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Empreenda MS > Agronegócio > Carne de MS passa a pagar 67% para entrar na China, e frigoríficos já miram a cota de 2027
Agronegócio

Carne de MS passa a pagar 67% para entrar na China, e frigoríficos já miram a cota de 2027

Empreenda MS Publicado em 02/10/2026
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13 minutos de leitura
Rebanho de gado de corte reunido em área de pastagem de terra
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Com a cota de 2026 esgotada, carne bovina brasileira passa a pagar 55% de sobretaxa além dos 12% regulares no maior mercado do setor; frigoríficos de Mato Grosso do Sul, que já viram as vendas à China despencarem 78% entre julho e agosto, se preparam para antecipar abates e disputar a cota de 2027 logo nos primeiros meses do ano

A carne bovina brasileira passou a pagar, desde esta quinta-feira (1º de outubro), uma tarifa total de 67% para entrar na China, depois que o país esgotou a cota anual de 1,106 milhão de toneladas fixada por Pequim para 2026. A cobrança adicional de 55% sobre o volume excedente se soma à tarifa regular de 12% e, na prática, tira o produto brasileiro do preço no principal destino das exportações do setor. Para Mato Grosso do Sul, um dos grandes polos frigoríficos do país, a mudança formaliza um cenário que a indústria local já vinha sentindo desde o meio do ano: queda brusca nos embarques para a China, férias coletivas em plantas do Estado e a necessidade de buscar outros mercados para escoar a produção.

O esgotamento da cota não pegou o setor de surpresa. A China passou a aplicar, desde 1º de janeiro de 2026, medidas de salvaguarda que estabeleceram um sistema de cotas e tarifas para a carne bovina importada, como forma de proteger o mercado interno diante do aumento das compras externas. A sobretaxa não é exclusiva ao Brasil e atinge outros fornecedores. Mas, como o Brasil responde hoje por mais de 40% do volume de carne bovina importado pelos chineses, o impacto sobre a cadeia nacional – e, por consequência, sobre estados exportadores como Mato Grosso do Sul – é proporcionalmente maior.

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A virada nos números de Mato Grosso do Sul

Os dados da balança comercial mostram a velocidade com que o mercado chinês perdeu peso para a carne sul-mato-grossense. Segundo levantamento publicado pelo jornal A Crítica com base nos números de agosto, as exportações de carne bovina do Estado para a China caíram de 11,29 mil toneladas em julho para 2,43 mil toneladas em agosto, um recuo de 78% em apenas um mês. No total, Mato Grosso do Sul embarcou 21,98 mil toneladas de carne bovina em agosto, 27,3% menos do que em julho, quando haviam sido exportadas cerca de 30,2 mil toneladas. Quase toda a diferença veio justamente do mercado chinês.

A participação da China nas vendas externas do produto sul-mato-grossense também despencou. O país asiático, que respondia por 37,3% do volume embarcado pelo Estado em julho, passou a representar apenas 11,1% em agosto. Em outras palavras, o maior comprador da carne de Mato Grosso do Sul passou a ocupar pouco mais de um décimo das exportações em questão de semanas. A explicação é simples: com a cota se aproximando do teto, os exportadores reduziram por conta própria os embarques para não correr o risco de ver a mercadoria chegar ao destino já sob a sobretaxa.

Frigoríficos instalados em municípios como Naviraí, Dourados, Três Lagoas e na região da Grande Campo Grande têm na China um de seus principais compradores. O efeito sobre a produção apareceu ainda em julho, quando o Brasil atingiu 80% do limite chinês. De acordo com o Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul (Sicadems), três frigoríficos do Estado concederam férias coletivas e outros dois reduziram o ritmo de abate. O presidente da entidade, Régis Comarella, afirmou que a redução já era esperada diante do risco da tarifa adicional.

O quadro contrasta com o desempenho recente da indústria frigorífica sul-mato-grossense. Em 2025, o setor bateu recorde de produção, com mais de 1,06 milhão de toneladas de carne bovina, e o Estado responde hoje por cerca de 10% de tudo o que o Brasil produz, segundo a Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems). A capacidade instalada, portanto, existe – o desafio agora é encontrar quem compre o volume que deixou de seguir para a Ásia.

Uma década de dependência crescente

O peso da China no comércio de carne bovina brasileira foi construído em ritmo acelerado. Entre 2016 e 2025, o Brasil enviou 8,2 milhões de toneladas do produto ao país asiático, em negócios que somaram US$ 42,3 bilhões. O volume anual saltou de 164,9 mil toneladas em 2016 para 1,6 milhão de toneladas em 2025, quase dez vezes mais. No mesmo período, as importações chinesas de carne bovina cresceram de menos de 1,5 milhão de toneladas em 2018 para cerca de 2,8 milhões de toneladas nos anos mais recentes.

Mesmo com a restrição, a porta chinesa não se fechou completamente para novas plantas. Na terça-feira (29 de setembro), a China autorizou mais duas unidades brasileiras a exportar carne bovina – uma em Minas Gerais e outra em Pernambuco. As habilitações, porém, só ganham efeito prático quando houver cota disponível ou quando o preço final, já com a sobretaxa, for competitivo, o que hoje não ocorre.

A corrida pela cota de 2027

A principal preocupação da indústria agora está no ano que vem. A cota brasileira para 2027 será de 1,128 milhão de toneladas, apenas 22 mil toneladas a mais do que a deste ano, um aumento de cerca de 2%. Representantes do setor estimam que esse novo limite pode ser integralmente preenchido já em março ou abril de 2027, caso os embarques se concentrem no início do ano.

Diante dessa perspectiva, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) discute com as empresas a possibilidade de antecipar a produção e os embarques. A ideia é realizar abates ainda em outubro, embarcar a carne em novembro e fazer com que ela chegue à China em janeiro de 2027, já dentro da vigência da nova cota. A estratégia leva em conta que a viagem marítima entre o Brasil e o país asiático dura de 40 a 45 dias. O ritmo das compras chinesas, no entanto, também será determinante para o sucesso do plano.

A Abiec também voltou a discutir com o governo federal uma divisão da cota de 2027 entre os frigoríficos. A proposta busca distribuir os embarques ao longo dos doze meses e evitar que poucas empresas concentrem o volume disponível logo no primeiro trimestre, deixando o restante do ano sem cota – exatamente a situação que levou às férias coletivas de 2026. O presidente da entidade, Roberto Perosa, tem defendido um mecanismo de distribuição que preserve o fluxo de vendas ao longo do ano.

Outra frente de alívio veio da diplomacia. Em setembro, o governo brasileiro anunciou que o Uruguai autorizou o Brasil a usar o excedente da cota uruguaia de carne bovina na China, que em 2026 é de 324 mil toneladas. A cessão, porém, depende de aprovação do governo chinês, e nem o volume nem o prazo foram detalhados. Em nota, a Abiec avaliou a iniciativa como positiva, mas com “efeito limitado” em 2026, considerando o tempo necessário para negociação, embarque e trânsito da mercadoria. Para a entidade, o excedente uruguaio tende a se tornar uma alternativa mais relevante em 2027, especialmente nos meses em que a cota brasileira já estiver esgotada.

Pouca margem de manobra para o pecuarista

Para quem está na ponta da produção, a margem de manobra é pequena. Em entrevista ao Midiamax em julho, quando a cota estava prestes a se esgotar, o pesquisador Thiago Bernardino de Carvalho, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), lembrou que a pecuária de corte é uma atividade de investimento de longo prazo e que o gado abatido em 2026 começou a ser produzido três ou quatro anos antes, muito antes da definição da cota chinesa. Segundo ele, a principal alternativa para os produtores é ajustar o manejo dos animais enquanto as compras chinesas estiverem reduzidas, mas os impactos sobre a cadeia são inevitáveis.

O pesquisador também apontou que outros mercados dificilmente compensam o volume que deixa de seguir para a China. Os Estados Unidos, segundo maior comprador da carne bovina brasileira, adquiriram cerca de 300 mil toneladas, enquanto a estimativa é de que a China deixe de importar algo em torno de 500 mil toneladas de carne brasileira acima da cota. “Esses países podem comprar um pouco mais e isso certamente ajuda. Mas não é um montante capaz de compensar a redução das compras chinesas”, afirmou na ocasião.

O que vem pela frente

No cenário nacional, a Abiec estima que as exportações totais de carne bovina do Brasil recuem cerca de 10% em 2026 em relação a 2025, num contexto que inclui também restrições adotadas pela União Europeia. Para Mato Grosso do Sul, os próximos meses devem combinar três movimentos: a tentativa de redirecionar parte da produção a outros destinos e ao mercado interno, a preparação para a corrida pela cota de 2027 e o acompanhamento das negociações em torno da cessão uruguaia e da divisão da cota entre empresas.

O episódio também reacende um debate estratégico para a economia sul-mato-grossense: a necessidade de diversificar mercados e agregar valor à proteína produzida no Estado, reduzindo a exposição a decisões unilaterais de um único comprador. Com plantas modernas, rebanho expressivo e uma indústria que bateu recorde de produção em 2025, Mato Grosso do Sul tem escala para disputar outros mercados. A velocidade com que conseguirá fazer isso – e o desenho final das regras para 2027 – vai definir se a sobretaxa chinesa será um tropeço pontual ou um freio mais duradouro para um dos motores do agronegócio estadual.

Fontes

Correio do Estado – Carne brasileira vai pagar tarifa de 67% para entrar na China (02/10/2026); Jornal de Brasília – Carne brasileira passa a pagar tarifa de 67% na China (01/10/2026); A Crítica de Campo Grande – Exportação de carne de MS à China cai 78%, e cota uruguaia só deve aliviar em 2027 (21/09/2026); Midiamax – China taxa carne de MS em 67%: saiba como a nova medida afeta o produtor e o seu churrasco (21/07/2026).

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