Campo Grande já tem 95% de cobertura de esgoto e mira 98% até 2028; corretores estimam ganho de 5% a 10% no imóvel que se liga à rede, e mercado imobiliário passa a tratar o serviço como requisito de entrada
A expansão do saneamento básico pode valorizar os imóveis de Mato Grosso do Sul em R$ 981,358 milhões até 2031, o equivalente a cerca de R$ 196,271 milhões por ano. A estimativa faz parte do estudo Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento no Mato Grosso do Sul, do Instituto Trata Brasil, e foi destacada em reportagem do Campo Grande News publicada no sábado (24), com entrevistas da presidente do instituto, Luana Pretto, do diretor-presidente da Águas Guariroba, Gabriel Buim, e da vice-presidente do Creci-MS, Simone Leal. Na ponta do mercado, os corretores estimam ganho de 5% a 10% no valor da edificação depois que a rede chega e o imóvel é ligado a ela.
Para quem investe, constrói, vende ou aluga imóveis no Estado, o recado é que uma obra quase invisível, feita debaixo da terra, entra diretamente na conta do preço. E, segundo os especialistas ouvidos, o ganho não acontece de uma só vez: ele acompanha o anúncio do projeto, a execução das obras e, principalmente, a ligação efetiva das casas à rede coletora.
O que diz o estudo
O levantamento, lançado em junho pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a EX ANTE Consultoria, calcula os ganhos econômicos e sociais da universalização dos serviços de água e esgoto no Estado. Estão previstos investimentos de R$ 5,15 bilhões até 2031, com retorno líquido estimado em R$ 16,1 bilhões no período, o equivalente a 62% dos ganhos líquidos projetados até 2040. Considerando o conjunto de impactos, o estudo aponta ganho de produtividade estimado em R$ 8 bilhões para a população.
A relação entre o que se investe e o que se colhe chama atenção. Para cada R$ 1 aplicado em saneamento em Mato Grosso do Sul, o retorno econômico e social estimado é de R$ 5,90, acima da média nacional, de R$ 4,10. Em nível nacional, o instituto indica que imóveis em áreas com rede de tratamento de esgoto podem valer até 14% mais do que aqueles sem o serviço.
“Quando temos acesso pleno ao saneamento, a água chega 24 horas por dia. O esgoto coletado e tratado vai despoluir os rios, vai trazer uma melhor qualidade de vida para a população. Então, esse ganho é de quase 1 bilhão de valorização imobiliária”, afirmou Luana Pretto ao Campo Grande News.
Onde o Estado ainda precisa avançar
Os números também mostram o tamanho do caminho que falta. Segundo o estudo, em 2024 cerca de 353 mil pessoas em Mato Grosso do Sul ainda não tinham acesso à água tratada, um déficit de 12,2%, abaixo da média nacional de 18,1%. No esgoto, a lacuna é maior: 1,1 milhão de habitantes, ou 36,9% da população, não estavam ligados à rede coletora, contra 44,8% na média do país. Apenas 45,6% do esgoto gerado recebia tratamento antes de voltar ao meio ambiente.
O Estado, porém, investe acima da média. São R$ 207 por habitante ao ano, enquanto a média brasileira é de R$ 137. Em Campo Grande, o valor chega a R$ 301 por habitante. O Marco Legal do Saneamento estabelece como meta nacional que, até 2033, 99% da população tenha acesso à água potável e 90% à coleta e ao tratamento de esgoto.
O estudo também distribui os ganhos líquidos regionalmente. Campo Grande concentra 46,3% do total, Dourados, 39,5%, e Corumbá, 14,2%. Dourados e Corumbá aparecem com os maiores ganhos por habitante, o que indica que o impacto relativo tende a ser maior onde a cobertura ainda tem mais espaço para crescer.
Campo Grande perto da universalização
Na Capital, a Águas Guariroba, responsável pelos serviços de água e esgoto, informa que a rede coletora já alcança 95% da cidade, com meta de chegar a 98% até 2028. Em 2026, a soma das novas redes implantadas chega a quase 200 quilômetros, beneficiando 20 mil famílias e quase 60 mil pessoas em bairros como Aero Rancho, Jardim Batistão, Cabreúva, Centenário, Nova Campo Grande, Nova Lima, Parati, Rita Vieira, Tijuca, Tiradentes e Universitário.
Neste ano também foram feitas a construção da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Botas, a perfuração de um novo poço nas Moreninhas, a implantação de um reservatório na região do Imbirussu, a substituição de seis reservatórios e a modernização de redes de distribuição de água. O planejamento inclui ainda mais de 122 mil metros quadrados de reposição asfáltica.
Para Gabriel Buim, que comanda a Águas Guariroba e a Ambiental MS Pantanal, esse conjunto cria condições para o crescimento das cidades. “A ampliação da infraestrutura de saneamento favorece o desenvolvimento de novos empreendimentos residenciais e comerciais, contribui para a expansão ordenada da cidade e torna as regiões mais preparadas para receber novos moradores e investimentos”, disse.
Ele defende que a infraestrutura chegue antes da ocupação. “Com a ampliação antecipada da infraestrutura, é possível preparar novas áreas para receber ligações domiciliares, reduzir limitações ao desenvolvimento imobiliário e ampliar os benefícios do saneamento para a população”, afirmou.
Os três momentos da valorização
A vice-presidente do Creci-MS, Simone Leal, explica que a presença da rede coletora produz ganhos mensuráveis, sobretudo em bairros que antes dependiam de fossas ou de soluções precárias. A referência local da Câmara de Valores Imobiliários de Mato Grosso do Sul estima ganho de 5% a 10% na edificação depois da instalação da rede e da ligação do imóvel.
Segundo ela, a valorização costuma ocorrer em três etapas. A primeira é o anúncio do investimento e do projeto, quando surge uma expectativa de melhoria que pode influenciar o mercado, embora ainda seja volátil. A segunda corresponde à execução das obras, quando o ganho pode aparecer gradualmente, sobretudo se houver recomposição adequada das vias e melhorias na drenagem. A terceira é a ligação efetiva do imóvel à rede coletora.
É nessa última fase que o ganho tende a ser maior. “É o momento de maior ganho, porque o proprietário deixa de arcar com fossa, limpeza e risco sanitário”, afirma Simone. Ela ressalta, porém, que a rede disponível na rua não basta: “O bairro pode ter rede disponível, mas a valorização só se consolida quando as casas fazem a ligação”.
Requisito de entrada, não diferencial
Para o mercado imobiliário, a leitura é pragmática. Segundo a dirigente do Creci-MS, o cliente de classe média e de empreendimentos novos prioriza bairros já consolidados, com água, esgoto, asfalto, escolas, comércio e transporte. “O saneamento funciona como requisito de entrada, não como diferencial de venda: quase ninguém escolhe um imóvel porque tem esgoto, mas muitos descartam um imóvel porque não tem”, resume.
A percepção aparece também entre moradores. O construtor civil Ronildo Dutra, de 64 anos, que vive na Avenida Marajoara, no bairro Centro-Oeste, atribui ao saneamento parte da valorização da casa onde mora. Pela estimativa dele, a residência, comprada no passado por cerca de R$ 150 mil, valeria hoje perto de R$ 400 mil. “Se não tivesse saneamento, nem valor ia ter”, disse ao Campo Grande News.
O que o empreendedor pode fazer
Para proprietários, investidores e pequenas construtoras, alguns pontos práticos se destacam. O primeiro é verificar se a rede já passa em frente ao imóvel e, se passar, providenciar a ligação, já que é ela que consolida o ganho de valor. O segundo é acompanhar o planejamento de expansão das concessionárias, porque regiões que recebem rede, drenagem e recomposição de asfalto tendem a ganhar atratividade para novos loteamentos, comércio e serviços.
Na avaliação de imóveis para compra, locação ou financiamento, a ausência de esgoto pode pesar contra, segundo o Creci-MS. E, em cidades do interior onde a cobertura ainda é menor, a chegada da rede pode abrir espaço para a valorização relativa mais alta apontada pelo estudo, como em Dourados e Corumbá.
O setor também gera oportunidades de negócio além do mercado imobiliário. Obras de rede, manutenção, tecnologia para monitoramento e tratamento de água abrem espaço para fornecedores locais e startups. Um exemplo é o edital Sanesul Innova, que busca soluções para tratamento de água no interior e foi apresentado durante a Semana da Inovação no parque tecnológico de Ponta Porã, com inscrições até 10 de novembro.
Infraestrutura e competitividade
A agenda de saneamento dialoga com a disputa por investimentos entre as cidades. Infraestrutura básica é um dos pilares observados em rankings de competitividade, como o que colocou Campo Grande na melhor posição de sua história. Cidades com água e esgoto universalizados tendem a atrair moradores, empresas e empreendimentos com mais facilidade.
O horizonte das metas é curto. Até 2031, segundo o estudo, Mato Grosso do Sul pode colher a maior parte dos ganhos líquidos previstos até 2040. Em Campo Grande, a meta de 98% de cobertura de esgoto está marcada para 2028. A velocidade com que os moradores fizerem as ligações à rede, e com que o interior reduzir o déficit, vai definir quanto desse potencial de quase R$ 1 bilhão em valorização imobiliária vai, de fato, se transformar em patrimônio para as famílias e em negócio para o mercado.
Fontes
Campo Grande News: Debaixo da terra, o investimento que pode valorizar imóveis em quase R$ 1 bilhão (24/10/2026); Instituto Trata Brasil: Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento no Mato Grosso do Sul (junho de 2026).
