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Empreenda MS > Economia > Fim das bets deve devolver dinheiro aos supermercados de MS, mas dívida freia retomada
Economia

Fim das bets deve devolver dinheiro aos supermercados de MS, mas dívida freia retomada

Empreenda MS Publicado em 23/10/2026
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12 minutos de leitura
Carrinho de compras azul em corredor de supermercado, imagem ilustrativa
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Supermercados do Estado esperam recuperação gradual do consumo depois da proibição das apostas online. Para o pequeno comerciante, o momento pede atenção a estoque, inadimplência e crediário

O dinheiro que as famílias de Mato Grosso do Sul gastavam em apostas online pode voltar para o carrinho de supermercado, mas sem pressa. Esta é a avaliação da Associação Sul-Mato-Grossense de Supermercados (Amas), que vê no fim das bets, proibidas em todo o país desde o fim de setembro, uma oportunidade de recuperar parte do orçamento doméstico que deixava de ir para a alimentação. O alto endividamento da população, porém, deve tornar essa retomada lenta e gradual, segundo a entidade.

“Esperamos que esses valores retornem aos supermercados de forma gradativa, mesmo porque há um nível de endividamento muito alto da população”, afirma a Amas em nota publicada pelo Campo Grande News. Para a associação, caso a proibição se mantenha, as famílias passarão a usar nos supermercados, principalmente, os valores que antes iam para as apostas. A avaliação acompanha uma percepção que também aparece em grandes redes nacionais e em pesquisas com pequenos empresários, mas todos os envolvidos fazem a mesma ressalva: o movimento ainda é inicial e não representa uma recuperação consolidada.

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O que mudou com a proibição

As apostas esportivas e os jogos online de quota fixa foram proibidos pela Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro de 2026. A regra alcança inclusive plataformas sediadas no exterior. Desde a publicação, os sites ficaram impedidos de receber novos depósitos, e o cronograma determinou que deixassem de funcionar em 6 de outubro.

Os apostadores tiveram até 5 de outubro para sacar voluntariamente os saldos. Para os valores não resgatados, a norma fixou procedimentos de devolução pelas instituições financeiras, com participação da Caixa Econômica Federal nos casos de dificuldade operacional. Segundo o portal A Crítica, os bancos tinham até 14 de outubro para devolver cerca de R$ 1,3 bilhão a aproximadamente 26,5 milhões de apostadores.

Há uma incerteza jurídica no caminho. Como toda medida provisória, a MP perde a validade se não for convertida em lei pelo Congresso em 60 dias, prorrogáveis por mais 60. A medida também é questionada no Supremo Tribunal Federal. Ou seja, o efeito sobre o consumo depende de a proibição continuar valendo nos próximos meses.

Quanto dinheiro estava em jogo

Os números ajudam a dimensionar o impacto. Segundo o Sebrae, os brasileiros apostaram R$ 65 bilhões em 2025. Um estudo do Comsefaz e do Centro Celso Furtado, citado pela imprensa, estimou em R$ 62,5 bilhões as perdas das famílias brasileiras com bets no mesmo ano. Para Mato Grosso do Sul, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) calculou que as apostas retiraram da economia do Estado entre R$ 520,26 milhões e R$ 4,4 bilhões, a depender do cenário de gastos considerado.

A distância entre a estimativa mínima e a máxima mostra que ninguém sabe ao certo quanto vai voltar ao comércio. Mesmo no cenário mais conservador, porém, trata-se de meio bilhão de reais por ano disputado por supermercados, farmácias, lojas de bairro e prestadores de serviço.

O presidente nacional do Sebrae, Rodrigo Soares, já afirmou que o capital antes usado nessas plataformas vai voltar para as mãos dos consumidores e reaquecer o varejo. Uma pesquisa da entidade com 1.028 donos de pequenos negócios mostrou que 33% perceberam queda no poder de compra dos clientes e 26% relataram perda de faturamento que associam ao crescimento das apostas. Na mesma sondagem, 38% esperam vender mais sem as bets. São percepções dos empresários, e não dados de vendas medidos.

Primeiros sinais no atacarejo

No plano nacional, a rede Assaí foi a primeira grande varejista a relatar efeito. Em encontro com analistas do BTG Pactual, o presidente da empresa, Belmiro Gomes, o diretor financeiro, Rafael Sachete, e a gerente de relações com investidores, Gabrielle Helu, apontaram sinais iniciais de melhora no consumo no quarto trimestre, principalmente em cidades do interior e em bairros de menor renda.

Segundo os executivos, a restrição às apostas pode estar contribuindo para aliviar o orçamento das famílias e favorecer a compra de alimentos. No terceiro trimestre, os clientes vinham trocando produtos por versões mais baratas, movimento que, de acordo com a empresa, está perdendo força, mas ainda aparece em itens de limpeza. A própria avaliação ressalta que não há relação direta confirmada entre a proibição e a melhora, nem uma recuperação consolidada das vendas.

Para o BTG Pactual, os supermercados podem estar entre os primeiros setores beneficiados, mas uma recuperação mais forte em 2027 dependerá também do poder de compra e do volume de vendas.

Consumidor de Campo Grande ainda aperta o cinto

Na ponta, o cenário em Campo Grande ainda é de cautela. Reportagem do Campo Grande News publicada na semana passada ouviu moradores que passaram a trocar marcas, reduzir quantidades e substituir cortes de carne por opções mais baratas. Uma motorista de aplicativo de 50 anos contou que passou a comprar menos pão, frutas e ovos; uma costureira de 60 anos trocou a carne bovina por porco, fígado e moela.

Outra entrevistada, uma cabeleireira de 70 anos, disse que passou a comprar com mais critério e a olhar mais para a embalagem do que para a marca. Carne e itens básicos, como arroz e feijão, estão entre os produtos que ela citou como mais caros. A costureira ouvida pela reportagem manteve café, arroz e feijão na lista, mas trocou a marca de um produto de limpeza, exatamente a categoria em que o Assaí diz ainda perceber a troca por opções mais baratas.

Os preços explicam parte do comportamento. Pela Pesquisa Nacional da Cesta Básica do Dieese, a cesta em Campo Grande custou R$ 806,56 em setembro, a 9ª mais cara do país, com alta acumulada de 3,95% no ano e de 3,32% em 12 meses. As maiores altas no mês foram do tomate (19,40%), da batata (13,10%) e do arroz agulhinha (4,77%); leite integral, feijão-carioca e café em pó ficaram mais baratos.

Ao mesmo tempo, o varejo do Estado vem de um resultado forte: em agosto, o comércio de MS liderou o país com alta de 12% no varejo ampliado, segundo o IBGE, enquanto os serviços recuaram. Se parte do dinheiro das apostas de fato migrar para o consumo, o setor pode chegar ao fim de ano com fôlego extra.

Dívida vem antes do carrinho

Esse comportamento costuma ser descrito como consumo defensivo: o cliente não deixa de comprar, mas troca de marca, leva embalagens menores e corta o que não é essencial. Para o varejo, a reversão desse movimento costuma ser lenta, porque depende de a renda disponível crescer de forma consistente, e não apenas de um alívio pontual.

O principal freio é o endividamento. Parte do dinheiro devolvido pelas plataformas e do que deixar de ser apostado deve ir primeiro para contas atrasadas, e não para novas compras. Na pesquisa do Sebrae, 18% dos empresários relataram aumento da inadimplência e 11,5% disseram que cresceram os pedidos de parcelamento ou de compra fiado.

Para o economista Beto Saadia, da Nomus Investimentos, ouvido pelo portal A Crítica, bancos e supermercados tendem a ser os primeiros beneficiados. Isso combina com a leitura da Amas: o alívio no orçamento existe, mas será diluído entre pagamento de dívidas e compras essenciais, o que explica a expectativa de uma recuperação gradual.

O que o pequeno comerciante pode observar

Para quem tem mercado de bairro, conveniência, açougue ou loja de utilidades, o momento é de acompanhar os sinais com cuidado. Os relatos do Assaí indicam que a melhora aparece primeiro nos bairros de menor renda e no interior, justamente onde estão muitos pequenos negócios do Estado. Ao mesmo tempo, os dados do Sebrae mostram que a inadimplência e o pedido de fiado aumentaram, o que recomenda prudência na concessão de crediário.

Ajustar o estoque aos itens de giro rápido, acompanhar semanalmente as vendas e o ticket médio e manter o controle de quem compra a prazo são medidas simples que ajudam a aproveitar uma eventual retomada sem aumentar o risco. Para os microempreendedores, o cenário coincide com mudanças importantes nas regras do MEI: a lei sancionada nesta semana eleva o teto de faturamento a R$ 140 mil e perdoa dívidas, o que pode abrir espaço para crescer com as contas em ordem.

Próximos meses serão decisivos

O efeito real do fim das bets sobre o comércio de MS só deve aparecer com clareza nos próximos indicadores oficiais de vendas, que o IBGE divulga com cerca de dois meses de defasagem, e nos balanços de fim de ano das redes de varejo. Até lá, a tramitação da MP no Congresso e o julgamento no STF vão definir se a proibição veio para ficar.

Se a regra se mantiver e o endividamento começar a ceder, o Natal e o início de 2027 podem marcar a primeira temporada de vendas sem a concorrência das apostas por uma fatia do orçamento das famílias. Para os supermercados sul-mato-grossenses, a aposta, agora, é na paciência.

Fontes

Campo Grande News: Endividamento é alto, mas fim das bets deve devolver dinheiro aos supermercados (22/10/2026) e Campo-grandenses trocam marcas e reduzem compras para economizar no supermercado (17/10/2026). A Crítica: Sem bets, supermercados de MS esperam recuperar consumo. ICL Notícias: Assaí vê melhora nas vendas e aponta possível efeito da proibição das bets (16/10/2026).

Leia também

  • Comércio de MS lidera o país com alta de 12% nas vendas em agosto, mas serviços caem 6,9%
  • Abertura de empresas cresce 10% em setembro em MS, mas comércio da Capital segue desconfiado

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