Estudo do IBGE mostra que só 32,1% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estão ocupadas no Estado, contra 60,9% entre as sem deficiência — e que 38,2% da renda desses lares não vem do trabalho
Pouco mais de um terço das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estava ocupada em Mato Grosso do Sul — 32,1%, contra 60,9% entre as pessoas sem deficiência. O dado, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no estudo “Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil”, expõe um hiato que se repete em renda, contribuição previdenciária e composição do orçamento familiar. Na prática, a proporção de pessoas trabalhando no segundo grupo era quase duas vezes maior.
O levantamento utiliza dados do Censo Demográfico de 2022 para traçar um panorama das condições de vida dessa população, cobrindo inserção profissional, renda, educação e condições de moradia. É o retrato mais detalhado disponível sobre um contingente que, em Mato Grosso do Sul, reúne aproximadamente 167 mil pessoas com deficiência de 14 anos ou mais — a faixa considerada pela pesquisa como população em idade de trabalhar.
53,6 mil ocupados entre 167 mil em idade de trabalhar
Dos 167 mil sul-mato-grossenses com deficiência em idade de trabalhar, cerca de 53,6 mil estavam ocupados em 2022. Para efeito de comparação, entre as pessoas sem deficiência havia aproximadamente 2,02 milhões em idade de trabalhar no Estado, das quais 1,23 milhão estavam ocupadas. A distância entre os dois universos não é apenas de tamanho: é de acesso.
Mato Grosso do Sul apresenta, ainda assim, desempenho um pouco melhor do que a média nacional. No País, 29% das pessoas com deficiência em idade de trabalhar estavam ocupadas em 2022, contra 55,8% entre as pessoas sem deficiência. O Estado supera o índice brasileiro em ambos os grupos, mas a diferença interna entre eles — de 28,8 pontos percentuais — permanece praticamente idêntica ao hiato observado no restante do Brasil, de 26,8 pontos.
Isso significa que o desempenho relativamente melhor do mercado de trabalho sul-mato-grossense não se traduziu em redução proporcional da desigualdade. Quando há mais vagas, elas se distribuem de forma desigual entre os dois grupos, e a barreira de entrada para quem tem alguma deficiência permanece essencialmente no mesmo lugar.
Outro recorte ajuda a dimensionar o desafio: enquanto a taxa de ocupação entre pessoas sem deficiência no Estado, de 60,9%, ficou acima da média nacional de 55,8%, o avanço entre pessoas com deficiência foi de apenas três pontos percentuais em relação ao índice brasileiro — de 29% para 32,1%. Em outras palavras, o dinamismo do mercado de trabalho sul-mato-grossense beneficiou muito mais quem já tinha acesso a ele do que quem historicamente esteve à margem.
A desigualdade se estende à Previdência
A diferença não termina na porta de entrada do emprego. Entre os trabalhadores com deficiência ocupados em Mato Grosso do Sul, 60,3% contribuíam para a Previdência Social. No grupo de trabalhadores sem deficiência, o percentual subia para 69,7%. Em números absolutos, aproximadamente 32,3 mil dos 53,6 mil trabalhadores com deficiência contribuíam para o sistema previdenciário, ante cerca de 857,5 mil entre os ocupados sem deficiência.
O indicador funciona como um termômetro indireto da qualidade dos vínculos. Uma taxa de contribuição mais baixa sugere maior presença de trabalho informal, de ocupações sem carteira assinada ou de atividades por conta própria sem recolhimento regular. Ou seja: além de ter menos acesso ao mercado de trabalho, a pessoa com deficiência que consegue trabalhar tende a ocupar posições com menos proteção social — o que reduz o acesso futuro a aposentadoria, auxílio-doença e demais benefícios.
Renda menor e mais dependente de transferências
O rendimento domiciliar per capita médio das pessoas com deficiência em Mato Grosso do Sul era de R$ 1.456 em 2022, enquanto entre aquelas sem deficiência chegava a R$ 1.748,85. A diferença era de aproximadamente R$ 293 por pessoa, ou 16,7%. Considerando os domicílios como um todo, a distância cresce: nas residências sul-mato-grossenses com pelo menos um morador com deficiência, o rendimento médio total era de R$ 3.927,78; nas demais, alcançava R$ 4.927,79 — cerca de R$ 1 mil a mais.
Mais revelador que o valor, porém, é a origem do dinheiro. Nos domicílios com pessoa com deficiência, 61,8% do rendimento total vinha do trabalho e 38,2% tinha origem em outras fontes — categoria que inclui aposentadorias, pensões, benefícios assistenciais como o BPC (Benefício de Prestação Continuada) e programas de transferência de renda. Nos lares sem moradores com deficiência, a participação do trabalho era bem maior, de 82,1%, e as outras fontes respondiam por apenas 17,9%.
A leitura econômica desse número é direta: mais de um terço da renda das famílias sul-mato-grossenses que têm um morador com deficiência não vem do mercado de trabalho. É uma dependência estrutural de transferências públicas que se converte em vulnerabilidade — qualquer alteração nas regras de benefícios atinge esses domicílios com intensidade desproporcional.
Esse desenho também ajuda a explicar por que a inclusão produtiva costuma ser tratada por gestores públicos como política de médio prazo, e não como medida de efeito imediato. Substituir renda de transferência por renda do trabalho exige, simultaneamente, qualificação, acessibilidade e demanda das empresas — três condições que raramente amadurecem no mesmo ritmo.
O que o dado significa para a economia do Estado
Em termos puramente econômicos, 113 mil pessoas com deficiência em idade de trabalhar estavam fora da ocupação em Mato Grosso do Sul em 2022. Trata-se de um contingente que, em condições de acesso equivalentes às do restante da população, representaria dezenas de milhares de trabalhadores a mais no mercado — com efeito direto sobre arrecadação, consumo local e capacidade produtiva de setores que, em diversas regiões do Estado, relatam dificuldade em preencher vagas.
O debate sobre inclusão produtiva costuma ser enquadrado como pauta social, mas os números do Censo permitem tratá-lo também como questão de desenvolvimento econômico. Estado com forte expansão recente em agroindústria, celulose, logística e serviços, Mato Grosso do Sul tem enfrentado gargalos de mão de obra qualificada em diferentes frentes. Um grupo de 167 mil pessoas em idade de trabalhar, com apenas um terço ocupado, é ao mesmo tempo um indicador de desigualdade e uma reserva de força de trabalho subutilizada.
As barreiras que os números não mostram
O estudo do IBGE mapeia resultados, não causas. Mas a literatura sobre o tema aponta um conjunto recorrente de obstáculos que ajudam a explicar o hiato: acessibilidade urbana e de transporte público insuficiente, que transforma o deslocamento diário em barreira concreta; menor escolaridade média, resultado de trajetórias educacionais interrompidas; ausência de adaptações razoáveis nos postos de trabalho; e a persistência de preconceitos na seleção, que restringem a contratação a funções específicas.
No Brasil, a Lei nº 8.213/1991 — conhecida como Lei de Cotas — obriga empresas com cem ou mais empregados a reservar de 2% a 5% das vagas para pessoas com deficiência ou reabilitadas. O instrumento existe há mais de três décadas, mas alcança apenas uma fatia do mercado formal. Para o trabalhador que atua por conta própria, no comércio de rua ou em pequenos negócios com menos de cem funcionários, a legislação não produz efeito prático.
Há ainda a chamada armadilha do benefício: o receio de perder o BPC ao assumir um emprego formal, sobretudo quando a vaga oferecida é de baixa remuneração e curta duração. A legislação prevê mecanismos de suspensão e retomada do benefício justamente para reduzir esse risco, mas o desconhecimento das regras e a insegurança quanto ao restabelecimento seguem pesando na decisão de aceitar uma vaga.
Um retrato que pede atualização
Vale registrar a defasagem: os dados são do Censo de 2022, publicados em estudo que consolida e cruza as informações coletadas naquele ano. De lá para cá, o mercado de trabalho sul-mato-grossense passou por mudanças relevantes, incluindo a queda da informalidade geral para 29,8% no primeiro trimestre de 2026 — o terceiro menor índice do País, conforme a Pnad. Não há, porém, recorte estadual recente que permita verificar se o grupo de pessoas com deficiência acompanhou essa melhora.
Essa lacuna estatística é, em si, parte do problema. Políticas de inclusão produtiva exigem monitoramento contínuo, e a ausência de séries anuais desagregadas por tipo de deficiência, município e setor de atividade dificulta tanto o desenho de programas quanto a avaliação de resultados. O Censo oferece a fotografia mais completa disponível, mas com intervalo decenal entre uma edição e outra.
Próximos passos
A divulgação do estudo tende a alimentar o debate sobre acessibilidade e qualificação profissional em Mato Grosso do Sul, tema que aparece em programas de formação conduzidos por instituições como Senai, Senac, Sebrae/MS e pela rede estadual de ensino técnico. Iniciativas de capacitação voltadas especificamente a pessoas com deficiência, combinadas a intermediação de mão de obra e adaptação de postos, são apontadas por especialistas como os caminhos com melhor relação entre custo e resultado.
No horizonte, três frentes concentram a atenção de quem acompanha o tema: a fiscalização efetiva da Lei de Cotas nas empresas sul-mato-grossenses que atingem o porte exigido; a ampliação da acessibilidade no transporte público e nos centros urbanos, condição prévia para qualquer política de emprego; e a produção de dados estaduais mais frequentes, capazes de mostrar se o hiato de 28,8 pontos percentuais entre ocupados com e sem deficiência está diminuindo — ou se, seis anos depois do Censo, continua exatamente onde estava.
Fonte: Campo Grande News — “Só 32% das pessoas com deficiência em MS estão empregadas, aponta IBGE” (18/09/2026), com base no estudo “Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil”, do IBGE, a partir do Censo Demográfico de 2022.
