Workshop do Sebrae/MS em Três Lagoas reuniu empresários, poder público, Senac e Associação Integra Costa Leste para transformar rios e reservatórios em produto turístico; série de encontros segue para Cassilândia e Bataguassu
Rios, reservatórios e paisagens ribeirinhas que fazem parte da identidade da Costa Leste de Mato Grosso do Sul entraram oficialmente na pauta de desenvolvimento econômico da região. Na terça-feira (29), empresários, gestores públicos e instituições se reuniram em Três Lagoas para o Workshop Turismo Náutico, promovido pelo Sebrae/MS, com o objetivo de transformar o potencial natural da região em experiências turísticas estruturadas, capazes de manter o visitante por mais tempo e movimentar negócios de hospedagem, alimentação, lazer, comércio e serviços.
O encontro, realizado na sede da Regional Costa Leste do Sebrae/MS, abriu uma série de três workshops que também passará por Cassilândia e Bataguassu. A iniciativa integra o programa Cidade Empreendedora, executado pelo Sebrae/MS em parceria com o Governo do Estado e as prefeituras, e contou com a participação da Associação Integra Costa Leste (AICL), entidade que reúne representantes de diferentes setores da região em torno de uma agenda comum de desenvolvimento.
Potencial natural não basta
A lógica que orientou o dia de trabalho é simples de enunciar e difícil de executar: ter água, paisagem e acesso não transforma automaticamente um lugar em destino turístico. É preciso organizar quem já atua no setor, identificar lacunas de infraestrutura e serviços e desenhar experiências que façam sentido para o visitante do começo ao fim da viagem.
Foi esse o recado da gerente da Regional Costa Leste do Sebrae/MS, Josi Signori. “Temos uma região com características naturais muito favoráveis, mas o potencial sozinho não gera desenvolvimento. Precisamos organizar os atores, compreender o que já existe, identificar o que ainda precisa ser construído e pensar em experiências que façam o visitante permanecer mais tempo, consumir produtos e serviços e conhecer melhor nossos municípios e suas potencialidades”, afirmou.
Para ela, a convergência entre setor privado, poder público e instituições de apoio é o que pode mudar o patamar da atividade. “Quando empresários, poder público e instituições trabalham nessa mesma direção, o turismo deixa de ser apenas uma possibilidade e começa a se transformar em uma estratégia de desenvolvimento para a Costa Leste”, completou.
Método para construir destinos
A programação foi orientada pelo chamado Método Gramado, abordagem voltada à estruturação e ao desenvolvimento de destinos turísticos, cujo nome remete à cidade da Serra Gaúcha que se tornou referência nacional em turismo planejado. Ao longo do dia, palestras e atividades práticas estimularam os participantes a identificar oportunidades e a construir estratégias que conectem atrativos, serviços, poder público e iniciativa privada.
A proposta do workshop foi justamente ir além da discussão isolada sobre passeios, embarcações ou atividades realizadas na água. O trabalho propôs um olhar integrado sobre o território e sobre tudo o que compõe a experiência de quem visita a região, o que inclui acesso, infraestrutura, segurança, informação, gastronomia, hospedagem, atendimento e uma rede de serviços capaz de complementar os atrativos naturais.
Na prática, é a diferença entre um turista que passa algumas horas em um rio e vai embora e um visitante que dorme na cidade, janta em um restaurante local, contrata um guia, compra artesanato e volta em outra temporada. Cada uma dessas etapas representa renda para um pequeno negócio diferente.
Rota Turística da Costa Leste já está desenhada
O workshop também serviu para apresentar iniciativas já em andamento no território. Uma delas é a Rota Turística da Costa Leste, cujo projeto, segundo o presidente da Associação Integra Costa Leste, Joaquim Barbosa, está concluído. A proposta reúne e divulga os atrativos dos municípios da região, estimulando uma visão regional do turismo e ampliando a visibilidade de localidades que ainda recebem pouca atenção dos visitantes.
Barbosa chamou atenção para uma vantagem geográfica que, segundo ele, ainda é pouco aproveitada. “Três Lagoas tem uma localização privilegiada, próxima ao estado de São Paulo, e reúne condições para atrair visitantes que hoje passam pela cidade sem conhecer o que ela oferece. Precisamos mostrar essas possibilidades, estimular novos investimentos e criar motivos para que as pessoas permaneçam mais tempo aqui”, afirmou. O dirigente disse ainda que o turismo é uma bandeira que defende há muitos anos e que vê muito espaço para crescimento.
Qualificação para pescadores e suas famílias
A articulação regional se apoia também em ações de qualificação profissional voltadas a comunidades que já vivem em relação direta com os rios. Em Três Lagoas, o Senac desenvolve, em parceria com a Prefeitura, ações direcionadas à comunidade de pescadores do Jupiá, combinando gastronomia, atendimento turístico e formação para atividades ligadas à pesca esportiva.
Durante o workshop, o gerente regional do Senac em Três Lagoas, Ivan Murgi Farias, detalhou as capacitações em andamento. “Já temos quatro turmas de gastronomia voltadas às mulheres dos pescadores e vamos oferecer um curso de condução de pesca esportiva e experiências na natureza, além de uma capacitação em gastronomia regional”, explicou. Segundo ele, a ideia é estruturar toda a cadeia, “desde a recepção do turista até os serviços oferecidos dentro das embarcações”, gerando oportunidades para diferentes integrantes das famílias.
A previsão do Senac é abrir, no início de outubro, o edital para novas turmas gratuitas, com inscrições feitas pela própria instituição. A iniciativa aponta para um modelo em que o turismo náutico não substitui a atividade tradicional da pesca, mas agrega a ela novas fontes de renda, como a condução de turistas e a oferta de refeições com identidade regional.
Da lancha ao artesanato
A expectativa de expansão do turismo náutico também mobiliza empresários que já atuam diretamente nesse mercado. Em Três Lagoas, a venda de embarcações e equipamentos de lazer para rios e reservatórios é uma atividade que tende a acompanhar o crescimento dos serviços turísticos, inclusive porque muitos compradores são empreendedores que alugam esses equipamentos a visitantes.
É o caso do empresário Anderson Mariano, que comercializa produtos náuticos como jet skis e lanchas. “Temos uma região muito rica em águas, com rios, lagoas e muitos espaços que ainda podem ser explorados turisticamente. Quanto mais esse potencial for desenvolvido, melhor será para todo o comércio da cidade”, disse. Para ele, trata-se de um mercado em expansão, que beneficia também hotéis, restaurantes e outros negócios que recebem os visitantes.
As oportunidades não se restringem ao que acontece sobre a água. A chegada de mais visitantes amplia o mercado para produtos que expressam a cultura e a identidade local, aproximando o turismo de segmentos como o artesanato. Representando os artesãos de Três Lagoas, a empresária Bel Paes participou do encontro para entender as perspectivas do setor. “Esse tipo de evento transforma a maneira como a gente enxerga o futuro do nosso negócio”, afirmou. Segundo ela, o objetivo é estar preparado para receber os turistas “com qualidade e agilidade” quando o fluxo aumentar.
Diversificação para além da celulose
O movimento em torno do turismo ganha relevância em uma região cuja economia está cada vez mais associada à indústria de celulose. Três Lagoas se consolidou nas últimas décadas como um dos principais polos do setor no país, e o município voltou a liderar a geração de empregos formais em Mato Grosso do Sul em agosto, com saldo de 785 vagas, segundo o Novo Caged divulgado nesta semana.
Nesse contexto, estruturar uma atividade como o turismo náutico representa uma forma de diversificar a base econômica, abrir espaço para pequenos negócios e aproveitar o fluxo de pessoas que já circula pela cidade a trabalho. A proximidade com o interior paulista, destacada por Joaquim Barbosa, reforça a possibilidade de atrair visitantes de fim de semana, público que busca lazer em água doce a poucas horas de casa.
Parte de uma agenda maior
O workshop é mais uma frente do programa Cidade Empreendedora, que o Sebrae/MS executa em parceria com o Governo do Estado e as prefeituras em dezenas de municípios sul-mato-grossenses. Nas últimas semanas, o programa esteve por trás de ações como a publicação do Plano de Contratações Anual de Jaraguari, pensado para facilitar a participação de pequenos negócios nas compras públicas, e do encerramento do ciclo de educação empreendedora em escolas de Paranhos. No caso da Costa Leste, a aposta é usar a mesma lógica de planejamento, com diagnóstico, articulação entre atores e metas compartilhadas, para organizar uma atividade econômica que até aqui cresceu de forma espontânea.
Próximas etapas em Cassilândia e Bataguassu
Depois de Três Lagoas, a programação seguirá para Cassilândia e Bataguassu. A proposta é considerar as particularidades de cada município e estimular a identificação de atrativos e serviços que possam compor uma oferta turística mais integrada para toda a Costa Leste. Ao conectar qualificação profissional, investimentos privados, articulação institucional e valorização dos recursos naturais, os encontros buscam criar condições para que o turismo náutico avance de forma organizada, beneficiando visitantes, empreendedores e comunidades.
O desafio, a partir de agora, será transformar o diagnóstico construído nos workshops em produtos turísticos concretos, com roteiros comercializáveis, serviços qualificados e divulgação regional. Com a Rota Turística da Costa Leste pronta no papel e as novas turmas do Senac previstas para outubro, os próximos meses devem mostrar se a região consegue converter a vocação para as águas em renda para quem vive às margens dos rios.
Fonte: Agência Sebrae de Notícias MS – Costa Leste de MS estrutura turismo náutico para ampliar experiências e gerar novos negócios; Campo Grande News – MS fecha agosto com saldo de 1.208 empregos a mais.
