A crise no Paraguai, aberta pela intervenção no maior banco digital do país vizinho, pode atrasar pagamentos, esfriar o consumo na fronteira e mexer no ritmo da Rota Bioceânica. Veja o que muda para quem empreende em MS e o que acompanhar.
A crise no Paraguai deixou de ser assunto só da política do país vizinho e já entrou na conta de quem faz negócios em Mato Grosso do Sul. Desde a terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou a resolução do Ueno Bank, o maior banco digital paraguaio, milhões de clientes ficaram sem acesso imediato aos depósitos. Em poucos dias vieram a renúncia do presidente do BC, a renúncia do presidente Santiago Peña e protestos nas ruas. Para MS, que divide mais de mil quilômetros de fronteira com o Paraguai e aposta alto na Rota Bioceânica, a pergunta agora é prática: quanto isso pode pesar no caixa das empresas daqui?
Especialistas ouvidos pelo Campo Grande News neste sábado (7) apontam riscos concretos, como atrasos de pagamento, queda de pedidos e possível adiamento de investimentos ligados ao corredor rodoviário. Ao mesmo tempo, eles ressaltam que ainda não há dados que mostrem uma retração generalizada no comércio da fronteira. A crise no Paraguai é, por ora, um cenário de alerta, não de pânico.
Como começou a crise no Paraguai
Segundo reportagem do Campo Grande News publicada na quinta-feira (5), a decisão do conselho do BCP foi tomada depois que o índice de solvência do Ueno Bank caiu para menos da metade do mínimo exigido. O banco atendia cerca de 2,9 milhões de pessoas, num país de aproximadamente 6,1 milhões de habitantes, e tinha passivo estimado em US$ 850 milhões. Cerca de US$ 360 milhões do Instituto de Previsión Social (IPS), a previdência paraguaia, estavam aplicados na instituição.
O InfoMoney detalhou, em análise publicada no dia 5, operações que estão no centro das investigações. Em 15 de junho, uma carteira de créditos podres avaliada em US$ 74,4 milhões teria sido vendida à empresa Vinanzas S.A., que um dia antes tinha apenas US$ 93.828 em todas as contas. Para fechar a operação, segundo a publicação, o próprio Ueno emprestou dinheiro a empresas intermediárias, que repassaram os recursos à compradora. Ueno e Vinanzas pertencem ao mesmo grupo econômico, e financiar a compra de ativos por empresa ligada é proibido pelas regras paraguaias.
A crise no Paraguai ganhou dimensão política rapidamente. O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, anunciou a renúncia, junto com dois diretores. Na quinta-feira, Santiago Peña, que manteve participação em empresa ligada ao grupo controlador do banco até 2025, renunciou enquanto o Congresso discutia o impeachment, e o vice-presidente Pedro Alliana foi indicado para assumir. Oito executivos ou ex-executivos do banco estão em prisão preventiva, de acordo com o InfoMoney.

O que a crise no Paraguai muda para quem empreende em MS
O efeito mais imediato da crise no Paraguai aparece na fronteira seca, onde a economia de cidades como Ponta Porã depende do vaivém de consumidores dos dois lados. Na avaliação de Leandro Tortosa, doutor em Administração e professor da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), o bloqueio de contas tira dinheiro de circulação. “A dificuldade de acesso aos recursos bancários pode reduzir o consumo e comprometer pagamentos”, afirmou ao Campo Grande News.
Maria Aparecida Canale Balduino, professora de Administração da Uniderp e consultora em agronegócio, reforça que a insegurança bancária atinge também as empresas. “Quando existe insegurança bancária, empresas podem enfrentar dificuldades para realizar pagamentos”, disse. Na prática, isso significa que exportadores e fornecedores de MS com clientes paraguaios podem enfrentar atrasos no recebimento, mesmo sem que o comprador tenha intenção de deixar de pagar.
Os especialistas listam quatro frentes de risco da crise no Paraguai: atrasos de pagamento e menos pedidos para negócios de fronteira e exportadores; consumo mais fraco, com pressão sobre pequenos comerciantes e prestadores de serviço; possível adiamento de investimentos e cronogramas ligados à Rota Bioceânica; e reflexos sobre emprego e arrecadação dos municípios fronteiriços.
O peso do vizinho na balança de MS ajuda a dimensionar o tema. De janeiro a setembro de 2026, segundo dados do MDIC citados pelo jornal A Crítica, o Estado comprou US$ 127 milhões do Paraguai e vendeu US$ 57,5 milhões, somando US$ 184,5 milhões em comércio. O álcool etílico lidera as compras, enquanto óleos vegetais, ração animal e eletrodomésticos estão entre as vendas. Não é pouco para quem já via o país como porta de entrada dos pequenos negócios de MS no mercado externo.
Fronteira entre a cautela e a normalidade
Diante da crise no Paraguai, as lideranças empresariais de lá pedem calma. Em Pedro Juan Caballero, cidade gêmea de Ponta Porã, cerca de 95% da receita do comércio turístico depende de visitantes brasileiros, segundo Pedro Ivo de Mauro e Brito, presidente da Câmara de Indústria, Comércio, Turismo e Serviços local. “A vida segue normal na fronteira”, disse ele ao Campo Grande News. “É um momento de confiar nas autoridades.”
O supermercadista Alejandro Esteban Benítez Arañha, diretor da Câmara de Comércio de Pedro Juan Caballero, estima que 97% dos correntistas prejudicados sejam de baixa renda, com poupanças que às vezes não passam de 300 mil guaranis, cerca de R$ 280. Ele também criticou a onda de boatos que provocou corrida a outros bancos na quarta-feira (4): “Boatos negativos estão gerando um desespero desnecessário da população”. O BCP negou novas intervenções.
Brasileiros também foram atingidos pela crise no Paraguai. O Correio do Estado relatou o caso de uma estudante moradora do lado brasileiro da fronteira que havia aberto conta no Ueno cerca de uma semana antes do bloqueio. Em Ciudad del Este, brasileiros chegaram a dormir na calçada para conseguir atendimento em um programa migratório, num momento em que a procura por residência no Paraguai já superava todo o ano de 2025.
Garantia de depósitos e primeiros pagamentos
Um ponto que interessa diretamente a quem tem conta no país vizinho é a garantia. O Fundo de Garantia de Depósitos paraguaio cobre até 228,3 milhões de guaranis por depositante e por instituição, valor estimado em cerca de R$ 150 mil pelo economista Tomás Julián Medina, ouvido pelo Campo Grande News. Na quinta-feira, o BC informou que começaria atendendo correntistas com depósitos de até 10 milhões de guaranis, desde que não tivessem dívidas com o Ueno e tivessem conta em outro banco.
A velocidade dessa devolução é justamente um dos indicadores que vão definir o tamanho da crise no Paraguai para a economia sul-mato-grossense. Quanto mais rápido o dinheiro voltar às mãos de famílias e empresas, menor tende a ser o impacto no consumo da fronteira.
Três cenários para a crise no Paraguai
Tortosa desenha três caminhos possíveis. No mais favorável, os depósitos são devolvidos com rapidez e a situação se normaliza, com dificuldades apenas temporárias na fronteira. No intermediário, de crise prolongada, a recuperação é lenta, o crédito fica restrito, o consumo cai, os pagamentos atrasam e os investimentos são adiados.
No cenário mais severo, a desconfiança se espalha para outros bancos paraguaios, há fuga de capitais e efeitos sobre o câmbio, o comércio internacional e os projetos de integração. “Mas a gente ainda não pode afirmar que exista uma retração generalizada na fronteira”, ponderou o professor.
Para o empresário de MS, a leitura é que a crise no Paraguai pede atenção ao fluxo de caixa e aos contratos com clientes do país vizinho, sem decisões precipitadas. Rever prazos, evitar concentrar recebíveis em uma única instituição paraguaia e acompanhar o câmbio do guarani são medidas de bom senso enquanto o quadro não se define.
Rota Bioceânica no radar
A crise no Paraguai chega num momento sensível para o corredor que deve ligar MS aos portos do norte do Chile. A ponte sobre o Rio Paraguai, entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta, tem 1.294 metros, investimento de cerca de R$ 500 milhões e está em fase de acabamentos, com entrega prevista para o fim de novembro, segundo o Ministério de Obras Públicas paraguaio, de acordo com A Crítica. Os acessos rodoviários dos dois lados, porém, só devem ficar prontos em 2027, o que já vinha sendo apontado como gargalo, como mostrou o alerta recente do secretário Jaime Verruck.
Do lado paraguaio, o trecho de 224 km da rodovia PY-15 está em obras, com investimento de US$ 354 milhões dividido entre quatro consórcios. Os especialistas lembram que nenhuma paralisação foi confirmada até agora. Ainda assim, cronogramas de obras públicas dependem de estabilidade fiscal e política, e esse é um dos pontos que o setor produtivo vai acompanhar de perto, assim como a integração das forças de segurança e das aduanas no corredor.
A crise no Paraguai já afetou a agenda empresarial. O Paraguay Summit, marcado para 13 de novembro e que teria a presença do governador Eduardo Riedel e do presidente da Fiems, Sérgio Longen, foi adiado para 2027, segundo o Campo Grande News.
O que acompanhar daqui para frente
Os especialistas sugerem uma lista de indicadores para medir o impacto da crise no Paraguai em MS nas próximas semanas: volume de exportações e importações com o país vizinho, fluxo de caminhões na fronteira, cotação do guarani frente ao real, emprego e arrecadação nos municípios fronteiriços, ritmo de devolução dos depósitos e cronogramas da Rota Bioceânica.
Para quem empreende em Mato Grosso do Sul, a crise no Paraguai é um lembrete de que integração regional traz oportunidades e também riscos compartilhados. O corredor bioceânico continua sendo a grande aposta logística do Estado, e o Paraguai segue como parceiro inevitável dessa estratégia. O que muda é a necessidade de olhar com mais cuidado para a saúde financeira dos parceiros e para a governança das instituições do outro lado da fronteira.
O Empreenda MS segue acompanhando os desdobramentos da crise no Paraguai e seus reflexos em MS.
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Fontes
- Campo Grande News, 07/11/2026: https://www.campograndenews.com.br/economia/crise-no-paraguai-pode-afetar-economia-de-ms-alertam-especialistas
- Campo Grande News, 05/11/2026: https://www.campograndenews.com.br/cidades/interior/crise-bancaria-atinge-pequenos-poupadores-e-preocupa-comercio-da-fronteira
- InfoMoney, 05/11/2026: https://www.infomoney.com.br/mundo/crise-no-ueno-bank-entenda-como-o-banco-digital-do-paraguai-foi-a-lona/
- A Crítica de Campo Grande, 06/11/2026: https://acritica.net/economia/parceria-ms-paraguai-ponte-bioceanica-porto-murtinho-carmelo-peralta-comercio
- Correio do Estado, 04/11/2026: https://correiodoestado.com.br/2026/11/04/na-fronteira-brasileiros-encontram-paraguai-em-pe-de-guerra-e-contas-congeladas.html
