Recorde de R$ 5,6 bilhões e 93,7% da expansão nacional colocam as florestas plantadas de MS no centro do mapa da silvicultura; IBGE mostra que preço da tora explica a maior parte do salto
Os números divulgados nesta quinta-feira (24) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam, em escala nacional, uma transformação que o sul-mato-grossense já enxerga na paisagem das rodovias do leste do Estado. Segundo a pesquisa Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS), referente a 2025, Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo ocuparam as duas primeiras posições do Brasil em valor da produção da silvicultura, com R$ 1,83 bilhão e cerca de R$ 1 bilhão, respectivamente. Brasilândia ficou em quarto lugar, com R$ 591,1 milhões. Com isso, Mato Grosso do Sul passou a reunir três dos quatro municípios que mais geraram valor com florestas plantadas no país.
O resultado dos municípios puxou o desempenho estadual. De acordo com o levantamento, a silvicultura de Mato Grosso do Sul somou cerca de R$ 5,6 bilhões em valor da produção no ano passado, o equivalente a 13,7% do total brasileiro. É o maior valor já registrado pelo Estado na série, com crescimento de 62,2% sobre 2024, enquanto o conjunto do país avançou 6,7%. No ranking das unidades da federação, MS ficou em terceiro lugar, atrás de Minas Gerais (R$ 9,24 bilhões) e do Paraná (R$ 6,88 bilhões), e à frente de São Paulo (R$ 5,29 bilhões).
Três Lagoas triplica valor e Ribas salta quatro posições
Três Lagoas, principal polo de celulose do Estado, viu o valor de sua produção florestal aumentar 216,3% em relação a 2024, mais que triplicando em termos nominais. No ano anterior, o município havia registrado R$ 579,2 milhões. O produto que explica o resultado é a madeira em tora destinada à fabricação de papel e celulose. Nesse segmento, o volume produzido pelo município cresceu 40,5%, enquanto o valor da produção avançou 218,9%, segundo o IBGE.
Ribas do Rio Pardo, por sua vez, subiu do sexto para o segundo lugar no ranking nacional. O município produziu 4,9 milhões de metros cúbicos de madeira em tora para papel e celulose. Somente esse produto respondeu por R$ 903,7 milhões, ou 90,3% do valor da silvicultura local, com crescimento de 180,8% na comparação com 2024. Brasilândia, na quarta posição, também teve a madeira para celulose como destaque, com aumento de 30,8% na quantidade produzida. Entre Ribas e Brasilândia aparece General Carneiro, no Paraná, com R$ 718,3 milhões; o município paranaense liderava o ranking em 2024 e caiu para o terceiro lugar.
Sete municípios de MS entre os 20 maiores do país
O protagonismo não se limita aos três primeiros colocados. Segundo os dados do IBGE compilados pelo jornal A Crítica, Mato Grosso do Sul tem sete municípios entre os 20 maiores do Brasil em valor da silvicultura. Além de Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo e Brasilândia, aparecem Água Clara, em oitavo (R$ 395,6 milhões), Selvíria, em nono (R$ 384,4 milhões), Inocência, em décimo (R$ 363 milhões), e Santa Rita do Pardo, em 19º (R$ 271,3 milhões). Juntos, esses sete municípios respondem por cerca de 86% do valor da silvicultura estadual.
O caso mais expressivo de variação é o de Selvíria. O município saiu de R$ 14,1 milhões em 2024 para R$ 384,4 milhões em 2025, uma alta de 2.633%. O salto é compatível com a entrada em corte de áreas plantadas anos antes, dinâmica típica do eucalipto, cujo ciclo entre plantio e colheita costuma levar vários anos.
O preço da madeira explica a maior parte do salto
Uma das leituras mais importantes da PEVS 2025 para Mato Grosso do Sul está na composição do crescimento. A madeira em tora, que responde por quase todo o resultado do setor, rendeu R$ 5,24 bilhões no Estado, alta de 86,4%. O volume cortado, no entanto, subiu bem menos: 17,6%, passando de 26,04 milhões para 30,61 milhões de metros cúbicos.
Dividindo o valor pelo volume, o jornal A Crítica calculou que o metro cúbico de tora vendido pelo produtor sul-mato-grossense passou de R$ 108,02 em 2024 para R$ 171,28 em 2025, alta de 58,6%. Pela conta do veículo, feita sobre as tabelas do IBGE, o volume adicional explica cerca de R$ 494 milhões do aumento de R$ 2,43 bilhões no valor da tora. Os outros R$ 1,94 bilhão, quase 80% do total, vieram do preço.
Essa distinção é relevante para quem acompanha a economia regional. Preço de tora oscila conforme a demanda das fábricas de celulose e o câmbio, e não há garantia de que o patamar de 2025 se repita nos próximos anos sem mudança na produção física. O próprio Campo Grande News, ao noticiar o levantamento, lembrou que os valores da PEVS se referem à produção florestal primária, como a madeira usada pela indústria, e não correspondem ao faturamento das fábricas nem ao valor das exportações de celulose.
Estado concentra quase toda a floresta nova do Brasil
Se o valor revela o efeito preço, a área plantada revela a velocidade da expansão física. Segundo o IBGE, a área de florestas plantadas em Mato Grosso do Sul chegou a 1.902.957 hectares em 2025, contra 1.459.944 hectares em 2024, avanço de 30,3%. No mesmo período, o Brasil passou de 9.908.594 para 10.381.607 hectares, alta de 4,8%.
Em outras palavras, dos cerca de 473 mil hectares que o país ganhou em floresta plantada no ano, aproximadamente 443 mil estão em Mato Grosso do Sul. São 93,7% de toda a expansão nacional concentrados em um único Estado. Quase tudo é eucalipto: 1.897.264 hectares, ou 99,7% do total estadual. O pinus ocupa 5.693 hectares.
O ranking de área por município reforça a concentração. As sete maiores áreas de floresta plantada do Brasil estão em Mato Grosso do Sul: Ribas do Rio Pardo (537.011 hectares), Três Lagoas (348.117), Água Clara (186.680), Brasilândia (158.631), Santa Rita do Pardo (119.289), Selvíria (108.654) e Inocência (107.169). Só na oitava posição aparece outro Estado, com Buritizeiro, em Minas Gerais, e 100.003 hectares. As sete cidades somam 1.565.551 hectares, o equivalente a 82,3% de toda a floresta plantada de MS.
Há um detalhe que ajuda a projetar os próximos anos. O Estado detém 18,33% da área plantada do Brasil, mas responde por 13,7% do valor. A diferença indica uma floresta jovem, plantada e ainda não colhida. À medida que esses maciços atingirem a idade de corte, a tendência é de aumento do volume de madeira disponível, o que pode sustentar a produção mesmo que os preços recuem.
Carvão, lenha e extrativismo andam na contramão
Nem todos os segmentos cresceram. A produção de carvão vegetal em Mato Grosso do Sul caiu de 356.287 para 237.398 toneladas, queda de 33,4%, e o valor recuou 26,6%, para R$ 250,6 milhões. Mesmo assim, o Estado segue como terceiro produtor nacional, atrás de Minas Gerais e do Maranhão. A lenha caiu quase pela metade, de 2,48 milhões para 1,17 milhão de metros cúbicos, queda de 52,8%.
A extração vegetal, que é a coleta em mata nativa, também encolheu. O valor dessa produção passou de R$ 75,3 milhões em 2024 para R$ 26,6 milhões em 2025, queda de 64,6%. Dentro desse universo, um nicho pequeno cresceu: os produtos alimentícios extrativos subiram de 11 para 50 toneladas. O destaque é o baru, amêndoa típica do Cerrado, com 29 toneladas, das quais 25 saíram de Nioaque. Anastácio respondeu pelas outras 4 toneladas. Embora modesto em valor, o dado mostra espaço para cadeias da sociobiodiversidade que interessam a pequenos empreendedores e cooperativas.
Oportunidades e pontos de atenção para o desenvolvimento regional
Para o ecossistema econômico de Mato Grosso do Sul, o retrato da PEVS reforça uma tendência já conhecida: a consolidação do chamado Vale da Celulose como um dos principais vetores de desenvolvimento do Estado. A madeira colhida em Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Brasilândia, Água Clara, Selvíria e Inocência abastece fábricas que exportam para diversos mercados e movimentam uma cadeia ampla de fornecedores, da produção de mudas ao transporte, da manutenção industrial aos serviços de tecnologia aplicados ao campo.
Os números, porém, também trazem pontos de atenção. A própria PEVS mede produção e área, mas não mede emprego, arrecadação, uso de água nem o efeito sobre a pecuária que ocupava essas terras. O avanço acelerado do eucalipto tem sido acompanhado de questionamentos: em julho, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul abriu inquérito civil para apurar o impacto do avanço da cultura sobre nascentes no Estado, conforme registrou A Crítica. O debate sobre ordenamento territorial, recursos hídricos e diversificação produtiva deve ganhar peso na medida em que a mancha de floresta plantada se amplia.
Próximos passos
Os dados detalhados da PEVS 2025 estão disponíveis no banco de dados Sidra, do IBGE, nas tabelas 291 (quantidade e valor da silvicultura), 289 (extração vegetal) e 5930 (área plantada), com abrangência para os 5.570 municípios do país, incluindo os 79 de Mato Grosso do Sul. A expectativa é de que as áreas plantadas nos últimos anos, especialmente em Ribas do Rio Pardo e Santa Rita do Pardo, que cresceram 40,7% e 82,1% em área em 2025, respectivamente, entrem gradualmente em fase de colheita, o que tende a ampliar o volume de madeira produzido no Estado nas próximas edições da pesquisa.
Para gestores públicos, empresários e pesquisadores, o desafio será transformar o protagonismo em florestas plantadas em desenvolvimento mais amplo e distribuído, com qualificação profissional, encadeamento produtivo e atenção aos impactos ambientais. A silvicultura já colocou Mato Grosso do Sul no topo do mapa nacional; a próxima etapa é garantir que esse avanço se converta em ganhos duradouros para as cidades que sustentam o setor.
Fontes
Campo Grande News – “Três Lagoas e Ribas lideram valor da produção de florestas plantadas no País” (24/09/2026): https://www.campograndenews.com.br/economia/tres-lagoas-e-ribas-lideram-valor-da-producao-de-florestas-plantadas-no-pais
A Crítica de Campo Grande – “MS bate recorde de R$ 5,65 bilhões em produção florestal, e quase 80% do salto veio do preço da tora” (24/09/2026): https://acritica.net/agro/ms-recorde-producao-florestal-565-bilhoes-preco-tora-pevs-ibge-2025/
IBGE – Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS) 2025, banco Sidra: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/291
