Foco em granja de perus catarinense fez México e Malásia suspenderem aves de todo o Brasil; Famasul ainda não estima perdas, e avicultura sul-mato-grossense reforça biosseguridade para proteger o mercado chinês
Um foco da doença de Newcastle numa granja comercial de perus em Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina, a centenas de quilômetros de MS, já chegou às contas da avicultura de Mato Grosso do Sul. México e Malásia suspenderam a compra de produtos avícolas de todo o Brasil, o que inclui o frango sul-mato-grossense. De janeiro a setembro de 2026, o Estado exportou cerca de 6 mil toneladas de carne de frango para o México, com receita de US$ 12,6 milhões, segundo dados do Agrostat, sistema de estatísticas do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), levantados pela Federação da Agricultura e Pecuária de MS (Famasul).
Não há registro da doença em Mato Grosso do Sul. Mesmo assim, as regras sanitárias de parte dos compradores tratam o país como uma unidade, e o efeito chega a frigoríficos, integradoras e produtores que não têm nenhuma relação com o caso catarinense.
O que aconteceu em Santa Catarina
O caso foi confirmado no domingo, 18 de outubro, pelo laboratório federal de referência em São Paulo, e anunciado pelo Mapa no dia seguinte. O vírus foi identificado durante a vigilância de rotina, em perus que não apresentavam sintomas. A granja tinha cerca de 6 mil aves, que foram sacrificadas e enterradas nos dias 19 e 20 de outubro.
É o segundo registro da doença em avicultura comercial no Brasil. O primeiro ocorreu em julho de 2024, em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul. O Ministério declarou emergência zoossanitária de 60 dias em Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim, e equipes estaduais visitam propriedades num raio de 10 quilômetros, com coleta de amostras em pouco mais de 130 delas. Para encerrar o foco, é preciso concluir essa vigilância e notificar a Organização Mundial de Saúde Animal.
A doença de Newcastle é causada por um vírus que afeta aves domésticas e silvestres e pode provocar problemas respiratórios, digestivos e neurológicos, além de alta mortalidade. O Mapa reforça que os produtos avícolas com inspeção oficial “permanecem seguros para consumo”. A enfermidade não é transmitida pela ingestão de carne de frango.
Quem fechou o mercado e para quem
De acordo com a atualização do Mapa divulgada em 21 de outubro, cinco países adotaram suspensões temporárias. O México foi o primeiro, ainda em 19 de outubro, e vetou aves vivas, carne, miúdos, ovos férteis, pintinhos e outras aves de todo o território brasileiro. A Malásia seguiu o mesmo caminho em 21 de outubro, também para todo o país.
China, Chile e Arábia Saudita limitaram as restrições a produtos de Santa Catarina, sem estender as medidas, até o momento, aos demais estados. No caso chinês, o protocolo bilateral prevê a interrupção imediata dos embarques quando uma doença de notificação obrigatória é detectada, e cabe a Pequim definir o alcance e os critérios de retomada. Logo após o anúncio, em 20 de outubro, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) chegou a informar uma suspensão preventiva das vendas de frango à China, enquanto o setor aguardava a resposta chinesa sobre a regionalização.
Não há prazo para o fim das restrições. A liberação depende das exigências sanitárias de cada comprador.
O peso do México e da China
Dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, compilados pelo portal Investir é Começar, mostram que os cinco mercados com restrição responderam por US$ 933 milhões das exportações brasileiras de carne de aves de janeiro a setembro, cerca de 11,9% do total. O México, sozinho, comprou US$ 423 milhões (5,4%), quase metade desse grupo. As vendas de Santa Catarina para China, Arábia Saudita e Chile somaram US$ 221 milhões, US$ 193 milhões e US$ 87 milhões, respectivamente. A Malásia, 68ª no ranking de destinos, comprou US$ 9 milhões.
No total, o Brasil exportou US$ 7,83 bilhões em carne de aves no período, ou 4,09 milhões de toneladas. Santa Catarina respondeu por 21,8% desse valor, atrás do Paraná, com 41,8%. A China é o maior comprador do frango brasileiro, com US$ 1,16 bilhão no ano. Se a suspensão chinesa valesse para todo o país, o impacto chegaria a cerca de 14,8% das exportações, contra 2,8% com a restrição limitada a Santa Catarina.
Para Mato Grosso do Sul, essa diferença é decisiva. A China é o principal destino das exportações do Estado, com 46% das vendas externas de janeiro a setembro, segundo a Semadesc. No complexo de carnes, foi a maior compradora no período, com cerca de US$ 678,7 milhões, de acordo com o Observatório da Indústria da Fiems. O complexo como um todo exportou US$ 2,13 bilhões, alta de 24% sobre 2025, puxado principalmente pela carne bovina. China e Japão aparecem entre os principais destinos do frango sul-mato-grossense, segundo boletim da Famasul.
Ainda não dá para medir o prejuízo
A consultora técnica da Famasul Fernanda Lopes afirma que ainda não é possível estimar eventuais prejuízos para o setor no Estado. Segundo ela, os efeitos econômicos vão depender do tempo de duração das restrições e da capacidade de redirecionar as vendas para outros mercados.
O precedente de 2024 dá uma pista. Após o foco no Rio Grande do Sul, as exportações brasileiras de frango caíram cerca de 100 mil toneladas, algo próximo de 25% dos embarques de um mês, e voltaram ao nível anterior depois que os países suspenderam as restrições. Na ocasião, segundo o banco JPMorgan, o resultado das grandes processadoras não foi afetado de forma relevante, porque o volume que deixou de ser embarcado foi vendido mais tarde.
A ABPA informou, em 21 de outubro, que ainda não tinha estimativa de perdas. A dona das marcas Sadia e Perdigão comunicou ao mercado que não espera impacto relevante em suas operações.
Uma avicultura que vinha crescendo
O episódio atinge um setor em expansão no Estado. No primeiro bimestre de 2026, Mato Grosso do Sul abateu 30,6 milhões de frangos, alta de 6,97% sobre o mesmo período de 2025, e exportou cerca de 28 mil toneladas de carne de frango, com receita de US$ 62,8 milhões, aumento de 9,1%, segundo o boletim Casa Rural Avicultura, da Famasul.
Novos investimentos também miram o mercado externo. Em junho, a Bello Alimentos inaugurou em Naviraí um complexo de R$ 18 milhões com oito aviários, capacidade para 2,4 milhões de aves por ano e consumo previsto de 12,5 mil toneladas de milho e soja da região, projetado para seguir os protocolos de exportação.
O governo estadual vinha usando incentivo fiscal para atrair a cadeia. Em agosto, numa feira do setor em São Paulo, o governador Eduardo Riedel afirmou: “concedemos incentivos fiscais que permitem às empresas integradoras recuperar entre 70% e 80% do ICMS”. A avicultura também se apoia no milho e na soja produzidos no Estado, o que transforma ração em proteína e agrega valor à safra dentro de Mato Grosso do Sul. O avanço da pecuária de pequeno porte já aparecia nos números do IBGE, como mostrou a reportagem sobre suínos em recorde e ovos puxando o valor da pecuária de MS.
Sanidade é o ativo mais valioso
O caso catarinense reforça um alerta feito em abril, durante a Expogrande, pelo diretor-presidente da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro), Daniel Ingold. Ao comparar crises comerciais e sanitárias, ele resumiu: “Agora, se tiver problema sanitário, o mercado fecha na hora”.
Em nota, a Iagro informou que segue as diretrizes do Mapa e do Plano de Vigilância de Influenza Aviária e Doença de Newcastle. As ações incluem vigilância ativa, com levantamentos sorológicos, e vigilância passiva, com atendimento e investigação de notificações de suspeita. Diante do caso em Santa Catarina, a agência mantém a vigilância epidemiológica para detectar precocemente possíveis casos.
A Famasul recomenda aos produtores reforçar a biosseguridade nas granjas, com controle de acesso de pessoas e veículos, higienização das instalações e prevenção do contato entre aves de criação e aves silvestres. Qualquer suspeita, como aves com dificuldade para respirar, tremores ou mortes repentinas, deve ser comunicada imediatamente à Iagro.
O que observar nas próximas semanas
Três fatores vão definir o tamanho do impacto para Mato Grosso do Sul. O primeiro é o tempo de duração das suspensões de México e Malásia, que dependem do fim da emergência sanitária em Santa Catarina e da aceitação das informações técnicas enviadas pelo Brasil. O segundo é a manutenção da regionalização pela China, o mercado que mais pesa para a proteína animal do Estado. O terceiro é a capacidade das empresas de redirecionar o produto para outros destinos ou para o mercado interno sem derrubar preços.
O câmbio adiciona outra variável. Na segunda-feira (26), o dólar fechou em alta de 8,21%, cotado a R$ 5,40, a maior alta diária desde 1999, segundo o Campo Grande News. A moeda mais cara aumenta, em reais, a receita de quem continua exportando, mas também encarece insumos importados e torna o cenário mais volátil para o planejamento.
Para a economia sul-mato-grossense, que ampliou a presença em mercados como China e União Europeia, o episódio mostra que a defesa sanitária é parte da competitividade. Um caso em outro estado foi suficiente para fechar dois mercados ao frango do Estado. Um caso dentro das fronteiras teria efeito muito maior.
Fontes
Campo Grande News: Doença em granja de Santa Catarina pode impactar exportações de frango de MS. Feed&Food: Newcastle: cinco países restringem exportações avícolas do Brasil. Investir é Começar: Newcastle em SC trava 12% das vendas externas de carne de aves. A Crítica: Doença de Newcastle e impacto em MS. Portal PaNoRaMa: suspensão preventiva à China. Notícias Agrícolas: Avicultura de MS cresce em 2026. A Crítica: Exportações de MS crescem 12% até setembro. Campo Grande News: Dólar sobe a R$ 5,40.
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