Serasa Experian aponta 136,6 mil CNPJs negativados no Estado, alta de 25,7% em um ano, e dívidas de R$ 4,09 bilhões; em Chapadão do Sul, Sebrae/MS e bancos promovem talk show para ensinar pequenos empresários a usar o crédito sem cair no endividamento
O número de empresas inadimplentes em Mato Grosso do Sul chegou a 136,6 mil em julho, com dívidas que somam aproximadamente R$ 4,09 bilhões, segundo os Indicadores de Inadimplência da Serasa Experian. Na comparação com julho de 2025, a quantidade de CNPJs com contas em atraso cresceu 25,7%, e o volume de débitos avançou 45%. Os dados, divulgados pelo jornal Midiamax na terça-feira (29), chegam no mesmo dia em que empresários de Chapadão do Sul se reuniram com representantes de bancos, a convite do Sebrae/MS, justamente para aprender a usar o crédito de forma planejada.
A coincidência ilustra o dilema vivido por milhares de pequenos negócios sul-mato-grossenses: o crédito é indispensável para investir, repor estoque e atravessar períodos de caixa apertado, mas, com juros elevados, uma decisão mal calculada pode empurrar a empresa para o atraso e, no limite, para a recuperação judicial.
Dívida média sobe 15%
Segundo a Serasa, Mato Grosso do Sul responde por cerca de 1,5% das empresas inadimplentes do país e ocupa a 16ª posição entre os estados com maior número de CNPJs nessa situação. A dívida média por empresa também subiu, de R$ 25.962,53 para R$ 29.943,06 em 12 meses, alta de 15,3%.
O endividamento não se restringe às empresas urbanas. No campo, 27,6% dos financiamentos de produtores rurais eram considerados problemáticos, de acordo com levantamento da Aprosoja-MS citado pela reportagem, percentual quase o dobro dos 13,9% registrados 18 meses antes. Entre as famílias, o índice de inadimplência da pessoa física no Estado chegou a 60,86%, conforme o Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas da Serasa. Bancos e cartões de crédito respondem por 28,32% das dívidas, seguidos por financeiras (17,95%), contas de água, luz e gás (17,86%) e serviços (14,09%).
Recuperação judicial acima da média
Outro indicador de pressão aparece nos pedidos de recuperação judicial. No segundo trimestre de 2026, Mato Grosso do Sul registrou 3,2 no Indicador de Recuperação Judicial (IRJ), acima da média nacional de 2,3. O Estado contabilizava 144 empresas em recuperação judicial, a maioria micro (37,7%) e pequenas empresas (29,8%), ou seja, dois terços do total são negócios de menor porte.
Para o economista Fábio Ferreira Júnior, diretor de Projetos da Agricon Consultoria, o quadro vai além das dificuldades individuais. “Estamos vivendo um momento que exige atenção. Endividamento, inadimplência, custo elevado do crédito e redução da confiança acabam pressionando tanto a capacidade de consumo das famílias quanto a capacidade de investimento das empresas”, avaliou ao Midiamax. Segundo ele, quando famílias consomem menos e empresas investem menos, “a demanda enfraquece, pressionando receitas, emprego e renda”.
O economista defende decisões mais individualizadas. “Nem toda empresa ou produtor enfrenta a mesma realidade. Mais do que simplesmente buscar crédito, é fundamental avaliar a capacidade de pagamento, o fluxo de caixa, o mercado de atuação e a finalidade do recurso”, afirmou. Para ele, algumas empresas precisam priorizar a reorganização das dívidas e a preservação do caixa, enquanto outras podem precisar investir para ganhar produtividade. “O importante é entender a realidade financeira do negócio antes de tomar novas decisões de crédito ou investimento.”
Descomplicando o crédito no Norte do Estado
É exatamente essa lógica que orientou o 1º Bate-Papo com Empresários – Descomplicando o Crédito, realizado na terça-feira (29) em Chapadão do Sul. A iniciativa do Sebrae/MS, voltada à educação financeira e tributária, reuniu em formato de talk show representantes de instituições bancárias, empresários, profissionais da área financeira e potenciais empreendedores para discutir acesso consciente ao crédito, planejamento financeiro e oportunidades de financiamento.
A ação integra o programa Cidade Empreendedora, realizado pelo Sebrae/MS em parceria com o Governo do Estado e a gestão municipal, e teve apoio da Prefeitura, da Sala do Empreendedor e da Associação Comercial Empresarial de Chapadão do Sul. O público reuniu microempreendedores individuais (MEIs), micro e pequenas empresas, produtores rurais, artesãos, contadores e profissionais do setor financeiro.
Entre os temas debatidos estiveram as linhas de financiamento disponíveis, taxas de juros, Custo Efetivo Total (CET), garantias, planejamento financeiro e estratégias para evitar o endividamento. A programação incluiu situações práticas e espaço para perguntas, além de orientações sobre a preparação dos negócios para as mudanças trazidas pela Reforma Tributária.
Para a gerente da Regional Norte do Sebrae/MS, Luzicarla Softov, informação qualificada é a principal ferramenta diante das transformações no ambiente econômico. “Quando o empreendedor entende as condições do crédito e organiza o planejamento financeiro, ele consegue tomar decisões mais seguras e aproveitar melhor as oportunidades”, afirmou. “Nosso papel é justamente levar informação e qualificação para que os negócios estejam mais preparados para crescer de forma sustentável.”
O secretário de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente de Chapadão do Sul, Marcelo Balen, destacou o momento do encontro. “O Descomplicando o Crédito chega em um momento muito importante, em que o empresário passa por dificuldades relacionadas ao custo do crédito e precisa tomar decisões cada vez mais assertivas”, disse. Segundo ele, ter acesso a informações confiáveis ajuda o empreendedor “a avaliar melhor quando e como buscar um financiamento”.
Crédito planejado como alavanca
O mediador do talk show, o analista técnico do Sebrae/MS Murilo Goiris, ressaltou a importância de entender como as instituições financeiras avaliam os pedidos. “Este evento é uma grande oportunidade para os empresários conhecerem como as instituições financeiras analisam o crédito e quais são as melhores oportunidades disponíveis em Chapadão do Sul. Além de entenderem que o crédito planejado pode ser um impulsionador do crescimento da empresa”, afirmou.
A orientação passada aos participantes foi olhar além do valor liberado: juros, prazo, garantias, custo efetivo e capacidade de pagamento precisam caber no planejamento do negócio. O recurso deve atender a uma necessidade concreta, seja investimento, capital de giro, ampliação ou compra de equipamentos, e não servir apenas para tapar buracos de caixa sem um plano de reorganização.
Entre os participantes, o empresário Alaercio Maran, do Colégio Maper, elogiou a variedade de alternativas apresentadas. “Vimos que existem várias opções de linhas de crédito e diferentes condições de juros, além da importância de manter um bom cadastro junto às instituições financeiras”, disse. Ele destacou ainda as informações sobre o FCO (Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste): “São valores que podem contribuir para o crescimento dos municípios e do Estado. Isso motiva o empresário a buscar financiamentos com juros mais adequados e, principalmente, a manter uma relação responsável com as instituições, sendo um bom pagador.”
O peso de ser bom pagador
A menção ao FCO não é casual. O fundo é a principal fonte de crédito subsidiado da região, e Mato Grosso do Sul tem se destacado pela baixa inadimplência na carteira. Dados até julho mostravam o Estado com a segunda menor taxa de atraso no FCO entre as unidades do Centro-Oeste, 0,76%, abaixo da média regional de 0,83%. Parte do resultado é atribuída ao bônus de adimplência de 15%, mantido pelo Conselho Monetário Nacional para contratos com pagamento em dia, mecanismo que premia justamente o comportamento defendido no encontro de Chapadão do Sul.
O contraste entre a boa performance no crédito de fomento e a escalada da inadimplência geral medida pela Serasa sugere um mercado dividido: de um lado, empresas e produtores com acesso a linhas subsidiadas e planejamento estruturado; de outro, negócios que recorrem a crédito mais caro, como cartões e capital de giro bancário, e acabam presos ao ciclo de juros altos.
Um município que cresce
Chapadão do Sul é um dos municípios mais dinâmicos do Norte do Estado. Em agosto, segundo o Novo Caged, a cidade foi a terceira que mais gerou empregos formais em Mato Grosso do Sul, com saldo de 307 vagas, atrás apenas de Três Lagoas e Campo Grande. O município participa pela quarta vez do Cidade Empreendedora e, nesta edição, integra o pacote Excelência, o mais completo do programa, com acompanhamento até 2028 nos oito eixos de atuação, que incluem gestão municipal, ambiente de negócios e fortalecimento do empreendedorismo.
Atualmente, 36 municípios sul-mato-grossenses participam do Cidade Empreendedora, distribuídos nos pacotes Transforma, Avança e Excelência, de acordo com as necessidades de cada localidade.
Próximos passos
Com a inadimplência empresarial em alta e juros ainda elevados, a tendência é que iniciativas de educação financeira ganhem espaço na agenda de entidades e prefeituras. O próprio nome do evento, primeira edição de um bate-papo com empresários, sinaliza a intenção de dar continuidade à série. Para os pequenos negócios, a recomendação dos especialistas ouvidos converge: antes de buscar dinheiro novo, conhecer o próprio fluxo de caixa, comparar o custo efetivo das opções e preservar o cadastro de bom pagador, um ativo que, como mostra o FCO, pode valer juros menores no futuro.
Fontes: Midiamax – MS soma 136,6 mil empresas inadimplentes e R$ 4 bilhões em dívidas; Agência Sebrae de Notícias MS – Chapadão do Sul reúne empresários para descomplicar acesso ao crédito; Campo Grande News – Mesmo com agro endividado, MS mantém inadimplência baixa no FCO; Campo Grande News – MS fecha agosto com saldo de 1.208 empregos.
