elevar custos operacionais em toda a cadeia sucroenergética sul-mato-grossense — justamente no momento em que o setor comemora a maior produção de sua história.

O tema ganhou contornos concretos depois que o secretário de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Arthur Falcette, avaliou publicamente os efeitos da proposta para o Estado. Para ele, o impacto vai muito além do preço do insumo a ser adicionado ao combustível.

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O que a ANP pretende — e por que o corante é apenas um paliativo

A intenção original da agência reguladora é diferente do que está sobre a mesa agora. A ANP pretende tornar obrigatória a adição de benzoato de denatônio ao etanol hidratado combustível — uma substância de sabor extremamente amargo, praticamente impossível de ser mascarada, que seria percebida de imediato pelo consumidor caso o combustível fosse usado para adulterar bebidas. O problema é que a própria agência aponta a necessidade de comprovar a viabilidade técnica dessa adição por meio de testes mecânicos, o que impede a fixação de um prazo para a adoção da medida definitiva.

Enquanto os testes não avançam, a saída proposta foi o corante verde: uma marcação visual que permitiria identificar com rapidez o uso irregular do produto fora do circuito de combustíveis. É uma solução de transição — e é exatamente esse caráter transitório que preocupa os produtores.

“Outro ponto de atenção é que a própria ANP trata o corante como uma solução provisória, enquanto estuda a utilização do benzoato de denatônio como alternativa definitiva. Isso pode significar investimentos e adaptações agora que eventualmente precisarão ser revistos posteriormente”, afirmou Falcette.

Adequação industrial, rastreabilidade e o risco na exportação

O ponto central da avaliação da Semadesc é que a obrigatoriedade de adicionar o corante ainda na usina transfere para a indústria um conjunto de novas rotinas: dosagem, controle de qualidade, registro e comprovação perante o órgão regulador. Na prática, significa mexer em linhas de produção já calibradas para outro padrão de produto.

“Para Mato Grosso do Sul, um dos principais produtores de etanol do país, a medida terá impactos que vão além do custo adicional do corante. A obrigatoriedade de adição ainda na usina exigirá adequações industriais e novos custos operacionais, além de ampliar as obrigações de controle, rastreabilidade e conformidade regulatória dos produtores. Também será necessário avaliar os impactos sobre a logística e a segregação do etanol destinado a diferentes mercados, especialmente eventuais efeitos sobre exportações”, detalhou o secretário.

A menção à segregação do etanol não é um detalhe técnico menor. Uma usina sul-mato-grossense pode destinar sua produção a diferentes finalidades e mercados — combustível para o mercado interno, exportação, ou aplicações industriais. Se apenas parte desse volume precisa receber o corante, a planta passa a operar com fluxos separados: tanques distintos, logística de carregamento específica e controles próprios para evitar mistura indevida. Cada camada adicional de segregação tende a se traduzir em custo fixo e em perda de flexibilidade comercial.

No caso das exportações, a preocupação é de outra natureza: um combustível colorido pode encontrar barreiras de especificação técnica em mercados compradores que não preveem o aditivo, exigindo do produtor a manutenção de duas rotas produtivas paralelas.

O debate sobre proporcionalidade

O setor não questiona o objetivo da medida. O que está em discussão, segundo a Semadesc, é a calibragem entre o problema que se pretende resolver e o ônus imposto a quem já opera dentro da lei.

“O setor compreende e apoia o objetivo de combater o desvio de etanol para a fabricação clandestina de bebidas. O que precisa ser discutido é a proporcionalidade da medida: estamos impondo custos e novas obrigações a toda uma cadeia produtiva formal e regulada para combater um ilícito praticado fora dela. Por isso, é fundamental que a regulamentação demonstre claramente sua efetividade, seus custos e se existem alternativas capazes de alcançar o mesmo resultado com menor impacto sobre a competitividade do setor”, concluiu Falcette.

A ponderação recoloca uma questão clássica da regulação econômica: quando o ilícito ocorre fora da cadeia formal, a exigência recai sobre agentes que não praticam a irregularidade, enquanto o infrator — que opera na informalidade — permanece fora do alcance do controle industrial. É esse desenho que a Semadesc pede que seja demonstrado tecnicamente antes da regulamentação final.

Procurada, a Biosul — associação que representa os produtores de bioenergia de Mato Grosso do Sul — informou que acompanha as discussões e aguarda o avanço do processo regulatório e a definição dos critérios técnicos para avaliar os desdobramentos da medida para as unidades produtoras instaladas no Estado. A postura é de cautela: sem os parâmetros definitivos de dosagem, tipo de corante e prazos de adequação, não é possível dimensionar com precisão o investimento necessário por planta.

Um Estado que virou potência do etanol

A dimensão do impacto potencial se explica pelo tamanho que a cadeia sucroenergética alcançou em Mato Grosso do Sul. Conforme dados da Biosul, o Estado é hoje o 4º maior produtor de etanol do Brasil, o 4º maior produtor de cana-de-açúcar, o 2º maior produtor de etanol de milho e o 5º maior produtor de açúcar do país.

O balanço da safra 2025/2026, apresentado em março deste ano durante a 4ª Expocanas, realizada em Nova Alvorada do Sul, confirmou o salto: foram 52 milhões de toneladas de cana-de-açúcar moídas, produção recorde de 5 bilhões de litros de etanol e 2,1 milhões de toneladas de açúcar. Com esse volume, Mato Grosso do Sul já responde por 13,5% de toda a produção nacional de etanol.

Há ainda um dado que ajuda a entender por que o Estado se tornou singular no mapa energético brasileiro: o etanol de milho representa 44% do total produzido em Mato Grosso do Sul. Essa fatia quase equivalente à da cana coloca o Estado numa posição diferente da maioria dos produtores tradicionais do Centro-Sul, com plantas que operam o ano todo — inclusive na entressafra da cana — e que dependem de logística de grãos, secagem e coprodutos como o DDG, destinado à nutrição animal.

Do ponto de vista regulatório, essa dupla matriz significa que uma exigência de aditivação atingiria simultaneamente dois modelos industriais distintos, com estruturas de tancagem e expedição diferentes entre si. Não se trata, portanto, de uma adaptação única replicável em todas as unidades do Estado.

Investimento em bioenergia e o efeito sobre a competitividade

O setor sucroenergético é um dos vetores mais visíveis da transformação industrial recente de Mato Grosso do Sul, ao lado da celulose. A expansão das usinas de etanol de milho, em especial, atraiu investimentos que reorganizaram cadeias inteiras no interior do Estado: produtores de milho passaram a ter comprador local, municípios receberam plantas industriais e a demanda por serviços logísticos cresceu em rotas que antes eram exclusivamente de escoamento de grãos.

Nesse contexto, o argumento da competitividade levantado pela Semadesc tem peso econômico direto. Custos adicionais impostos de forma uniforme tendem a ser proporcionalmente mais pesados para unidades menores ou para plantas que operam com margens comprimidas, o que pode alterar a equação de viabilidade de novos projetos anunciados para os próximos anos.

Há também um efeito menos evidente: a insegurança regulatória. Investir em equipamentos de dosagem e em sistemas de controle para uma exigência que a própria agência classifica como provisória cria um risco de ativo ocioso caso o benzoato de denatônio venha a ser adotado como solução definitiva — com outro conjunto de requisitos técnicos.

Próximos passos

Por ora, não há prazo definido para a regulamentação. A ANP segue com a avaliação técnica do benzoato de denatônio, cuja adoção depende da comprovação de viabilidade por meio de testes mecânicos, enquanto a proposta do corante verde permanece em discussão como alternativa de transição. Até que os critérios sejam publicados, usinas e associações trabalham com cenários.

A expectativa do setor em Mato Grosso do Sul é que o processo regulatório contemple consulta pública com participação efetiva dos produtores, prazos de adequação compatíveis com o ciclo de investimento industrial e, sobretudo, uma demonstração objetiva de que o benefício no combate à adulteração de bebidas supera o custo agregado à cadeia formal.

Enquanto isso, o calendário produtivo segue. Com 5 bilhões de litros na safra passada e uma participação de 13,5% na produção nacional, Mato Grosso do Sul entra no debate regulatório não como coadjuvante, mas como um dos Estados com mais a perder — ou a ganhar — conforme o desenho final que a ANP adotar.

Fontes

Campo Grande News — “Corante verde no etanol pode exigir adequações nas usinas de MS e elevar custos” (12/09/2026): https://www.campograndenews.com.br/economia/corante-verde-no-etanol-pode-exigir-adequacoes-nas-usinas-de-ms-e-elevar-custos

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