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Lendo: Celulose vira a nova locomotiva industrial de MS e multiplica por três o emprego no setor em 15 anos
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Empreenda MS > Economia > Celulose vira a nova locomotiva industrial de MS e multiplica por três o emprego no setor em 15 anos
Economia

Celulose vira a nova locomotiva industrial de MS e multiplica por três o emprego no setor em 15 anos

Empreenda MS Publicado em 10/09/2026 191 visualizações
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12 minutos de leitura
Pilha de toras de madeira em pátio de indústria de celulose
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Produção cresce 1.148% desde 2010, exportações saltam para US$ 3,12 bilhões e Estado consolida mudança de perfil econômico, com mais produtos industrializados na pauta de vendas ao exterior

A indústria de celulose de Mato Grosso do Sul deixou de ser uma promessa em expansão para se tornar uma das principais engrenagens da economia estadual, conforme levantamento divulgado nesta semana com base em dados do Observatório Industrial da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul). Entre 2010 e 2025, o número de trabalhadores ligados ao setor no Estado passou de 7.004 para 24.430 — um crescimento de 249% —, enquanto a receita obtida com exportações saltou de US$ 431,4 milhões para US$ 3,12 bilhões no mesmo intervalo. Os números foram publicados em 8 de setembro pelo Campo Grande News e ajudam a dimensionar uma transformação que reposicionou Mato Grosso do Sul no mapa industrial brasileiro em pouco mais de uma década.

O indicador mais expressivo talvez seja o do valor bruto da produção. Entre 2010 e 2024, o montante passou de R$ 1,63 bilhão para R$ 20,4 bilhões, uma expansão de 1.148% em 14 anos. No mesmo período, o volume físico exportado avançou de 857,8 mil toneladas para 6,91 milhões de toneladas, o que significa que o Estado passou a embarcar mais de oito vezes a quantidade de celulose registrada no início da série histórica.

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Vale observar o descompasso entre os ritmos. Enquanto o emprego no setor cresceu 249% no período, o valor bruto da produção avançou 1.148% — quase cinco vezes mais. A leitura é direta: trata-se de uma atividade que ganha escala principalmente por intensidade de capital, e não por absorção de mão de obra. Cada novo real produzido exige proporcionalmente menos trabalhadores do que exigia em 2010, o que ajuda a explicar por que os municípios que recebem as plantas industriais sentem forte impacto na arrecadação sem necessariamente registrar crescimento equivalente no emprego formal de longo prazo.

O mesmo raciocínio aparece na relação entre volume e receita exportada. As 6,91 milhões de toneladas embarcadas em 2025 representam pouco mais de oito vezes o volume de 2010, enquanto a receita cresceu cerca de sete vezes no mesmo intervalo. A diferença entre os dois multiplicadores é o retrato da volatilidade de preço que acompanha a commodity: o Estado exporta muito mais, mas o valor unitário obtido depende de um mercado internacional sobre o qual MS não tem controle. É esse tipo de exposição que costuma motivar estratégias de verticalização.

Para Ezequiel Resende, economista-chefe da Fiems, o setor representa uma das mudanças estruturais mais profundas ocorridas na indústria sul-mato-grossense nos últimos anos. “A celulose é uma nova locomotiva. Pelo volume de investimentos, pelo rápido crescimento e pela participação na atividade econômica e industrial do Estado, ela se consolidou como um dos principais ramos da indústria de transformação do Mato Grosso do Sul”, afirmou ao Campo Grande News.

De commodity agrícola a produto industrializado

O ponto que mais chama atenção de quem acompanha o ecossistema produtivo de MS não é apenas o tamanho dos números, mas o que eles representam em termos de composição da economia. Historicamente associado à produção de commodities agropecuárias — soja, milho, carne bovina —, o Estado passou a ampliar de forma consistente a presença de produtos industrializados e de maior valor agregado em sua pauta de exportações. A celulose é o exemplo mais visível dessa virada.

“O melhor exemplo dessa transformação é a celulose. Ganhamos novos produtos de maior valor agregado, alcançamos novos mercados e aumentamos significativamente nossa presença internacional”, destacou Resende.

A distinção importa. Exportar celulose não é o mesmo que exportar tora de madeira ou cavaco. O produto passa por um processo industrial intensivo em capital, que exige plantas fabris de bilhões de reais, mão de obra qualificada, infraestrutura logística dedicada e uma cadeia de fornecedores locais que se desenvolve ao redor das unidades produtivas. Cada tonelada embarcada carrega valor agregado que fica no território — em salários, tributos, contratos de serviços e demanda por bens e serviços nas cidades onde as fábricas se instalam.

É por isso que o economista da Fiems avalia que a celulose “está entre os segmentos que mais contribuem para a geração de riqueza da indústria de transformação sul-mato-grossense”. Não se trata apenas de somar dólares à balança comercial, mas de alterar a natureza da inserção do Estado no comércio internacional.

Florestas plantadas como base da cadeia

A expansão industrial se apoia em um ativo que MS construiu ao longo de duas décadas: a base de florestas plantadas. A disponibilidade de eucalipto em escala, associada a condições edafoclimáticas favoráveis, ciclos de crescimento curtos e disponibilidade de terra a custo competitivo, permitiu que o Estado atraísse investimentos de grande porte e formasse uma cadeia produtiva integrada — do viveiro à fábrica, da colheita florestal ao porto.

Esse modelo de integração vertical é o que sustenta a competitividade do setor. A proximidade entre as áreas de plantio e as unidades industriais reduz o custo logístico da madeira, que é um dos componentes mais sensíveis da estrutura de custos da celulose. Quanto menor o raio médio de transporte da floresta até a fábrica, maior a margem operacional.

O resultado aparece na geografia econômica do Estado. Municípios como Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Inocência e Bataguassu passaram por transformações aceleradas em população, arrecadação, mercado imobiliário e demanda por serviços urbanos. A instalação de plantas industriais de grande porte reconfigurou economias locais que antes dependiam quase exclusivamente da pecuária extensiva.

Efeitos colaterais do crescimento acelerado

O avanço, contudo, não é isento de tensões. Reportagens recentes do próprio Campo Grande News apontam desafios de adaptação em cidades que receberam grandes investimentos industriais. Em Ribas do Rio Pardo, por exemplo, o município busca alternativas para lidar com a desaceleração do comércio local após o pico das obras de implantação da fábrica — um fenômeno conhecido em economia regional como “efeito canteiro”, quando a fase de construção civil injeta um volume de renda temporária que não se sustenta na fase operacional, mais intensiva em capital e menos em mão de obra.

Também está em curso a construção de infraestrutura logística associada ao setor, como a ponte de 270 metros que começa a tomar forma na ferrovia da Arauco, obra que integra o esforço de escoamento da produção. A adequação da malha ferroviária e rodoviária é um dos gargalos que a expansão da celulose expõe: sem capacidade de transporte compatível com o volume produzido, o ganho de competitividade industrial se perde no caminho até o porto.

Há ainda o debate ambiental e social sobre o uso do solo. A expansão das áreas de floresta plantada compete com outros usos produtivos e demanda monitoramento quanto a recursos hídricos, corredores de biodiversidade e relação com comunidades do entorno — temas que ganham peso à medida que o setor amplia sua escala.

O que isso significa para o ecossistema de inovação

Para o ecossistema de inovação e empreendedorismo de Mato Grosso do Sul, a consolidação da celulose como base industrial abre um campo de oportunidades ainda pouco explorado. Cadeias industriais maduras tendem a gerar demanda por soluções tecnológicas específicas: sensoriamento e monitoramento florestal, otimização de rotas de transporte de madeira, manutenção preditiva de equipamentos fabris, gestão de resíduos e coprodutos, biotecnologia aplicada a mudas e controle fitossanitário.

É nesse encaixe que programas estaduais de inovação aberta e de fomento a startups podem encontrar terreno fértil. Uma indústria que movimenta R$ 20,4 bilhões em valor bruto de produção e emprega mais de 24 mil pessoas representa um mercado comprador relevante para pequenas empresas de base tecnológica instaladas no Estado — desde que exista a articulação necessária entre grandes indústrias, universidades, institutos de pesquisa e o ambiente de startups.

A bioeconomia, aliás, aparece como um dos vetores mais promissores. Os coprodutos do processo de fabricação de celulose — lignina, tall oil, resíduos de biomassa — são insumos para uma gama de aplicações industriais que hoje o Brasil ainda importa ou desperdiça. Transformar esses fluxos em novos negócios exigiria justamente o tipo de conexão entre pesquisa aplicada e mercado que as políticas estaduais de ciência e tecnologia buscam estimular.

Próximos passos

A pergunta que se coloca daqui em diante é se Mato Grosso do Sul conseguirá converter o volume da celulose em profundidade de cadeia. Produzir e exportar pasta de celulose é um estágio; verticalizar para papel, embalagens, tissue e derivados químicos é outro, com potencial de agregar mais valor por tonelada e diversificar o risco de exposição a um único produto com preço internacional volátil.

O setor de celulose é notoriamente cíclico. Os preços internacionais oscilam conforme a demanda chinesa, a entrada de novas capacidades produtivas no mercado global e os movimentos cambiais. Um Estado que passa a depender de forma relevante desse fluxo precisa construir amortecedores — seja pela diversificação industrial, seja pelo aprofundamento da cadeia local.

Por ora, os números confirmam uma tese que vinha sendo defendida por analistas econômicos regionais: a indústria assumiu papel de destaque no crescimento de MS, e a celulose é a face mais visível desse processo. Cabe agora acompanhar se o Estado saberá transformar essa base industrial em plataforma para atividades de maior densidade tecnológica — ou se permanecerá como fornecedor de matéria-prima processada para cadeias que agregam valor em outros lugares.

Fontes:
Campo Grande News — “Celulose transforma perfil industrial de MS com salto em produção e exportações” (08/09/2026): link
Campo Grande News — “Fábrica acelera, mas comércio freia e Ribas busca saída para a ‘estagnação’” (04/09/2026): link
Campo Grande News — “Ponte de 270 metros começa a tomar forma em ferrovia da Arauco” (04/09/2026): link

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