Maratona de inovação com apoio do Sebrae/MS convida estudantes e moradores a propor soluções para o espaço, desativado desde 1989 e agora revitalizado como polo de cultura, economia criativa e empreendedorismo
A Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) realiza nesta sexta-feira (25), em Campo Grande, a Maratona de Inovação “Autocine em Comunidade” – Urban Hacking UFMS 2026, iniciativa que convida estudantes e integrantes da comunidade a desenvolver, ao longo de um dia inteiro, propostas para o futuro do Autocine UFMS. A atividade, feita em parceria com o Sebrae/MS, começa às 8h30 e encerra a programação do Festival Mais Cultura UFMS 2026 no espaço, que volta a receber público após quase 37 anos praticamente desativado. As três equipes mais bem colocadas serão premiadas.
A proposta parte de uma premissa pouco comum em projetos de requalificação urbana: em vez de definir de antemão o que o local será, a universidade decidiu construir o novo modelo de uso de forma coletiva, com participação de instituições parceiras e da própria população. Além da maratona, o Sebrae/MS leva ao Autocine o Caminhão de Experiência Tecnológica, estrutura itinerante voltada a aproximar o público de ferramentas e soluções tecnológicas.
Do cinema ao ar livre a um laboratório urbano
Tradicional cinema ao ar livre da universidade, o Autocine teve as atividades encerradas em 1989. Desde então, foi utilizado de forma pontual, como durante a pandemia, em 2020, quando funcionou brevemente como alternativa de lazer cultural com distanciamento. Segundo o Enfoque MS, a reforma do espaço foi concluída em junho de 2026, com investimento do governo federal.
A retomada é construída em parceria com Sesc, Senac, Sebrae, Sesi, Fiems, Sistema Comércio MS, Governo de Mato Grosso do Sul e TV Morena. A ideia é que o Autocine deixe de ser apenas um lugar para exibição de filmes e se torne um ponto de encontro entre universidade, cultura, gastronomia, empreendedorismo, inovação, memória e juventude.
“Após praticamente 37 anos desativado, ele retorna totalmente revitalizado e adaptado para as características da sociedade atual”, afirmou a reitora da UFMS, Camila Ítavo, em nota divulgada pela universidade. Segundo ela, o espaço deve reunir diferentes experiências, mantendo a memória do local como referência para a nova fase. “Para além da experiência do Autocine, temos um espaço que vai reunir cultura, gastronomia, empreendedorismo e inovação, memória e juventude e tudo isso é objeto de mais uma etapa do processo participativo com toda a sociedade”, disse a reitora.
Consulta pública apontou vocação para o audiovisual
Antes de chegar à maratona, a UFMS percorreu outras etapas de escuta. Entre julho e agosto, a universidade realizou uma consulta pública sobre o retorno do Autocine. De acordo com a instituição, 93,5% dos participantes apontaram o cinema e o audiovisual como principal vocação do espaço, seguidos de música e shows e de cultura e artes.
O jornal A Crítica ponderou que a universidade não divulgou quantas pessoas responderam à consulta nem detalhes sobre a forma de aplicação, o que limita a leitura do percentual. Ainda assim, o resultado serviu como ponto de partida para a programação e para os desafios que serão apresentados às equipes do Urban Hacking.
Além da consulta, a UFMS usou eventos recentes como teste de estrutura. O Arraiá UFMS 2026 e o Festival Mais Esporte da UFMS mobilizaram, juntos, mais de 5 mil pessoas no entorno do Autocine, segundo a universidade. Essas experiências permitiram observar questões concretas, como circulação de pessoas, infraestrutura, alimentação, acessibilidade, segurança, programação e diferentes configurações de público. Todo esse material, de acordo com a UFMS, será base para o trabalho das equipes na maratona.
Como funciona a maratona
No formato de hackathon, grupos de participantes recebem desafios reais e têm um período limitado para desenvolver propostas, que depois são apresentadas e avaliadas. No caso do Urban Hacking UFMS 2026, os desafios estão ligados à ocupação e ao funcionamento do Autocine: como atrair diferentes públicos, como organizar o fluxo de pessoas, que tipo de programação pode sustentar o espaço ao longo do ano e de que forma ele pode se conectar à cidade.
As equipes trabalham durante todo o dia, a partir das 8h30, e as três primeiras colocadas recebem premiação. A metodologia dialoga com o conceito de inovação aberta, em que problemas de uma instituição são expostos a pessoas de fora dela, ampliando o repertório de soluções.
Para o Sebrae/MS, a iniciativa é também uma forma de conectar a economia criativa ao ecossistema de inovação da Capital. “O Festival UFMS Mais Cultura é uma oportunidade de conectar criatividade, empreendedorismo e inovação em um mesmo espaço”, afirmou a diretora-técnica do Sebrae/MS, Sandra Amarilha. Segundo ela, a instituição leva empreendedores da economia criativa para apresentar produtos e ampliar oportunidades de mercado, além de oferecer atendimento ao público por meio do Sebrae Móvel. “Também promovemos o Urban Hacking, uma maratona de inovação que convida estudantes e a comunidade a pensarem soluções para o futuro do Autocine. A proposta é ouvir as pessoas e transformar ideias em possibilidades reais para que esse espaço seja cada vez mais utilizado e conectado à cidade”, completou.
Setor produtivo aposta em impacto econômico
Os parceiros institucionais enxergam no novo Autocine um potencial que vai além da agenda cultural. O presidente do Sistema Comércio MS, Juliano Wertheimer, afirmou que o Sesc e o Senac devem contribuir, respectivamente, com a promoção da cultura e com a educação profissional. “Acreditamos que a revitalização do antigo Autocine também terá potencial para movimentar a economia local, fortalecer o comércio de bens, serviços e turismo e ampliar as possibilidades de desenvolvimento para a nossa cidade”, declarou.
O presidente do Conselho Deliberativo Estadual do Sebrae/MS e vice-presidente do Sistema Famasul, Maurício Saito, destacou a aproximação entre academia e sociedade. “Trazer esse novo propósito para o Autocine, é uma oportunidade para aproximar o universo acadêmico da sociedade e promover uma integração”, disse, ressaltando que o setor produtivo tem papel importante na retomada.
Já o superintendente regional do Sesi, Régis Borges, afirmou que o espaço nasce com uma proposta que reúne cultura, educação, inovação e economia criativa. Segundo ele, a instituição quer fortalecer a parceria com a universidade em projetos ligados ao conhecimento, à formação de talentos, ao esporte e à preservação da memória da indústria sul-mato-grossense.
Programação reúne economia criativa, feira geek e memória
A maratona integra uma programação mais ampla. O Festival Mais Cultura UFMS 2026 começou em 21 de setembro e reúne mais de 100 atividades distribuídas pelos câmpus da universidade, com o tema “O que é Arte?”, segundo o Enfoque MS. No Autocine, a quinta-feira (24) teve apresentação de K-pop, Feira de Economia Criativa, Feira Geek, batalha de dança, desfile de moda autoral, flash mob e show do cantor Jonavo.
Na sexta-feira, depois da maratona, o espaço recebe shows das bandas Os Alquimistas, às 17h, e Pilotos do Oeste, às 18h. Às 19h, a Mostra Autocine – Sessão Especial exibe os documentários “Jardim de Pedra – Vida e Morte de Glauce Rocha” e “Higa Ke – Olho por Olho”. As produções revisitam a trajetória da atriz campo-grandense Glauce Rocha e do fotógrafo Roberto Higa, que registrou diferentes momentos da transformação de Campo Grande por mais de quatro décadas.
A presença da Feira de Economia Criativa e da Feira Geek na programação sinaliza um dos caminhos possíveis para o espaço: servir de vitrine para pequenos negócios ligados a moda, artesanato, cultura pop, gastronomia e audiovisual, segmentos que costumam depender de eventos e pontos de encontro para alcançar consumidores.
Por que o modelo importa para o ecossistema de inovação
A experiência do Autocine insere-se em um movimento mais amplo de aproximação entre universidades e cidades. Espaços universitários subutilizados, quando requalificados com participação da comunidade, podem funcionar como laboratórios vivos, nos quais estudantes, empreendedores e gestores testam soluções em condições reais antes de replicá-las em outros contextos.
Para Campo Grande, que vem consolidando iniciativas de inovação em diferentes frentes, a maratona oferece um formato replicável de participação social aplicada à gestão de equipamentos públicos. A metodologia de hackathon, bastante associada ao desenvolvimento de software e de startups, é usada aqui para responder a perguntas de planejamento urbano, programação cultural e sustentabilidade econômica de um espaço, o que amplia o alcance da cultura de inovação para além do universo tecnológico.
Há também um componente de formação. Estudantes que participam de maratonas desse tipo exercitam competências como trabalho em equipe, prototipagem rápida, análise de dados de uso e apresentação de propostas, habilidades valorizadas tanto no mercado de trabalho quanto no empreendedorismo.
Próximos passos
A UFMS não detalhou, até o momento, como as propostas vencedoras serão incorporadas ao planejamento do Autocine nem o calendário de programação regular do espaço após o festival. O que a universidade sinalizou é que as ideias apresentadas na maratona devem contribuir para definir novos usos e possibilidades de programação, em mais uma etapa do processo participativo iniciado com a consulta pública.
Os próximos meses devem mostrar se o Autocine conseguirá se firmar como equipamento cultural permanente e como ponto de conexão entre universidade, economia criativa e inovação em Campo Grande. Se o modelo de construção coletiva se mostrar eficaz, ele poderá servir de referência para a requalificação de outros espaços públicos da Capital e do interior de Mato Grosso do Sul.
Fontes
UFMS – “Autocine UFMS reúne cinema e arte durante o Festival Mais Cultura 2026” (23/09/2026): https://www.ufms.br/autocine-ufms-reune-cinema-e-arte-durante-o-festival-mais-cultura-2026/
Enfoque MS – “Autocine UFMS ressurge com shows, cinema e programação cultural” (24/09/2026): https://www.enfoquems.com.br/autocine-ufms-ressurge-com-shows-cinema-e-programacao-cultural/
A Crítica de Campo Grande – “Autocine da UFMS retoma atividades após quase 37 anos com festival de cultura e inovação” (24/09/2026): https://acritica.net/eventos/autocine-ufms-retoma-atividades-festival-mais-cultura-2026/
Pix News MS – “Autocine UFMS volta após 37 anos com proposta de reunir cultura, inovação e gastronomia” (23/09/2026): https://www.pixnewsms.com.br/cultura/2026/09/24/autocine-ufms-volta-apos-37-anos-com-proposta-de-reunir-cultura-inovacao-e-gastronomia.html
