Supermercados do Estado esperam recuperação gradual do consumo depois da proibição das apostas online. Para o pequeno comerciante, o momento pede atenção a estoque, inadimplência e crediário
O dinheiro que as famílias de Mato Grosso do Sul gastavam em apostas online pode voltar para o carrinho de supermercado, mas sem pressa. Esta é a avaliação da Associação Sul-Mato-Grossense de Supermercados (Amas), que vê no fim das bets, proibidas em todo o país desde o fim de setembro, uma oportunidade de recuperar parte do orçamento doméstico que deixava de ir para a alimentação. O alto endividamento da população, porém, deve tornar essa retomada lenta e gradual, segundo a entidade.
“Esperamos que esses valores retornem aos supermercados de forma gradativa, mesmo porque há um nível de endividamento muito alto da população”, afirma a Amas em nota publicada pelo Campo Grande News. Para a associação, caso a proibição se mantenha, as famílias passarão a usar nos supermercados, principalmente, os valores que antes iam para as apostas. A avaliação acompanha uma percepção que também aparece em grandes redes nacionais e em pesquisas com pequenos empresários, mas todos os envolvidos fazem a mesma ressalva: o movimento ainda é inicial e não representa uma recuperação consolidada.
O que mudou com a proibição
As apostas esportivas e os jogos online de quota fixa foram proibidos pela Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro de 2026. A regra alcança inclusive plataformas sediadas no exterior. Desde a publicação, os sites ficaram impedidos de receber novos depósitos, e o cronograma determinou que deixassem de funcionar em 6 de outubro.
Os apostadores tiveram até 5 de outubro para sacar voluntariamente os saldos. Para os valores não resgatados, a norma fixou procedimentos de devolução pelas instituições financeiras, com participação da Caixa Econômica Federal nos casos de dificuldade operacional. Segundo o portal A Crítica, os bancos tinham até 14 de outubro para devolver cerca de R$ 1,3 bilhão a aproximadamente 26,5 milhões de apostadores.
Há uma incerteza jurídica no caminho. Como toda medida provisória, a MP perde a validade se não for convertida em lei pelo Congresso em 60 dias, prorrogáveis por mais 60. A medida também é questionada no Supremo Tribunal Federal. Ou seja, o efeito sobre o consumo depende de a proibição continuar valendo nos próximos meses.
Quanto dinheiro estava em jogo
Os números ajudam a dimensionar o impacto. Segundo o Sebrae, os brasileiros apostaram R$ 65 bilhões em 2025. Um estudo do Comsefaz e do Centro Celso Furtado, citado pela imprensa, estimou em R$ 62,5 bilhões as perdas das famílias brasileiras com bets no mesmo ano. Para Mato Grosso do Sul, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) calculou que as apostas retiraram da economia do Estado entre R$ 520,26 milhões e R$ 4,4 bilhões, a depender do cenário de gastos considerado.
A distância entre a estimativa mínima e a máxima mostra que ninguém sabe ao certo quanto vai voltar ao comércio. Mesmo no cenário mais conservador, porém, trata-se de meio bilhão de reais por ano disputado por supermercados, farmácias, lojas de bairro e prestadores de serviço.
O presidente nacional do Sebrae, Rodrigo Soares, já afirmou que o capital antes usado nessas plataformas vai voltar para as mãos dos consumidores e reaquecer o varejo. Uma pesquisa da entidade com 1.028 donos de pequenos negócios mostrou que 33% perceberam queda no poder de compra dos clientes e 26% relataram perda de faturamento que associam ao crescimento das apostas. Na mesma sondagem, 38% esperam vender mais sem as bets. São percepções dos empresários, e não dados de vendas medidos.
Primeiros sinais no atacarejo
No plano nacional, a rede Assaí foi a primeira grande varejista a relatar efeito. Em encontro com analistas do BTG Pactual, o presidente da empresa, Belmiro Gomes, o diretor financeiro, Rafael Sachete, e a gerente de relações com investidores, Gabrielle Helu, apontaram sinais iniciais de melhora no consumo no quarto trimestre, principalmente em cidades do interior e em bairros de menor renda.
Segundo os executivos, a restrição às apostas pode estar contribuindo para aliviar o orçamento das famílias e favorecer a compra de alimentos. No terceiro trimestre, os clientes vinham trocando produtos por versões mais baratas, movimento que, de acordo com a empresa, está perdendo força, mas ainda aparece em itens de limpeza. A própria avaliação ressalta que não há relação direta confirmada entre a proibição e a melhora, nem uma recuperação consolidada das vendas.
Para o BTG Pactual, os supermercados podem estar entre os primeiros setores beneficiados, mas uma recuperação mais forte em 2027 dependerá também do poder de compra e do volume de vendas.
Consumidor de Campo Grande ainda aperta o cinto
Na ponta, o cenário em Campo Grande ainda é de cautela. Reportagem do Campo Grande News publicada na semana passada ouviu moradores que passaram a trocar marcas, reduzir quantidades e substituir cortes de carne por opções mais baratas. Uma motorista de aplicativo de 50 anos contou que passou a comprar menos pão, frutas e ovos; uma costureira de 60 anos trocou a carne bovina por porco, fígado e moela.
Outra entrevistada, uma cabeleireira de 70 anos, disse que passou a comprar com mais critério e a olhar mais para a embalagem do que para a marca. Carne e itens básicos, como arroz e feijão, estão entre os produtos que ela citou como mais caros. A costureira ouvida pela reportagem manteve café, arroz e feijão na lista, mas trocou a marca de um produto de limpeza, exatamente a categoria em que o Assaí diz ainda perceber a troca por opções mais baratas.
Os preços explicam parte do comportamento. Pela Pesquisa Nacional da Cesta Básica do Dieese, a cesta em Campo Grande custou R$ 806,56 em setembro, a 9ª mais cara do país, com alta acumulada de 3,95% no ano e de 3,32% em 12 meses. As maiores altas no mês foram do tomate (19,40%), da batata (13,10%) e do arroz agulhinha (4,77%); leite integral, feijão-carioca e café em pó ficaram mais baratos.
Ao mesmo tempo, o varejo do Estado vem de um resultado forte: em agosto, o comércio de MS liderou o país com alta de 12% no varejo ampliado, segundo o IBGE, enquanto os serviços recuaram. Se parte do dinheiro das apostas de fato migrar para o consumo, o setor pode chegar ao fim de ano com fôlego extra.
Dívida vem antes do carrinho
Esse comportamento costuma ser descrito como consumo defensivo: o cliente não deixa de comprar, mas troca de marca, leva embalagens menores e corta o que não é essencial. Para o varejo, a reversão desse movimento costuma ser lenta, porque depende de a renda disponível crescer de forma consistente, e não apenas de um alívio pontual.
O principal freio é o endividamento. Parte do dinheiro devolvido pelas plataformas e do que deixar de ser apostado deve ir primeiro para contas atrasadas, e não para novas compras. Na pesquisa do Sebrae, 18% dos empresários relataram aumento da inadimplência e 11,5% disseram que cresceram os pedidos de parcelamento ou de compra fiado.
Para o economista Beto Saadia, da Nomus Investimentos, ouvido pelo portal A Crítica, bancos e supermercados tendem a ser os primeiros beneficiados. Isso combina com a leitura da Amas: o alívio no orçamento existe, mas será diluído entre pagamento de dívidas e compras essenciais, o que explica a expectativa de uma recuperação gradual.
O que o pequeno comerciante pode observar
Para quem tem mercado de bairro, conveniência, açougue ou loja de utilidades, o momento é de acompanhar os sinais com cuidado. Os relatos do Assaí indicam que a melhora aparece primeiro nos bairros de menor renda e no interior, justamente onde estão muitos pequenos negócios do Estado. Ao mesmo tempo, os dados do Sebrae mostram que a inadimplência e o pedido de fiado aumentaram, o que recomenda prudência na concessão de crediário.
Ajustar o estoque aos itens de giro rápido, acompanhar semanalmente as vendas e o ticket médio e manter o controle de quem compra a prazo são medidas simples que ajudam a aproveitar uma eventual retomada sem aumentar o risco. Para os microempreendedores, o cenário coincide com mudanças importantes nas regras do MEI: a lei sancionada nesta semana eleva o teto de faturamento a R$ 140 mil e perdoa dívidas, o que pode abrir espaço para crescer com as contas em ordem.
Próximos meses serão decisivos
O efeito real do fim das bets sobre o comércio de MS só deve aparecer com clareza nos próximos indicadores oficiais de vendas, que o IBGE divulga com cerca de dois meses de defasagem, e nos balanços de fim de ano das redes de varejo. Até lá, a tramitação da MP no Congresso e o julgamento no STF vão definir se a proibição veio para ficar.
Se a regra se mantiver e o endividamento começar a ceder, o Natal e o início de 2027 podem marcar a primeira temporada de vendas sem a concorrência das apostas por uma fatia do orçamento das famílias. Para os supermercados sul-mato-grossenses, a aposta, agora, é na paciência.
Fontes
Campo Grande News: Endividamento é alto, mas fim das bets deve devolver dinheiro aos supermercados (22/10/2026) e Campo-grandenses trocam marcas e reduzem compras para economizar no supermercado (17/10/2026). A Crítica: Sem bets, supermercados de MS esperam recuperar consumo. ICL Notícias: Assaí vê melhora nas vendas e aponta possível efeito da proibição das bets (16/10/2026).
