Novo Caged mostra 35.084 admissões e 33.876 desligamentos no Estado; serviços abrem 1.744 postos e compensam perdas na indústria, no comércio e na agropecuária; Três Lagoas lidera entre os municípios e acumulado do ano chega a 20.456 empregos
Mato Grosso do Sul fechou agosto com saldo positivo de 1.208 empregos com carteira assinada, resultado de 35.084 admissões e 33.876 desligamentos, segundo o Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego na terça-feira (29). O número é melhor que o de julho, quando o Estado havia aberto apenas 730 vagas, mas esconde um quadro desigual: o setor de serviços sustentou sozinho o resultado, enquanto indústria, comércio e agropecuária demitiram mais do que contrataram.
Os dados mostram um mercado de trabalho em movimento intenso. Somadas, as contratações e demissões de agosto envolveram quase 69 mil vínculos formais no Estado em apenas um mês, e o saldo líquido corresponde a pouco mais de 3% das admissões registradas. É um retrato da alta rotatividade que caracteriza a economia sul-mato-grossense e que ajuda a explicar por que resultados mensais podem oscilar tanto de um mês para outro.
Serviços carregam o resultado
O motor do saldo positivo foi o setor de serviços, que abriu 1.744 postos de trabalho em agosto. Dentro dele, as atividades administrativas e serviços complementares tiveram o melhor desempenho, com saldo de 670 vagas. Em seguida vieram as atividades profissionais, científicas e técnicas, com 463 postos, segmento que reúne escritórios de engenharia, contabilidade, consultorias, publicidade e serviços especializados. O grupo que concentra administração pública, defesa, educação e saúde contribuiu com mais 314 vagas.
A construção civil também terminou o mês no azul, com 195 novas vagas, embora em ritmo bem menor que o de julho, quando o setor havia sido o principal responsável por evitar um saldo negativo no Estado, com 1.188 postos criados.
Indústria, comércio e agro no vermelho
Do outro lado da balança, três dos principais setores da economia estadual fecharam agosto com mais demissões do que contratações. A indústria geral teve saldo negativo de 325 vagas, a agropecuária perdeu 243 postos e o comércio encerrou o mês com 163 vagas a menos.
Na indústria, o resultado foi puxado para baixo pelas indústrias de transformação, que fecharam 438 postos. As atividades extrativas e os segmentos de água, esgoto e gestão de resíduos tiveram saldo positivo de 51 vagas cada, insuficiente para compensar a retração nas fábricas.
O desempenho negativo da indústria de transformação se repete pelo segundo mês consecutivo. Em julho, o segmento já havia eliminado 581 empregos, e a indústria como um todo fechou 556 vagas. O dado é coerente com outros indicadores recentes: a produção industrial de Mato Grosso do Sul, medida pelo IBGE, ficou estagnada entre maio e julho, depois de um primeiro semestre forte, embora sondagens da Federação das Indústrias (Fiems) indiquem que a maior parte das empresas pretende manter o quadro de pessoal nos próximos meses.
Três Lagoas lidera; Sidrolândia tem pior saldo
O resultado também variou bastante entre os municípios. Três Lagoas, polo da indústria de celulose na Costa Leste, liderou a criação de empregos em agosto, com saldo de 785 vagas. Campo Grande veio em seguida, com 435 postos, e Chapadão do Sul, no Norte do Estado, aparece em terceiro, com 307. Aparecida do Taboado registrou saldo de 142 vagas e Corumbá abriu 120 postos.
Na outra ponta, Sidrolândia teve o maior saldo negativo do mês, com 268 vagas a menos, seguida por Inocência, com menos 191, e Eldorado, com menos 120. Os números de municípios com forte peso do agronegócio tendem a variar conforme o calendário de safra e entressafra, que afeta diretamente contratações temporárias no campo e na agroindústria.
Acumulado passa de 20 mil vagas
No acumulado de janeiro a agosto de 2026, Mato Grosso do Sul somou 296.322 admissões e 275.866 desligamentos, o que resulta em saldo de 20.456 empregos formais. A variação relativa do estoque de empregos no período foi de 3,08%, ligeiramente acima dos 2,90% registrados no fechamento de julho.
O ritmo, porém, é bem diferente ao longo do ano. Fevereiro segue como o melhor mês de 2026, com 6.260 novos empregos, enquanto abril teve o pior resultado positivo, com apenas 468 vagas. Julho, com 730 postos, havia sido o segundo mais fraco, e representou uma queda de 76,4% em relação ao mesmo mês de 2025, quando o saldo tinha sido de 3.088 vagas. Agosto, portanto, marca uma recuperação parcial, mas ainda distante do desempenho do começo do ano.
Salário de entrada e rotatividade
Os dados de julho, os mais recentes com detalhamento salarial divulgado para o Estado, mostraram que o salário médio de admissão em Mato Grosso do Sul chegou a R$ 2.310,65, com alta real de 4,57% em relação a julho de 2025, já descontada a inflação medida pelo INPC. Mesmo assim, a remuneração inicial seguia abaixo da média nacional, de R$ 2.419,23, uma diferença de R$ 108,58.
Outro traço estrutural é a rotatividade. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, a taxa no Estado foi de 34,51%, próxima da média brasileira, de 34,31%, e abaixo da média do Centro-Oeste, de 35,64%. Na prática, significa que uma parcela expressiva dos postos de trabalho troca de ocupante ao longo de um ano, fenômeno que encarece o treinamento para as empresas e dificulta a formação de mão de obra especializada.
Cenário nacional: recorde de ocupados, mas com informalidade
No Brasil, agosto também terminou com saldo positivo no Caged: foram 2.294.563 admissões e 2.128.736 desligamentos, o que resultou em 165.827 empregos formais criados no mês. Assim como em Mato Grosso do Sul, os serviços lideraram, com 110.346 vagas, seguidos pela construção, com 20.848, pela indústria geral, com 16.613, pelo comércio, com 16.565, e pela agropecuária, com 1.452. No acumulado do ano, o país soma 1,13 milhão de novos postos com carteira assinada.
No mesmo dia, o IBGE divulgou a Pnad Contínua do trimestre encerrado em agosto, com a taxa de desemprego em 5,3%, a menor para o período desde o início da série, em 2012, e um recorde de 103,5 milhões de pessoas ocupadas. O rendimento médio chegou a R$ 3.777. A pesquisa, porém, também mostra que 38,8 milhões de trabalhadores estão na informalidade, o equivalente a 37,5% dos ocupados. Essa divulgação não traz recorte específico para Mato Grosso do Sul.
A questão da qualidade das vagas tem peso particular no Estado. Levantamento do IBGE divulgado na semana passada apontou que apenas 30,8% dos 307 mil trabalhadores por conta própria de Mato Grosso do Sul tinham CNPJ em 2025, índice que recuou em relação ao ano anterior.
Vagas que não dependem do endereço
Uma parte do mercado de trabalho, no entanto, já não cabe inteiramente nas estatísticas locais. Reportagem publicada nesta quarta-feira (30) pelo Campo Grande News mostra profissionais que moram em Mato Grosso do Sul, mas trabalham remotamente para empresas de outros estados e até de outros países, sobretudo na área de tecnologia. Um dos exemplos é Danilo Mota Filho, de 21 anos, morador de Coxim, que conseguiu uma vaga de engenheiro de software em uma empresa dos Emirados Árabes Unidos a partir de uma oferta no LinkedIn e precisou abrir CNPJ para prestar o serviço. Em Campo Grande, o desenvolvedor Erickson do Nascimento, de 37 anos, atua na estrutura de fintech do iFood sem ter deixado a cidade.
A tendência amplia as oportunidades para profissionais qualificados, mas também aumenta a concorrência para as empresas locais. “A concorrência é real neste sentido, e o grande desafio é subsidiar o colaborador com outros benefícios”, afirmou à reportagem a analista de Gente e Gestão Joice Mertevic. Para os empregadores sul-mato-grossenses que mantêm o modelo presencial, salário, benefícios, tempo de deslocamento e qualidade de vida passam a pesar mais na disputa por talentos.
Para quem pretende seguir o mesmo caminho, os relatos apontam para passos práticos: acompanhar plataformas de recrutamento, manter o currículo atualizado e investir em qualificação. Na tecnologia, o inglês aparece como exigência recorrente para quem quer integrar equipes internacionais. “Não precisa ser um inglês rebuscado, técnico, acadêmico. Pelo menos conseguir se entender e ser entendido é importante”, disse Erickson. A experiência acumulada também conta, já que empresas que contratam à distância tendem a buscar profissionais capazes de assumir funções com menos treinamento. Esse contingente, que presta serviço como pessoa jurídica ou é contratado por empresas sediadas fora do Estado, nem sempre aparece no saldo do Caged de Mato Grosso do Sul, mas movimenta renda e consumo nas cidades onde vive.
O que observar nos próximos meses
Os próximos meses devem indicar se a recuperação de agosto se sustenta. Setembro e outubro costumam ser influenciados pelo calendário agrícola e pela preparação do comércio para as vendas de fim de ano, o que pode aliviar o saldo negativo do varejo. Na indústria, a atenção se volta para a transformação, que acumula dois meses seguidos de cortes. Com o acumulado acima de 20 mil vagas até agosto, Mato Grosso do Sul segue com geração de empregos positiva em 2026, mas cada vez mais dependente do desempenho dos serviços.
Fontes: Campo Grande News – MS fecha agosto com saldo de 1.208 empregos a mais após 33,8 mil demissões; Campo Grande News – Emprego formal desacelera, enquanto salário de admissão sobe em MS; Campo Grande News – Desemprego cai a 5,3%, mas avanço da ocupação vem com mais informalidade; Campo Grande News – Sem sair de MS, profissionais disputam vagas em empresas de fora.
