Metodologia Jovens Empreendedores Primeiros Passos, do Sebrae/MS, encerra o ano letivo nas redes municipais dos dois municípios com cerca de 660 estudantes atendidos, inclusive numa escola do campo em assentamento, dentro do programa Cidade Empreendedora
Dois municípios de Mato Grosso do Sul encerraram nesta semana o ciclo anual do JEPP (Jovens Empreendedores Primeiros Passos), metodologia de educação empreendedora do Sebrae/MS aplicada em escolas da rede pública. Em Bataguassu, na Costa Leste, a iniciativa alcançou quase 300 estudantes em duas unidades da rede municipal, uma delas localizada em um assentamento rural. Em Eldorado, no Cone Sul, foram 366 alunos distribuídos em 27 turmas. Somados, os dois municípios reuniram cerca de 660 crianças e adolescentes em atividades voltadas à criatividade, ao planejamento, à inovação e à resolução de problemas, segundo a Agência Sebrae de Notícias.
Nos dois casos, a aplicação da metodologia faz parte do programa Cidade Empreendedora, executado pelo Sebrae/MS em parceria com o Governo do Estado e as prefeituras. As ações integram o eixo de Educação Empreendedora, que busca fortalecer a cultura empreendedora no ambiente escolar e desenvolver competências não só entre estudantes, mas também entre professores e gestores das redes de ensino.
Ao longo do ano letivo, as propostas do JEPP foram adaptadas a cada etapa escolar e estimularam competências como criatividade, planejamento, cooperação, inovação, sustentabilidade e responsabilidade social. Mais do que aulas expositivas, a metodologia incentiva os estudantes a desenvolver ideias, criar produtos e buscar soluções para situações do cotidiano, em atividades que culminam, ao fim do ciclo, em apresentações e exposições abertas à comunidade escolar e às famílias.
Do Nova Porto XV ao Assentamento Santa Clara
Em Bataguassu, o JEPP foi aplicado na Escola Pedro Domingues de Figueiredo, localizada no distrito de Nova Porto XV, e na Escola do Campo Professora Maria da Conceição, no Assentamento Santa Clara. O encerramento foi marcado pela apresentação e celebração dos resultados da jornada desenvolvida ao longo do ano letivo, com exposição dos projetos elaborados pelos estudantes e participação de professores, técnicos educacionais e gestores.
A presença de uma escola do campo entre as participantes dá um contorno particular à experiência no município. Para a secretária de Educação de Bataguassu, Nilza Primo, o estudo do empreendedorismo para os estudantes do campo ajuda a desenvolver habilidades socioemocionais como empatia, persistência e colaboração. “Contribui ainda para o estímulo à criatividade na resolução de problemas práticos. O estudante tem a oportunidade de aprender autonomia, sendo protagonista, criador de ideias e projetos. Também passa a entender e a fazer parte de uma cultura que ensina planejamento, escolhas e suporte para futuras conquistas no mercado de trabalho. E por fim, resgata o homem do campo, que é um dos maiores objetivos de nossa escola”, avaliou.
A fala da secretária toca num tema sensível para muitos municípios do interior sul-mato-grossense: a permanência dos jovens no meio rural. Ao estimular os alunos a enxergar oportunidades a partir da realidade em que vivem, a educação empreendedora pode contribuir para que filhos de agricultores e assentados vejam no próprio território um espaço possível de trabalho, renda e inovação, e não apenas um lugar de onde se sai em busca de emprego na cidade.
27 turmas em Eldorado
Em Eldorado, o encerramento ocorreu em uma série de encontros que reuniram estudantes, professores, familiares e representantes da comunidade escolar para apresentar os resultados do ano. Ao todo, 366 alunos de 27 turmas da rede municipal passaram pela metodologia.
O secretário de Educação do município, Ozeas de Souza, acompanhou as atividades de encerramento ao lado de gestores, técnicos e professores. Para ele, trabalhar os primeiros passos do empreendedorismo ajuda a criança a desenvolver autoestima, criatividade, responsabilidade e capacidade de resolver problemas. “Foi um momento oportuno para nossos alunos pesquisarem uma diversidade de temas e possibilidades de interagir com a sociedade buscando e levando soluções às temáticas estabelecidas dentro do projeto JEEP. Agradeço ao Sebrae pela parceria e tenho certeza de que colheremos bons frutos”, afirmou.
A dimensão da rede envolvida em Eldorado, com 27 turmas, mostra que a metodologia não ficou restrita a um projeto-piloto isolado: ela alcançou diferentes séries da rede municipal ao mesmo tempo, com consultoria do Sebrae/MS acompanhando a aplicação nas escolas e apoio às equipes pedagógicas durante todo o ano letivo.
Como a metodologia funciona
O JEPP é estruturado para acompanhar o desenvolvimento dos estudantes ao longo do ensino fundamental, com conteúdos e desafios adaptados a cada etapa escolar. A aplicação conta com suporte direto do Sebrae/MS às escolas e aos profissionais da educação. Segundo a gestora estadual do programa Educação Empreendedora do Sebrae/MS, Priscila Veloso, responsável pelo eixo Empreendedorismo na Escola, o acompanhamento é contínuo.
“Durante o período de aplicação da metodologia, temos um consultor do JEPP acompanhando presencialmente em cada escola e ajudando a orientar os professores em caso de dúvidas. Os professores podem fazer dois tipos de capacitação: uma pedagógica e outra específica de acordo com o ano em que a metodologia será implantada”, explica Priscila. Segundo ela, a formação dos docentes é etapa importante para garantir que as atividades sejam desenvolvidas de acordo com os objetivos de cada faixa etária.
Do tempero natural à robótica
A trilha pedagógica do JEPP vai se tornando mais complexa à medida que os alunos avançam. No 1º ano, as oficinas temáticas têm como foco o despertar de uma visão empreendedora no dia a dia, dialogando com questões de cidadania e ecossustentabilidade. No 2º ano, as crianças são incentivadas a descobrir alimentos e temperos naturais e a entender como eles fazem parte da rotina das famílias.
Para os alunos do 3º ano, as atividades envolvem a criação de brinquedos ecológicos e ações voltadas ao autoconhecimento. No 4º ano, o foco está nas produções culturais criativas, com incentivo à leitura e ao planejamento. Os estudantes do 5º ano trabalham com sabores e cores regionais, além de temas ligados à saúde e à educação ambiental.
Nos anos finais do ensino fundamental, o conteúdo se aproxima da tecnologia e da vida em comunidade. No 6º ano, os estudantes são estimulados a pensar em soluções sustentáveis e a desenvolver a cooperação em sala de aula. No 7º ano, as atividades envolvem robótica empreendedora e técnicas artesanais, aproximando os jovens da tecnologia, da criatividade e da resolução de problemas. No 8º ano, o trabalho avança para as tecnologias digitais e soluções empreendedoras, com discussões sobre responsabilidade social.
Para os alunos do 9º ano, a proposta é ampliar o olhar sobre a realidade local. Os jovens são desafiados a identificar problemas e oportunidades existentes na própria comunidade e a pensar em soluções a partir do desenvolvimento do pensamento empreendedor — um exercício que, em municípios pequenos e médios do interior, pode revelar demandas concretas ainda não atendidas pelo mercado local.
Conhecimento que chega às famílias
Mais do que apresentar conceitos de empreendedorismo, o JEPP procura aproximar os conteúdos da realidade dos estudantes, de modo que planejamento, criatividade, iniciativa e resolução de problemas possam ser aplicados em diferentes situações do cotidiano. Segundo a gestora do Sebrae/MS, esse aprendizado frequentemente ultrapassa a sala de aula.
“É muito interessante perceber que o conhecimento trabalhado em sala de aula ultrapassa os muros da escola e chega também às famílias. Os estudantes compartilham o que aprendem com os pais, gerando uma troca muito rica e, em alguns casos, despertando nos próprios familiares o interesse em conhecer mais sobre empreendedorismo, desenvolver uma ideia ou até mesmo abrir o próprio negócio”, observa Priscila Veloso.
Esse efeito indireto é um dos argumentos mais citados por defensores da educação empreendedora na rede pública. Em cidades onde a economia depende de poucos setores e de pequenos negócios familiares, uma geração de estudantes habituada a planejar, testar ideias e trabalhar em equipe pode, no médio prazo, ampliar a base de empreendedores locais e qualificar a gestão dos negócios já existentes.
Parte de uma estratégia mais ampla
As ações em Bataguassu e Eldorado se somam a outras iniciativas do eixo de Educação Empreendedora do Cidade Empreendedora em Mato Grosso do Sul. Em setembro, Paranhos encerrou um ciclo voltado a escolas indígenas, com ações em cinco unidades e duas extensões que alcançaram cerca de 1,8 mil estudantes e 150 professores, além de uma formação específica para docentes. O desenho do programa prevê que cada município percorra diferentes eixos — como compras públicas e educação empreendedora — ao longo de ciclos plurianuais.
“A atuação em Educação Empreendedora integra essa estratégia ao levar para as escolas atividades que aproximam os estudantes de temas como planejamento, inovação, sustentabilidade, criatividade e resolução de problemas, contribuindo para a formação de jovens mais preparados para reconhecer oportunidades e participar da transformação da realidade em que vivem”, resume Priscila.
O que vem a seguir
Com o encerramento do ano letivo da metodologia, o desafio passa a ser a continuidade. A capacitação dos professores, oferecida em formato pedagógico e por ano escolar, tende a deixar nas redes municipais um corpo docente mais familiarizado com a abordagem, o que facilita a manutenção das atividades nos próximos ciclos. Para os municípios, o resultado também alimenta a avaliação do Cidade Empreendedora, programa que vincula o desenvolvimento econômico local à formação de pessoas — começando, neste caso, pelos bancos escolares.
Fontes: Agência Sebrae de Notícias MS — Bataguassu encerra atividades do JEPP com foco no desenvolvimento da cultura empreendedora (01/10/2026); Agência Sebrae de Notícias MS — Eldorado encerra atividades do JEPP com foco no desenvolvimento da cultura empreendedora (30/09/2026); Agência Sebrae de Notícias MS — Paranhos encerra ciclo de educação empreendedora com formação para professores.
