Operação estimada em R$ 360 milhões envolve 15 supermercados paulistas e seis no Distrito Federal, depende de aval do Cade e marca a maior aposta recente da rede no varejo de vizinhança
O Grupo Pereira, dono das bandeiras Comper e Fort Atacadista e com matriz em Campo Grande, fechou acordo para comprar 21 supermercados da bandeira Carrefour Bairro, do Grupo Carrefour Brasil. A operação, protocolada no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e confirmada pelas duas empresas entre quinta-feira (25) e sexta-feira (26), reúne 15 lojas no Estado de São Paulo e seis no Distrito Federal. O valor não foi divulgado oficialmente, mas estimativas de mercado citadas por veículos nacionais de economia apontam para cerca de R$ 360 milhões. Se aprovada, a transação leva a bandeira Comper pela primeira vez ao mercado paulista e amplia de forma significativa a presença do grupo na capital federal.
O negócio tem peso especial para Mato Grosso do Sul. Embora tenha nascido em Santa Catarina, o Grupo Pereira construiu em solo sul-mato-grossense parte importante de sua trajetória de expansão e mantém sua matriz na Capital, onde opera principalmente com as bandeiras Comper e Fort Atacadista. O movimento, portanto, é também o de uma empresa com centro de decisão em Campo Grande disputando espaço no maior mercado consumidor do país.
O que está sendo negociado
Segundo as informações divulgadas, as 21 unidades pertencem ao formato Carrefour Bairro, a bandeira de supermercados de vizinhança do grupo francês no Brasil. Das lojas incluídas no acordo, 15 ficam no Estado de São Paulo, uma delas em Campinas, no bairro Cambuí, e seis no Distrito Federal.
No Distrito Federal, a aquisição deve reforçar a atuação do grupo principalmente no Plano Piloto, com unidades em áreas como Asa Sul, Asa Norte e Lago Sul. O Grupo Pereira já mantém na região seis lojas do Fort Atacadista, seu formato de atacarejo. Com a conclusão do negócio, a companhia informou que passará a operar dez supermercados com a bandeira Comper na capital federal.
Em São Paulo, o efeito é de estreia. O grupo já atua no Estado com o Atacado Bate Forte, o Fort Atacadista e a rede de farmácias SempreFort, mas ainda não tinha supermercados Comper em território paulista. A compra das lojas do Carrefour Bairro, portanto, é a porta de entrada da bandeira de varejo tradicional do grupo no Estado mais populoso do país.
A conclusão da transação depende do cumprimento das condições previstas em contrato, entre elas a aprovação do Cade, órgão responsável por avaliar se operações de fusão e aquisição podem gerar concentração excessiva de mercado. Até a autorização final e a transferência das unidades, as lojas continuam funcionando normalmente sob gestão do Carrefour. A expectativa, segundo as informações divulgadas, é que depois da transferência os pontos passem a operar sob a marca Comper.
Quem é o Grupo Pereira
Com 64 anos de atuação nos segmentos de varejo e atacado, o Grupo Pereira é uma empresa de origem familiar que hoje está presente em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Santa Catarina, São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. Além dos supermercados Comper, do Fort Atacadista, do Atacado Bate Forte e da Farmácia SempreFort, a companhia atua com atacado de distribuição, logística e serviços financeiros.
De acordo com o ranking da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o grupo encerrou 2025 com faturamento de R$ 17,5 bilhões, o que o coloca como a sétima maior rede de supermercados do país em vendas. A companhia reúne 194 unidades de negócio, das quais 117 são de varejo alimentar, e emprega cerca de 24 mil pessoas.
O grupo é presidido pelo empresário Beto Pereira, que aparece na lista Forbes de Bilionários Brasileiros de 2026 com patrimônio estimado em R$ 3 bilhões, ocupando a 136ª posição entre os 225 brasileiros listados. Ele é o único nome ligado a Mato Grosso do Sul no levantamento, o que ajuda a dimensionar o peso da empresa na economia estadual.
A diversidade de formatos é uma das marcas do grupo. Enquanto o Comper atende o consumidor final em supermercados de bairro e de maior porte, o Fort Atacadista e o Atacado Bate Forte trabalham com o modelo de atacarejo, que combina venda no varejo e no atacado. A rede SempreFort leva o grupo ao varejo farmacêutico, e as áreas de distribuição, logística e serviços financeiros completam a operação. É essa estrutura que agora ganha 21 novos pontos em dois dos mercados mais disputados do país.
Por que o Carrefour decidiu vender
Do lado do vendedor, a operação se encaixa em um processo de reorganização que o Carrefour Brasil vem conduzindo nos últimos anos. Em comunicado, a companhia limitou-se a dizer que a venda “faz parte do processo contínuo de revisão e otimização do portfólio da companhia, com foco em eficiência, complementaridade entre os formatos e alocação de recursos de acordo com as prioridades estratégicas do negócio”.
Na prática, a estratégia do grupo francês no país está concentrada nos grandes formatos: o Atacadão, sua bandeira de atacarejo; os hipermercados Carrefour; e o Sam’s Club, clube de compras por assinatura. No segmento de proximidade, a atuação seguirá por meio das lojas Carrefour Express, de menor porte. Segundo reportagens publicadas sobre o negócio, o movimento ocorre em meio a medidas de maior foco na operação do Atacadão, revisão de custos e despesas e busca por eficiência operacional.
A sinalização já tinha sido dada publicamente. Em maio, o CEO do Grupo Carrefour Brasil e América Latina, Pablo Lorenzo, afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo que as lojas de proximidade têm peso pequeno para a companhia. “Não é algo que vemos como um eixo de grande crescimento estratégico no Brasil”, disse o executivo na ocasião, ao ressaltar que o foco está nas unidades de grande superfície.
Estratégias opostas no mesmo tabuleiro
O acordo coloca frente a frente duas leituras diferentes sobre o varejo alimentar brasileiro. De um lado, o líder do setor aposta na escala e nos formatos de grande superfície, com destaque para o atacarejo, que ganhou espaço entre consumidores e pequenos comerciantes nos últimos anos. De outro, o Grupo Pereira, que também tem forte operação em atacarejo com o Fort Atacadista, enxerga nas lojas de bairro uma oportunidade de ampliar a presença do Comper, sua marca de supermercado tradicional, em mercados onde ainda não atuava com esse formato.
Para o grupo com matriz em Campo Grande, a aquisição de lojas já em funcionamento tem uma vantagem evidente em relação à construção de unidades próprias: os pontos comerciais estão instalados, têm clientela formada e ficam em regiões de alta renda e grande circulação, como os bairros centrais de Brasília. Em vez de disputar terreno e licenças para abrir lojas do zero, a companhia herda uma rede pronta e pode concentrar esforços na conversão de bandeira, na integração logística e na adaptação do sortimento.
O desafio, por outro lado, é o de qualquer conversão em larga escala: manter o fluxo de clientes durante a troca de marca, integrar sistemas, redefinir fornecedores e preservar ou reorganizar as equipes que hoje trabalham nas lojas. Esses detalhes ainda não foram divulgados pelas empresas e devem ficar mais claros depois da análise concorrencial.
O que muda para Mato Grosso do Sul
Ainda que nenhuma das 21 lojas esteja em território sul-mato-grossense, a operação tem reflexos para a economia do Estado. Empresas que mantêm sua matriz em Mato Grosso do Sul e crescem fora dele ampliam o porte das operações administradas a partir do Estado, o que tende a reforçar a importância de áreas corporativas como gestão, finanças, compras, tecnologia e logística. A expansão também projeta nacionalmente uma marca muito conhecida do consumidor de Campo Grande e de outras cidades do Estado.
O caso ilustra ainda um movimento que o ecossistema empresarial sul-mato-grossense tem observado com atenção: companhias com raízes ou centro de decisão em Mato Grosso do Sul deixando de atuar apenas no mercado regional e passando a disputar espaço em grandes centros consumidores. No varejo alimentar, um dos setores mais competitivos do país, crescer por aquisição exige capacidade financeira, gestão estruturada e disposição para integrar operações em ritmo acelerado, atributos que o grupo vem demonstrando ao longo de mais de seis décadas.
Para o consumidor sul-mato-grossense, a operação não traz mudança imediata. As lojas do Comper e do Fort Atacadista no Estado seguem funcionando normalmente, e o negócio anunciado envolve exclusivamente unidades localizadas em São Paulo e no Distrito Federal.
Próximos passos
O próximo capítulo da negociação depende do Cade. Pela legislação de defesa da concorrência, o órgão analisa operações de fusão e aquisição que atinjam determinados patamares de faturamento para verificar se há risco de concentração excessiva de mercado nas regiões envolvidas. Casos considerados mais simples podem ser aprovados em procedimento sumário, enquanto operações com potencial de impacto concorrencial passam por análise mais detalhada e podem ter a aprovação condicionada a compromissos das empresas.
Enquanto isso, as 21 lojas continuam sob gestão do Carrefour e funcionando normalmente. Somente após a aprovação regulatória e o cumprimento das demais condições previstas no contrato é que as unidades serão transferidas e começarão a ser convertidas para a bandeira Comper.
Se confirmado, o negócio encerra a presença do Carrefour Bairro nesses mercados e abre uma nova etapa para o Grupo Pereira, que passará a disputar diretamente o consumidor paulista e o consumidor do Plano Piloto com sua bandeira de supermercados. Para Mato Grosso do Sul, fica o registro de uma empresa com matriz na Capital protagonizando uma das principais movimentações do varejo alimentar brasileiro neste segundo semestre.
Fontes: Campo Grande News; CNN Brasil / Estadão Conteúdo; Folha MS; ACidade ON Campinas.
