Projeto com a Evoll Tecnologia recebeu recursos do FNDCT via Finep para validar o MTRUCK, kit que reposiciona os eixos dos vagões; tecnologia criada em MS mira a retomada das ferrovias no Estado
Uma tecnologia ferroviária desenvolvida em Mato Grosso do Sul vai passar por validação científica com participação da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). O projeto, em parceria com a empresa sul-mato-grossense Evoll Tecnologia e Desenvolvimento, foi aprovado com valor global de R$ 5.258.816,00 para testar o MTRUCK, um sistema que ajusta a posição dos eixos dos trens nas curvas para reduzir o atrito entre rodas e trilhos. A informação foi divulgada pela universidade e publicada pelo Campo Grande News no sábado (24). Os recursos são do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), obtidos por meio de chamada pública da Finep.
A proposta é atacar um problema conhecido do transporte de cargas sobre trilhos: nas curvas, as rodas dos vagões tendem a raspar nos trilhos, o que aumenta a resistência ao movimento, eleva o consumo de combustível e acelera o desgaste de peças. Ao reposicionar os eixos, o sistema busca diminuir essa resistência e, como consequência, a energia necessária para transportar a carga. O projeto também vai medir os efeitos ambientais da tecnologia, como as emissões evitadas.
Como funciona o MTRUCK
O mecanismo foi concebido para ser instalado nos truques, as estruturas que reúnem rodas e eixos e sustentam os vagões. A ideia não é fabricar vagões novos, e sim modernizar equipamentos que já rodam no transporte ferroviário de cargas por meio de um kit, processo conhecido como retrofit. Esse detalhe pesa no modelo de negócio: em vez de exigir troca de frota, a solução pode ser aplicada sobre o material rodante existente, o que tende a reduzir a barreira de entrada para as operadoras.
O título oficial do projeto resume a ambição: “Desenvolvimento e Validação de Sistema Mecânico Autodirecional MTRUCK® para Redução de Atrito, Eficiência Energética e Descarbonização do Transporte Ferroviário de Cargas”. Segundo as informações divulgadas pela universidade, ainda não há estimativas percentuais de economia de combustível ou de redução de emissões. Esses números são justamente o que a validação deve produzir.
O papel da universidade
A UEMS ficará responsável pela validação científica e pela avaliação dos parâmetros ambientais, por meio de dois centros: o Cesam (Centro de Estudos em Saneamento Ambiental) e o Cerna (Centro de Estudos em Recursos Naturais). Os pesquisadores vão desenvolver métodos para quantificar as emissões evitadas e analisar indicadores de consumo e de eficiência energética.
A equipe também vai produzir inventários e documentos técnicos para subsidiar a transferência da tecnologia, etapa que costuma ser decisiva para que uma inovação saia do laboratório e chegue ao mercado. A coordenação científica é do professor Edmilson de Souza. Para ele, a parceria reúne conhecimentos da universidade e da indústria na busca de soluções para o setor produtivo.
Além de Edmilson, integram a equipe os professores Vinícius de Oliveira Ribeiro, Sandro Marcio Lima, Nelison Ferreira Correa, Lívia Malacarne Pinheiro Rosalem, André Giulliano Mazini e Carlos Henrique Portezani. São sete pesquisadores das áreas de Engenharia Mecânica, Física Aplicada, Engenharia Ambiental e Ciências Sociais Aplicadas, combinação que reflete o desenho do projeto: medir o desempenho mecânico, calcular o ganho energético e traduzir os resultados em indicadores ambientais e econômicos.
NIT costurou a parceria
A articulação entre a universidade e a empresa passou pelo Núcleo de Inovação Tecnológica da UEMS (NIT-UEMS), que também cuidou do atendimento às diretrizes exigidas para a captação dos recursos. Segundo o coordenador do núcleo, Fábio dos Santos Barros, a iniciativa fortalece a cooperação entre a instituição e o setor produtivo e contribui para transformar conhecimento científico em soluções tecnológicas.
O caso ilustra um movimento que o ecossistema de inovação de Mato Grosso do Sul tenta acelerar: aproximar a pesquisa feita nas universidades das empresas que precisam de soluções. O tema esteve no centro do debate sobre o novo modelo de atração de investimentos após o fim dos incentivos de ICMS, em que ciência, tecnologia e inovação aparecem entre as prioridades, com a meta de criar dois centros de pesquisa e desenvolvimento até 2030.
De onde vem o dinheiro
Os recursos foram obtidos na chamada pública Finep Mais Inovação Brasil, Rodada 2, Subvenção Econômica Regional, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Subvenção econômica é dinheiro não reembolsável: a empresa não precisa devolver o recurso, desde que execute o projeto de inovação aprovado.
A chamada foi lançada no início do ano com R$ 300 milhões, divididos entre Nordeste (R$ 150 milhões), Centro-Oeste (R$ 100 milhões) e Norte (R$ 50 milhões). Segundo a divulgação do edital, as empresas podiam pedir entre R$ 2 milhões e R$ 5 milhões por projeto, com prazo de execução de até dois anos, em áreas alinhadas às missões da Nova Indústria Brasil, como agroindústria, infraestrutura, transformação digital e transição energética. Os projetos precisavam estar em níveis de maturidade tecnológica entre 3 e 9, e 30% dos recursos foram reservados a micro e pequenas empresas.
Em 16 de outubro, a ministra Luciana Santos anunciou uma complementação de R$ 150 milhões, o que elevou o total da rodada para R$ 450 milhões e permitiu apoiar 114 projetos de empresas das três regiões, segundo a Agência Brasil. Na ocasião, o presidente da Finep, Luiz Antônio Elias, afirmou: “É uma oportunidade para que o estado compartilhe o risco do desenvolvimento tecnológico com as empresas”. Do total de projetos aprovados inicialmente, 75% eram de microempresas e empresas de pequeno porte.
Uma ideia que vem sendo testada desde 2022
O MTRUCK não é novidade para quem acompanha o setor em Mato Grosso do Sul. Em abril de 2022, a Evoll apresentou o sistema, então chamado M-TRUCK, ao governo estadual durante uma entrega de equipamentos agrícolas no Centro de Pesquisa Agropecuária da Agraer, em Campo Grande. Na época, a empresa já descrevia o produto como uma evolução dos truques ferroviários e destacava que o desenho articulado reduziria o atrito com a via, preservaria rodas e trilhos e economizaria combustível.
Os testes iniciais eram feitos em uma pista construída no próprio centro de pesquisa, em escala de 5 para 1, com apoio da então Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar. Avaliavam consumo, atrito, inércia, força de engate, desgaste de rodas e trilhos e estabilidade. Na apresentação, o engenheiro e diretor da empresa, Manoel Rodrigues de Lima, disse que “o M-TRUCK foi projetado para enfrentar os maiores vilões do transporte ferroviário”.
A diferença agora é o salto de escala e de método. Com o recurso do FNDCT e a participação da UEMS, a tecnologia passa a ter uma validação científica independente, com metodologia para quantificar ganhos e emissões. É esse tipo de comprovação que operadoras ferroviárias costumam exigir antes de adotar um novo componente em suas frotas.
Por que isso importa para MS
O momento é favorável a soluções ferroviárias no Estado. A Malha Oeste, que liga Corumbá a Mairinque (SP), está parada e foi incluída na carteira federal de projetos de 2027, com leilão previsto para agosto do ano que vem e aporte de dinheiro público. Na região de Corumbá, a mineração também planeja ampliar a logística, como mostra o plano da LHG Mining de elevar a produção de minério e o embarque pelo terminal de Porto Esperança. No leste do Estado, a indústria de celulose investe em ramais ferroviários para escoar a produção até os portos.
Em todos esses casos, o custo de operação por tonelada transportada é decisivo. Uma tecnologia que reduza o consumo de diesel e o desgaste de rodas e trilhos pode ter impacto direto na conta de quem opera a ferrovia e de quem contrata o frete. Há ainda o componente ambiental: grandes exportadores de commodities sofrem pressão crescente de compradores internacionais para medir e reduzir as emissões ao longo da cadeia logística, e um método confiável para quantificar emissões evitadas tem valor próprio nesse mercado.
Para o ecossistema local, o projeto também tem um peso simbólico. Mostra que uma empresa de base tecnológica de Mato Grosso do Sul pode disputar e conquistar recursos federais competitivos de inovação, em parceria com uma universidade estadual, num setor dominado por grandes fabricantes e operadoras. É o tipo de trajetória que programas de fomento, como os da Fundect e da Finep, tentam multiplicar.
Próximos passos
O cronograma detalhado dos testes não foi divulgado. Pelas regras da chamada, os projetos têm até dois anos para execução. Ao fim desse período, a expectativa é que a validação traga os números que hoje ainda não existem: quanto o sistema reduz de atrito, de consumo de combustível e de emissões em condições reais de operação.
Se os resultados confirmarem os ganhos, o desafio seguinte será comercial: convencer operadoras ferroviárias a instalar o kit em suas frotas. Os inventários e documentos técnicos que a UEMS vai produzir servem justamente para apoiar essa transferência de tecnologia. Até lá, o MTRUCK segue como um dos exemplos de inovação industrial nascida em Mato Grosso do Sul com potencial de aplicação nacional.
Fontes
Campo Grande News: Projeto de R$ 5,2 milhões fará teste para reduzir atrito em trens (24/10/2026); Midiamax/Agência Brasil: Empresas de três regiões terão aporte de R$ 450 milhões para inovação (18/10/2026); O Povo: Finep lança edital com R$ 150 milhões para o Nordeste e recursos para outras regiões (19/02/2026); Semadesc: apresentação do M-TRUCK (19/04/2022).
