Professor do câmpus de Chapadão do Sul recebeu em São Paulo o Prêmio Fundação Bunge 2026, na categoria Juventude, por pesquisas que combinam genética de plantas, drones, sensores e inteligência artificial para detectar o estresse causado pela seca e pelo calor em lavouras de soja, milho e algodão
O professor Paulo Eduardo Teodoro, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) em Chapadão do Sul, recebeu nesta terça-feira (29 de setembro), em São Paulo, o Prêmio Fundação Bunge 2026 na categoria Juventude. Aos 33 anos, o pesquisador foi reconhecido no tema “Os desafios da agricultura tropical sustentável: produção em cenários de estresse térmico e hídrico”, com um trabalho que une genética vegetal, agricultura digital, sensoriamento remoto e inteligência artificial para identificar rapidamente sinais de estresse em culturas agrícolas. A cerimônia contou com a presença da reitora da UFMS, Camila Ítavo, e consolidou um feito inédito: a esposa do pesquisador, a também professora Larissa Pereira Ribeiro Teodoro, havia conquistado o mesmo prêmio, na mesma categoria, em 2024.
Os vencedores da edição 2026 haviam sido anunciados no início de julho, e a entrega oficial ocorreu agora, no fim de setembro. A conquista coloca mais uma vez o câmpus de Chapadão do Sul – município conhecido como a Capital Agrícola de Mato Grosso do Sul – no mapa da ciência agronômica nacional e reforça o papel das universidades públicas do Estado na produção de conhecimento aplicado ao agronegócio, principal motor da economia sul-mato-grossense.
Um dos prêmios científicos mais tradicionais do país
Criado em 1955, o Prêmio Fundação Bunge reconhece pesquisadores que contribuem para o desenvolvimento científico e para a busca de soluções para desafios estratégicos do país, como a sustentabilidade e a inovação no campo. Em mais de sete décadas de existência, a premiação já homenageou mais de 200 personalidades brasileiras. A edição deste ano premia quatro pesquisadores, distribuídos nas categorias Vida e Obra – voltada a nomes já consolidados em suas áreas – e Juventude, destinada a pesquisadores de até 35 anos.
O tema em que o trabalho desenvolvido em Chapadão do Sul se destacou – a produção agrícola em cenários de estresse térmico e hídrico – reflete uma das agendas mais urgentes da agricultura brasileira, num momento em que estiagens prolongadas e ondas de calor passaram a fazer parte do planejamento de qualquer safra no Centro-Oeste.
Em nota divulgada pela UFMS, a reitora Camila Ítavo destacou o significado do reconhecimento para a instituição. “É uma grande alegria e um orgulho para a UFMS ver o professor Paulo Eduardo Teodoro receber esse reconhecimento. O prêmio valoriza sua trajetória e também a ciência produzida em nossa Universidade”, afirmou. Para ela, a pesquisa do professor “dialoga diretamente com questões fundamentais para o futuro”.
Drones, sensores e IA para enxergar o que o olho não vê
As pesquisas coordenadas por Paulo Teodoro partem de um problema concreto para o produtor rural: a perda de produtividade causada pela falta de água e pelas altas temperaturas, situações cada vez mais frequentes em um contexto de mudanças climáticas. A proposta é detectar os sinais desse estresse antes que eles se tornem visíveis na lavoura, quando ainda há tempo de agir.
Para isso, o grupo utiliza sensores acoplados a drones – e, em alguns casos, dados de satélites – para captar informações bioquímicas e fisiológicas das plantas. Esses dados são processados por modelos de inteligência artificial capazes de avaliar milhares de exemplares de forma rápida e em larga escala. A técnica é conhecida como fenotipagem de alta precisão e é considerada uma das vertentes mais promissoras da agricultura moderna, por permitir identificar, entre muitos materiais genéticos, aqueles mais tolerantes ao calor e mais eficientes no uso da água.
“Buscamos detectar alterações que muitas vezes ainda não são visíveis a olho nu. Quanto mais cedo identificamos um problema, maiores são as chances de minimizar perdas”, explicou o professor. Os estudos se concentram em culturas de grande peso para a economia de Mato Grosso do Sul, como soja, milho e algodão, e também envolvem o desenvolvimento de modelos de IA para estimar a produção a partir de dados de sensoriamento remoto.
Segundo o pesquisador, esse tipo de tecnologia já deixou de ser exclusividade dos laboratórios. Em entrevista ao Campo Grande News, ele afirmou que o uso de drones, sensores e satélites no monitoramento agrícola já é uma realidade e que, a cada ano, o produtor rural tende a ter acesso mais fácil a essas ferramentas para tomar decisões mais assertivas, maximizando a produtividade e reduzindo custos. Ao Crea-MS, Teodoro lembrou que o conhecimento, uma vez publicado, fica acessível à sociedade e permite que o mercado e os especialistas o transformem em serviços para o produtor.
De Aquidauana a Chapadão do Sul: uma trajetória de dupla jornada
A história do premiado ajuda a explicar o perfil de uma nova geração de cientistas formada no próprio Estado. Natural de Aquidauana e filho de um mecânico e de uma vendedora, Paulo sempre teve facilidade com matemática, o que o levou à Engenharia Civil. Ao mesmo tempo, foi aprovado em Agronomia na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e decidiu encarar as duas graduações simultaneamente durante cinco anos.
A rotina, relatada pelo Crea-MS, era exaustiva: Agronomia durante o dia, na UEMS em Aquidauana, e Engenharia Civil à noite, na Uniderp, em Campo Grande. A viagem diária de ônibus de 141 quilômetros entre as duas cidades servia para estudar e descansar, em jornadas que começavam às 6h e terminavam por volta de 1h da madrugada, com o desembarque em Anastácio, onde morava com os pais.
Foi na graduação em Agronomia que o caminho da pesquisa se definiu. O contato com o professor Francisco Eduardo Torres, nas aulas de Climatologia e Meteorologia Agrícola, mudou a forma como ele enxergava a docência. Já no quarto semestre, Paulo passou a participar de experimentos e a publicar artigos científicos. As duas formaturas vieram em 2014 e, logo depois, uma nova encruzilhada: aprovado em um concurso público para engenheiro civil, com estabilidade e bom salário, ele preferiu seguir para o mestrado em Agronomia.
“Não foi uma decisão fácil. Passa muita coisa na nossa cabeça. Não é todo dia que uma pessoa abre mão de um concurso, porque traz uma estabilidade muito boa”, relembrou ao Campo Grande News. O mestrado em Aquidauana foi concluído em apenas um ano, seguido pelo doutorado na Universidade Federal de Viçosa (MG), uma das principais referências do país em ciências agrárias, e pela aprovação no concurso para docente da UFMS em Chapadão do Sul, onde leciona desde 2017.
Um casal premiado e um programa em ascensão
O reconhecimento ganha um significado especial por repetir uma conquista dentro da mesma família. Em 2024, a engenheira agrônoma Larissa Pereira Ribeiro Teodoro, professora do mesmo câmpus e esposa de Paulo, foi premiada pela Fundação Bunge na categoria Juventude por seu trabalho em melhoramento genético de soja e milho, também com uso de fenotipagem de alto rendimento e inteligência computacional para identificar plantas mais produtivas e tolerantes. O casal passou, assim, a ocupar um lugar singular na história da premiação.
Os prêmios também refletem a evolução do Programa de Pós-Graduação em Agronomia da UFMS em Chapadão do Sul. Segundo o professor, o trabalho de diferentes grupos de pesquisa contribuiu para que o programa subisse da nota 3 para a nota 5 na avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e implantasse o curso de doutorado. “Não vejo apenas como um prêmio individual, mas como uma vitrine para demonstrar à sociedade a importância e o impacto das nossas pesquisas, principalmente para a agricultura”, afirmou Teodoro em declaração divulgada pela UFMS.
O pesquisador também atribui parte da conquista ao apoio de agências estaduais de fomento. Ele citou a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (Fundect) como parceira recorrente, responsável por melhorar a infraestrutura da instituição e permitir respostas aos desafios da agricultura moderna, e avaliou que o Estado vem ampliando sua participação na produção científica nacional.
Ciência aplicada para o principal setor da economia de MS
O reconhecimento chega em um momento em que a agricultura sul-mato-grossense convive com maior variabilidade climática, períodos de estiagem e ondas de calor que pressionam a produtividade das lavouras. Nesse cenário, ferramentas capazes de selecionar cultivares mais eficientes no uso da água e de antecipar perdas ganham valor econômico direto para produtores, cooperativas e empresas de sementes.
Os próximos passos do grupo, segundo o professor, envolvem ampliar o uso de modelos de inteligência computacional e simplificar a informação gerada para que ela chegue ao produtor de forma prática. A ideia é fazer simulações para entender como diferentes materiais genéticos e estratégias de manejo podem ajudar em cenários variados de mudanças climáticas, com o objetivo de reduzir custos e aumentar a produtividade no campo.
Para o ecossistema de inovação de Mato Grosso do Sul, a premiação reforça uma mensagem importante: a pesquisa de ponta em agricultura digital e inteligência artificial não está restrita aos grandes centros do Sudeste. Ela também é produzida no interior do Estado, em um câmpus instalado no coração da produção de grãos, com potencial para gerar tecnologias, startups e serviços voltados ao produtor rural. Transformar esse conhecimento em soluções acessíveis no campo é o desafio que se coloca daqui em diante.
Fontes
UFMS – Professor da UFMS de Chapadão do Sul vence Prêmio Fundação Bunge 2026 (01/10/2026); Campo Grande News – Professor troca concurso por pesquisa e conquista prêmio nacional de ciência (26/07/2026); Crea-MS – Pesquisador da UFMS e conselheiro do Crea-MS, Paulo Eduardo Teodoro é vencedor do Prêmio Fundação Bunge (27/07/2026).
