Estudo da Embrapa e da Canopy mapeia 1,8 milhão de hectares no Estado, mas mostra produtividade do eucalipto abaixo da média e custos em alta. Para quem fornece à cadeia da celulose, gestão virou condição para crescer junto
Mato Grosso do Sul respondeu por cerca de 90% do aumento líquido da área de florestas plantadas mapeada no Brasil entre 2021 e 2025. É o que aponta o relatório técnico da Expedição Silvicultura 2025, coordenada pela Canopy Remote Sensing Solutions em parceria com a Embrapa Florestas e a Paulo Cardoso Comunicações, apresentado em 21 de outubro. No período, a área identificada no Estado saltou de 1,07 milhão para 1,80 milhão de hectares, alta de 67,3%, puxada principalmente pelo eucalipto. Com isso, MS passou da quarta para a segunda posição nacional, atrás apenas de Minas Gerais.
O tema não é novo para quem acompanha o Vale da Celulose. Em setembro, o Empreenda MS mostrou, com base em dados do IBGE, que Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo lideram a silvicultura do país, com produção recorde de R$ 5,6 bilhões. O que muda agora é a lente: o novo estudo usa imagens de satélite e inventário de campo para medir a área plantada e também estima a produtividade das florestas e ouve os produtores sobre custos e expectativas. E os números trazem um alerta que não aparecia antes.
Distância para Minas caiu pela metade
O acréscimo de área mapeada em território sul-mato-grossense foi de 722,7 mil hectares entre 2021 e 2025, enquanto o saldo nacional ficou em aproximadamente 802 mil hectares. Com isso, a participação de MS na área brasileira identificada pelo levantamento subiu de 10,8% para 16,7%.
Minas Gerais segue na liderança, com 2,27 milhões de hectares em 2025. Mas a vantagem mineira encolheu de 1,23 milhão para 478,2 mil hectares em quatro anos. Mantido o ritmo de expansão dos últimos anos, puxado pelas fábricas de celulose instaladas e em construção no Estado, a disputa pelo primeiro lugar deixou de ser uma hipótese distante.
Os pesquisadores fazem uma ressalva importante sobre a leitura do dado. A fatia de 90% se refere ao saldo nacional, que soma aumentos e reduções de área em todos os estados. Não significa que nove em cada dez novos plantios do país estejam em MS, já que outros estados também plantaram, mas tiveram perdas ou ajustes que reduziram o saldo.
Também é preciso lembrar que o levantamento trata de árvores cultivadas para fins produtivos. O aumento dessa área não equivale à recuperação de vegetação nativa. O relatório ainda explica que a evolução do mapeamento reúne mudanças reais no território e aperfeiçoamentos da base cartográfica. Entre 2024 e 2025, por exemplo, foram identificados no Brasil 340,8 mil hectares de expansão efetiva e 67,7 mil hectares de retração; depois de considerar áreas em pousio e correções, o crescimento líquido foi de cerca de 208 mil hectares.
Eucalipto domina o mapa
No país, as florestas plantadas mapeadas somaram 10,73 milhões de hectares em 2025, alta de 8,1% sobre 2021. O eucalipto ocupa 8,30 milhões de hectares, ou 77,4% do total, seguido pelo pinus, com 1,89 milhão de hectares e 17,6%. Enquanto a área de eucalipto cresceu 758 mil hectares no período, a de pinus recuou 36,6 mil hectares. Os demais cultivos e sistemas integrados passaram de cerca de 460 mil para 540 mil hectares.
A concentração no eucalipto tem explicação direta em MS: é a matéria-prima das fábricas de celulose que transformaram a Costa Leste e o Bolsão em um dos principais polos industriais do país. A participação da indústria no PIB do Estado subiu de 10,42% para 15,73% entre 2020 e 2025, com o Vale da Celulose somando mais de R$ 80 bilhões em investimentos, e cada nova fábrica exige centenas de milhares de hectares plantados no entorno.
Produtividade abaixo da média acende alerta
O ponto novo do estudo está na produtividade. Os pesquisadores estimaram o incremento médio anual, indicador que expressa o volume médio de madeira produzido por hectare ao ano em uma idade de referência. Para o eucalipto aos sete anos, MS ficou em 26,4 metros cúbicos por hectare ao ano, abaixo da estimativa nacional, de 27,6. Santa Catarina lidera, com 42,3, seguida de Paraná (39,4), Rio Grande do Sul (36,8) e São Paulo (32,5).
Fábio Guimarães Gonçalves, da Canopy, ressaltou que os valores não devem ser lidos como um ranking de qualidade da silvicultura. O desempenho combina solo, clima, material genético, manejo e outros fatores. As estimativas também misturam plantios novos e áreas conduzidas por rebrota depois da colheita, a chamada talhadia, e as comparações entre estados exigem atenção às margens de incerteza. O relatório não traz explicação específica para o resultado de MS nem série histórica que mostre se a produtividade do Estado subiu ou caiu.
Ainda assim, o dado interessa a quem investe no setor. Em uma atividade em que a madeira leva anos para ficar pronta, cada metro cúbico a mais por hectare reduz a necessidade de terra e o custo por tonelada entregue à fábrica. É também um campo aberto para pesquisa, melhoramento genético e serviços técnicos, áreas em que startups e prestadores locais podem encontrar demanda.
Produtores querem plantar mais, mas temem custos
A expedição percorreu cerca de 42 mil quilômetros em 14 estados entre setembro e novembro de 2025. O inventário florestal reuniu 446 parcelas em 204 municípios de 13 estados, sendo 293 em áreas de empresas, 150 em propriedades de produtores independentes e três em áreas públicas. As medições foram combinadas com inventários empresariais, idade dos plantios, imagens de satélite, solo, clima e relevo para estimar o volume de madeira.
Um questionário complementar, com 73 registros de participantes de 16 estados, mostra o humor do setor. Entre os respondentes, 75% pretendem implantar novas áreas nos próximos dois anos e 77% esperam aumento da demanda por madeira nos próximos cinco. Ao mesmo tempo, 85% projetam custos de produção crescendo acima da inflação, e apenas 41% esperam aumento da rentabilidade. Mão de obra e tempo de retorno do investimento foram apontados como os desafios mais intensos.
A falta de trabalhadores é um problema que já aparece em outros indicadores do Estado. O portal mostrou em outubro que a indústria de MS cresce quase nove vezes mais que o Brasil, mas a falta de mão de obra virou o novo gargalo. Na floresta, o desafio se repete em funções como operação de máquinas, transporte e manutenção.
A cadeia que cresce junto com a floresta
Por trás de cada hectare plantado há uma rede de pequenas e médias empresas: viveiros, prestadores de serviço de plantio e colheita, oficinas, fornecedores de insumos e, sobretudo, transportadoras que levam a madeira até as fábricas. É nesse elo que um projeto concluído nesta semana pelo Sebrae/MS em parceria com a Suzano tentou atuar.
Entre abril e setembro, a iniciativa acompanhou transportadoras que prestam serviço à operação florestal da empresa em MS, com quatro encontros coletivos e duas horas de consultoria individual para cada participante. Ao todo, 14 empresas concluíram a jornada. As oficinas trataram do controle financeiro diante da reforma tributária, da inteligência emocional para decidir sob pressão, da separação entre finanças pessoais e da empresa e da criação de indicadores financeiros para a rotina do negócio.
“Uma empresa pode ter mercado, clientes e capacidade operacional, mas, se não acompanha de perto seus números, fica mais vulnerável a decisões equivocadas”, afirmou a gerente da Regional Costa Leste do Sebrae/MS, Josi Signori. Para o gerente executivo de Operações Florestais da Suzano, Gustavo Vianna Henning, o resultado mostrou a importância de continuar investindo nesse tipo de desenvolvimento. “Queremos ampliar essa atuação para que mais empreendedores possam aprimorar seus processos de gestão”, disse.
Entre os participantes, o empresário Nilson Oswaldo Ferreira Junior, da NEN Transportes, destacou os alertas sobre a reforma tributária. “Sem planejamento, fica muito mais difícil reduzir custos e manter a sustentabilidade do negócio”, afirmou. Marcelo de Jesus dos Santos, da RF Faccioli Transportadora, ressaltou a troca de experiências entre empresários do setor como um dos ganhos do projeto.
O recado do projeto conversa com os números da expedição. Se os próprios produtores projetam custos subindo acima da inflação, quem presta serviço à cadeia sente a pressão na mesma medida, seja no diesel, nos pneus ou na folha de pagamento. Empresas com controle de custos e indicadores em dia têm mais condição de negociar contratos e investir em frota.
Próximos passos
A expansão da silvicultura em MS deve continuar nos próximos anos, sustentada pelas fábricas de celulose e por novos usos da madeira, como na expansão do etanol de milho no Estado. A logística também avança: em outubro, a Arauco obteve registro da ANTT para levar de trem a celulose de Inocência até o Porto de Santos.
O desafio daqui para frente é transformar área em eficiência. O estudo da Embrapa e da Canopy mostra que o Estado já ganhou a corrida da expansão; a próxima etapa é produzir mais madeira por hectare, com menos custo, e garantir que a rede de fornecedores locais cresça com gestão suficiente para acompanhar as grandes indústrias. O Sebrae/MS informa que mais detalhes sobre as ações com parceiros podem ser obtidos pelo 0800 570 0800 ou pelo site ms.sebrae.com.br.
Fontes
Campo Grande News: Expansão do eucalipto coloca MS atrás apenas de MG em florestas plantadas (23/10/2026). Agência Sebrae de Notícias MS: Projeto melhora gestão financeira de transportadoras em Mato Grosso do Sul (21/10/2026). Relatório técnico da Expedição Silvicultura 2025 (Canopy Remote Sensing Solutions, Embrapa Florestas e Paulo Cardoso Comunicações).
