Conselho aprovou mais R$ 100,1 milhões para 52 projetos em 33 municípios. Com o crédito rural em queda de 20% no Estado, o fundo com juros abaixo do mercado vira uma das poucas portas abertas para quem precisa investir
O Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) aprovou mais R$ 100,1 milhões para Mato Grosso do Sul nesta semana e ainda tem cerca de R$ 1,82 bilhão disponível para novos financiamentos em 2026. A nova leva de crédito foi liberada em reunião extraordinária do Conselho Estadual de Investimentos Financiáveis pelo FCO (CEIF/FCO), na quarta-feira (21), e contempla 52 projetos espalhados por 33 municípios, a maioria ligada ao campo. Para produtores e empresários que pretendem comprar máquinas, ampliar a estrutura ou modernizar o negócio, o recado é direto: ainda há dinheiro com juros abaixo do mercado na mesa até o fim do ano.
O volume ganha peso porque chega num momento de aperto no crédito tradicional. Levantamento da Associação dos Produtores de Soja de MS (Aprosoja/MS) mostra que o crédito rural contratado no Estado caiu 20,2% na safra 2025/2026, para R$ 14,9 bilhões, o menor patamar dos últimos anos. Com bancos mais seletivos e juros mais altos, fundos públicos como o FCO passaram a ser uma das alternativas mais procuradas, e a própria Aprosoja/MS inclui o fortalecimento do FCO Rural entre as suas propostas para a próxima safra.
O que foi aprovado nesta semana
Dos R$ 100,1 milhões aprovados, R$ 76,3 milhões vão para 47 projetos do FCO Rural, voltados a atividades agropecuárias e melhorias na produção. Os outros R$ 23,7 milhões atendem cinco projetos do FCO Empresarial, nos setores de comércio e serviços (três projetos), ciência e tecnologia (um) e indústria (um). Os dados foram divulgados pela gestão estadual e publicados pelo Campo Grande News.
Entre as propostas rurais, a compra de máquinas agrícolas liderou com folga: foram 26 projetos aprovados com essa finalidade. Em seguida aparecem a reforma de pastagens, com quatro projetos, e a aquisição de bovinos e a correção do solo, com três cada. Avicultura, armazenagem, irrigação e florestas tiveram dois projetos aprovados cada, enquanto construções e benfeitorias, energia fotovoltaica e retenção de bovinos receberam uma aprovação cada.
R$ 1,8 bilhão aprovado no ano e outro tanto ainda livre
Com a reunião desta semana, o total de financiamentos autorizados pelo FCO em Mato Grosso do Sul em 2026 chegou a aproximadamente R$ 1,8 bilhão. Foram 937 projetos aprovados no ano, sendo 803 ligados ao setor rural e 134 ao empresarial. A linha rural soma R$ 1,53 bilhão aprovado, enquanto a empresarial chega a R$ 324,4 milhões.
Segundo os dados repassados pela gestão estadual, a Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) destinou R$ 3,68 bilhões ao Estado neste ano, divididos originalmente em partes iguais entre FCO Rural e FCO Empresarial. O saldo ainda disponível, de R$ 1,82 bilhão, representa quase metade do total, o que mantém espaço para novas propostas até dezembro.
Há, porém, um detalhe importante para quem pensa em pedir crédito rural. Em setembro, o conselho remanejou R$ 600 milhões que estavam parados no FCO Empresarial para o FCO Rural, porque o volume contratado no campo, somado às propostas em análise, já estava próximo do limite orçamentário previsto para 2026. A decisão foi tomada na 9ª reunião ordinária, em 17 de setembro, e publicada no Diário Oficial do Estado no dia 22.
Na mesma ocasião, o conselho fixou limites para a compra de máquinas agrícolas, implementos, caminhões e aviões agrícolas: no máximo R$ 15 milhões por proponente, considerando o saldo devedor de todo o grupo familiar, empresarial ou agropecuário, e um teto total de R$ 400 milhões em 2026 para propostas desse tipo. A justificativa citada foi a alta demanda por financiamento desses bens. Ou seja, quem pretende financiar maquinário deve se apressar, porque essa fatia tem teto próprio.
Na outra ponta, a linha empresarial teve bem menos procura do que a rural em 2026, a ponto de ter recursos parados remanejados, o que abre uma janela para comércio, serviços, indústria e turismo. Em outubro, o portal já mostrou que o crédito do Fungetur para o turismo de MS disparou 312% em 2026, sinal de que empresários urbanos também estão atrás de financiamento de longo prazo.
Por que o FCO ganhou importância
O contexto ajuda a explicar a corrida. De acordo com o Informativo Econômico 16/2026 da Aprosoja/MS, feito com dados do Banco Central e da Serasa Experian, o volume de crédito rural no Estado caiu pelo segundo ciclo seguido e ficou 38,4% abaixo do pico de 2023/2024. Entre julho e setembro deste ano, já na safra 2026/2027, foram contratados R$ 3,1 bilhões, recuo de 29% sobre o mesmo período de 2025.
Ao mesmo tempo, o dinheiro ficou mais caro. A taxa média das operações de custeio contratadas em MS chegou a 12,1% ao ano na safra 2025/2026, acima da média nacional de 10,5%. Em 2020/2021, a taxa estadual girava em torno de 5,9%. A carteira problemática, que inclui operações renegociadas, prorrogadas ou em atraso, somava R$ 12,8 bilhões em agosto, ou 27,1% de todo o saldo de crédito rural do Estado.
“Temos custos de produção elevados, juros que encarecem o financiamento e instituições financeiras mais criteriosas na concessão dos recursos”, resumiu o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, ao comentar o levantamento. Nesse cenário, linhas com taxas definidas em programação anual, prazos longos e carência, como as do FCO, ganham atratividade, ainda que também passem pela análise de risco dos bancos.
Quem pode pedir o FCO
Segundo a Sudeco, podem solicitar recursos do fundo produtores rurais e empresários de todos os portes, de micro a grande, que atuem em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás ou no Distrito Federal. O dinheiro pode ser usado para iniciar, ampliar, modernizar ou relocalizar empreendimentos.
As principais linhas são o FCO Empresarial, para indústria, comércio, serviços, turismo e infraestrutura, e o FCO Rural, para atividades agropecuárias. A programação de 2026 prevê ainda uma linha de Ciência, Tecnologia e Inovação e condições diferenciadas para empreendimentos nos biomas Pantanal e Cerrado. As regras detalhadas de cada linha, como taxas, prazos e itens financiáveis, estão na Programação do FCO para 2026, aprovada pela Resolução Condel/Sudeco nº 176/2025 e publicada no Diário Oficial da União em 20 de janeiro.
De forma geral, o fundo oferece juros abaixo dos praticados no mercado, prazos de pagamento e carência mais longos e, segundo a Sudeco, valor máximo de financiamento de 20 milhões por operação. No caso de máquinas e caminhões em MS, vale o limite específico de R$ 15 milhões por proponente fixado pelo conselho estadual.
Passo a passo para solicitar
O caminho depende do tamanho do pedido. Para operações abaixo de R$ 500 mil, a proposta é apresentada diretamente na agência do banco operador. Para operações acima de R$ 500 mil, e também nas linhas de Ciência, Tecnologia e Inovação e Pantanal/Cerrado, é preciso enviar uma carta-consulta junto com a proposta. A carta-consulta é feita por formulário digital, disponível na página do FCO no portal da Sudeco (gov.br/sudeco), sem necessidade de entrega física no banco.
Em Mato Grosso do Sul, as cartas-consulta são analisadas pelo CEIF/FCO, conselho ligado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), que se reúne periodicamente para aprovar os projetos, como na reunião desta semana. Depois da aprovação, a contratação é feita no banco, que faz a análise de crédito e de garantias.
O Banco do Brasil é o operador principal e atende todos os portes. Para mini, micro, pequenos e pequeno-médios tomadores, também operam instituições credenciadas listadas pela Sudeco, entre elas o Bancoob (sistema Sicoob), o Banco Cooperativo Sicredi, o BRDE, a Credicoamo e a central Cresol Sicoper. A Caixa Econômica Federal é credenciada apenas para operações de microcrédito produtivo orientado.
Na prática, a recomendação é procurar o gerente do banco ou da cooperativa com o projeto já desenhado: o que será comprado, orçamentos, capacidade de pagamento e garantias disponíveis. Como mostram os dados da Aprosoja/MS, as instituições financeiras passaram a exigir garantias adicionais e a concentrar recursos em clientes com bom histórico, então documentação organizada e situação cadastral em dia fazem diferença.
Outras portas de crédito para quem empreende
O FCO não é a única fonte de recursos com condições diferenciadas. Pequenas e médias empresas do Estado também têm acesso a linhas do BNDES repassadas por agentes credenciados: como o Empreenda MS mostrou nesta quinta-feira, o banco já liberou R$ 8,8 bilhões a micro, pequenas e médias empresas de MS desde 2023, com caminhos de solicitação parecidos, via banco ou cooperativa.
O que vem pela frente
Com R$ 1,82 bilhão ainda disponível e pouco mais de dois meses até o fim do ano, o conselho estadual deve realizar novas reuniões para analisar cartas-consulta em fila. A tendência, pelos números de 2026, é que a demanda rural continue pressionando o orçamento, enquanto a linha empresarial segue com mais folga. O teto de R$ 400 milhões para máquinas e caminhões é o ponto de atenção para quem ainda não protocolou o pedido.
Para 2027, a programação do fundo será definida pelo Condel/Sudeco e pelo Banco do Brasil, seguindo as diretrizes do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. O setor produtivo do Estado, por meio de entidades como a Aprosoja/MS, já defende mais recursos para o FCO Rural. Para o empreendedor sul-mato-grossense, a mensagem do momento é que o crédito barato existe, mas é finito: quem tem projeto pronto e documentação em dia sai na frente.
Fontes
Campo Grande News: Setor rural concentra maior parte dos R$ 100 milhões aprovados pelo FCO (22/10/2026); Com alta demanda por maquinário, FCO transfere R$ 600 milhões para setor rural (22/09/2026); Crédito rural cai 20% em MS e dívidas já somam R$ 12,8 bilhões no campo (15/10/2026). Sudeco: FCO – Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste.
