A Vetorial suspende por tempo indeterminado a produção de ferro-gusa em Ribas do Rio Pardo, põe 220 empregos diretos em risco e expõe a disputa pela madeira de eucalipto que já afeta fornecedores, terceirizados e o comércio da cidade.
A Vetorial Siderurgia confirmou nesta sexta-feira (6) que vai suspender, por tempo indeterminado, a produção de ferro-gusa na usina de Ribas do Rio Pardo, a 97 quilômetros de Campo Grande. A empresa atribui a decisão à falta de carvão vegetal, causada pela disputa por madeira de eucalipto com as fábricas de celulose e as usinas de etanol de milho, além do aumento de custos e da crise da siderurgia no país. A unidade tem 220 empregados diretos, sem contar os terceirizados.
A confirmação veio em nota enviada ao Campo Grande News e assinada pelo diretor-presidente da empresa, Gustavo Correa. No documento anterior, datado de 4 de novembro, a empresa falava em encerrar a produção em 11 de dezembro. Agora, a Vetorial diz que a parada vai ocorrer até o fim de 2026, sem data exata, sem previsão de retomada, e que a usina será preservada caso o mercado melhore.
Para quem empreende em Mato Grosso do Sul, o caso vai além de uma notícia trabalhista. Ele mostra que o ciclo de investimentos bilionários no eucalipto também mexe com o preço e a disponibilidade da matéria-prima para quem já estava no mercado, e que essa conta chega a fornecedores, prestadores de serviço e ao comércio das cidades do interior.
O que a Vetorial alegou para parar a usina de Ribas
Segundo a nota, a Vetorial acumula prejuízos operacionais desde o início de 2026 e esperava uma melhora no cenário político e econômico que não aconteceu. A empresa lista uma série de fatores. O principal é o custo da madeira: a chegada das indústrias de etanol de milho ao Estado aumentou a procura por eucalipto como biomassa e pressionou os preços. No comunicado de 4 de novembro, a empresa também havia citado a expansão da celulose.

A lista inclui ainda a inflação persistente, o aumento do custo do transporte ligado à legislação do frete mínimo, a expectativa de carga tributária maior com a reforma tributária e a crise nacional da siderurgia, setor que é o principal comprador do ferro-gusa produzido em Ribas. “A paralisação é por tempo indeterminado”, informou a empresa no comunicado.
De acordo com o sindicato, o comunicado de 4 de novembro dizia que o problema de abastecimento de carvão já durava cerca de um ano. A Vetorial chegou a avaliar a importação de insumos, mas concluiu que a alternativa não tinha viabilidade econômica. O texto também mencionava custos operacionais e logísticos, perda de competitividade e retração nas cadeias siderúrgica e mineral.
Disputa pelo eucalipto pressiona quem usa madeira em MS
O pano de fundo é conhecido de quem acompanha o Vale da Celulose. Como o Empreenda MS mostrou em outubro, Mato Grosso do Sul respondeu por cerca de 90% do aumento líquido da área de florestas plantadas do Brasil entre 2021 e 2025, com a área mapeada no Estado saltando de 1,07 milhão para 1,80 milhão de hectares, segundo a Expedição Silvicultura 2025, da Canopy com a Embrapa Florestas. A expansão foi puxada pelo eucalipto que abastece as fábricas de celulose.
O próprio prefeito de Ribas do Rio Pardo, Roberson Luiz Moureira, citou ao Campo Grande News o tamanho da demanda: a celulose em Ribas e Três Lagoas, as florestas plantadas para a fábrica da Arauco em Inocência, projeto que já tem trem garantido para levar a produção até o Porto de Santos, e o consumo das usinas de etanol de milho em Dourados, Maracaju e Sidrolândia. Todas disputam a mesma madeira que vira carvão nos fornos da Vetorial.
A cadeia do eucalipto, enquanto isso, continua mirando novos degraus. Nesta semana, a Fiems disse que o Estado negocia uma fábrica de papel, com anúncio esperado para 2027, depois de cerca de R$ 100 bilhões investidos em celulose. Para a siderurgia a carvão vegetal, que depende da mesma floresta, mais demanda significa madeira mais cara.
Sindicato tenta achar carvão para manter a Vetorial em Ribas
Os trabalhadores ainda não desistiram da usina. Em reunião nesta sexta-feira (6), a diretoria do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Siderúrgicas de Corumbá e Ribas do Rio Pardo decidiu procurar fornecedores de carvão vegetal por conta própria, na tentativa de evitar a paralisação. A ideia é esgotar as alternativas antes de negociar demissões.
“Estamos tentando ver se conseguimos arrumar carvão em algum lugar, para não haver essa demissão”, afirmou o presidente do sindicato, Johans Rogério de Pinho Loureiro. Se encontrar o insumo a um preço mais alto, a entidade pretende discutir com a empresa formas de reduzir custos, sem detalhar quais. Até a publicação das reportagens, não havia reunião marcada entre o sindicato e a Vetorial.
O dirigente também criticou a política estadual de atração de grandes consumidores de madeira sem considerar as empresas que já usavam a matéria-prima. “O culpado disso tudo é esse governo do Estado”, declarou. A Semadesc foi procurada pelo Campo Grande News e não havia se manifestado até a última atualização.
No comunicado ao sindicato, a Vetorial admitiu desligamentos, mas citou a possibilidade de aproveitar parte dos funcionários em outras unidades ou atividades. A empresa também pediu uma reunião prévia com a entidade, como exige o Supremo Tribunal Federal para dispensas em massa, e se comprometeu a não demitir antes da intervenção sindical. A nota mais recente não informa quantas pessoas serão dispensadas nem quando.
Prefeitura prepara requalificação dos trabalhadores
Em Ribas do Rio Pardo, a prefeitura já trabalha com o cenário de fechamento. O prefeito estima que a operação industrial da Vetorial emprega entre 200 e 240 pessoas, número que não inclui as carvoarias. “É uma notícia triste, é preocupante para nós, claro, são centenas de famílias que dependem”, disse Moureira nas redes sociais na quinta-feira (5).
“A alegação principal da empresa é a falta de madeira para produzir carvão”, afirmou o prefeito, que conversou com o presidente da Vetorial e com o secretário da Semadesc, Artur Falcette. “A gente já solicitou uma reunião com a empresa para a próxima semana”, disse. A proposta é reunir Governo do Estado, prefeitura e setor florestal para discutir alternativas de fornecimento.
Enquanto isso, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico organiza um encontro com os trabalhadores, o Senai e o Governo do Estado, também previsto para a próxima semana. O foco é a capacitação para vagas abertas no setor florestal e de celulose, como motoristas, mecânicos, soldadores, eletricistas e operadores de máquinas. Parte dessas vagas exige qualificação específica, o que repete um gargalo já apontado na indústria do Estado, que cresce, mas tem dificuldade para encontrar trabalhadores. O prefeito, no entanto, considera difícil reverter a decisão no curto prazo.
Corumbá segue operando e deve compensar parte da produção
A paralisação atinge apenas Ribas do Rio Pardo. Segundo a Vetorial, a unidade de ferro-gusa de Corumbá continua funcionando e deve aumentar o ritmo para compensar parte da capacidade perdida. A produção de Corumbá é mais voltada à exportação. As atividades de mineração, portuárias, de logística e de carbonização também serão mantidas, embora a empresa admita possíveis ajustes de capacidade.
Não é a primeira vez que o alto-forno para
A usina de Ribas já passou por uma parada antes. Em maio de 2009, a revista O Empreiteiro registrou a reativação do alto-forno da Vetorial em Ribas do Rio Pardo depois de 60 dias desligado, em meio à crise financeira internacional. Na época, a unidade produzia 250 toneladas de ferro-gusa por dia e representava 25% da capacidade da companhia, que tinha mineração em Corumbá e outra siderúrgica em Campo Grande.
Naquele ano, segundo a reportagem, a empresa reduziu o quadro em 60% durante a parada e suspendeu a compra de carvão vegetal. A volta da produção foi comemorada por 70 famílias. A diferença agora é o motivo: em 2009, faltava mercado para o gusa; em 2026, o problema central apontado pela empresa é o custo e a falta da matéria-prima.
O que muda para quem empreende em Ribas e na cadeia do carvão
A parada da Vetorial tem efeito que vai além dos 220 empregos diretos. Os terceirizados de alimentação, limpeza e outros serviços dependem da operação, e o sindicato ainda não calculou quantas vagas indiretas estão em jogo. As carvoarias que abastecem a usina, os transportadores e o comércio local também sentem a perda de renda.
Ao mesmo tempo, a cidade concentra uma das maiores fábricas de celulose do mundo e segue recebendo obras, como as previstas na Rota da Celulose. Para pequenos negócios de Ribas, a lição é de diversificação: a mesma floresta que gera oportunidade para fornecedores da celulose encarece a operação de quem usa madeira como insumo. Quem fornece para a cadeia do carvão deve acompanhar as reuniões da próxima semana, que podem trazer uma alternativa de abastecimento ou confirmar o calendário de desligamento.
Próximos passos
Os próximos dias definem o tamanho do impacto. O sindicato busca carvão, a prefeitura prepara a requalificação com o Senai e a empresa ainda precisa fechar o cronograma da paralisação e o número de desligamentos com os trabalhadores.
Seja qual for o resultado, o caso da Vetorial coloca uma pergunta para a política industrial de Mato Grosso do Sul: como equilibrar a atração de grandes consumidores de eucalipto com a sobrevivência de quem já dependia da mesma madeira. O Empreenda MS vai acompanhar os desdobramentos.
Fontes
Campo Grande News: Vetorial alega prejuízos e confirma suspensão da produção em Ribas (06/11/2026); Sindicato diz que vai buscar carvão para evitar fechamento da Vetorial (06/11/2026); Prefeitura busca alternativas de emprego para trabalhadores da Vetorial em Ribas (06/11/2026); Crise do carvão leva siderúrgica a fechar fábrica e anunciar demissões (05/11/2026). O Jacaré: Vetorial anuncia fechamento em Ribas do Rio Pardo (06/11/2026). Revista O Empreiteiro: MS: Reativação de alto forno expõe importância do setor siderúrgico (12/05/2009).
