Quarta edição do evento, em Campo Grande, reuniu mais de 30 estações e 200 assadores; Mercado Sebrae levou agroindústrias, artesãos e cuteleiros a um público estimado pela organização em 30 mil pessoas
A quarta edição do Festival Internacional da Carne, realizada de sexta-feira (25) a domingo (27) no Parque de Exposições Laucídio Coelho, em Campo Grande, foi além das brasas e funcionou como vitrine comercial para pequenos negócios de Mato Grosso do Sul. Como uma das instituições apoiadoras do evento, o Sebrae/MS montou o Mercado Sebrae, espaço que reuniu 26 empreendedores atendidos pela instituição, entre pequenos produtores, agroindústrias, artesãos, cuteleiros e empresários da gastronomia. O objetivo, segundo a entidade, foi dar visibilidade às marcas, apresentar produtos a um público novo e abrir caminho para novos mercados.
O festival, com entrada gratuita, reuniu mais de 30 estações gastronômicas e mais de 200 assadores, contando os assistentes, de acordo com a organização. A média de público estimada pela organizadora é de 30 mil passantes ao longo dos três dias, com parcela significativa de turistas e visitantes do interior, e o evento gera mais de 500 empregos diretos e indiretos na cadeia, segundo a mesma fonte.
De edital embrionário a evento do calendário oficial
A trajetória do festival ajuda a explicar por que ele passou a atrair empreendedores. Segundo a organizadora Márcia Marinho, na primeira edição passavam cerca de mil pessoas por dia e não havia dez assadores no comando das estações. “Se for olhar pra trás, a gente começou o festival, era Festival da Carne, não era Festival Internacional. Ele se iniciou através de um edital, muito embrionário, pequeno”, contou ela em entrevista ao programa Giro Estadual de Notícias, do Grupo Feitosa de Comunicação.
Desde agosto de 2025, o evento integra, por lei estadual, o calendário oficial de eventos de Mato Grosso do Sul. Nesta edição, segundo a organizadora, o festival passou a contar com lei de incentivo fiscal, e já há empresas procurando o projeto para 2027. O evento acontece dentro da estrutura da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul), que administra o parque e é presidida por Guilherme Bumlai. No mesmo local e período, foi realizada a Expoequestre MS, com provas de tambor e laço.
Fortalecer a cadeia produtiva da carne bovina e movimentar o segmento da gastronomia estão entre as propostas declaradas do festival. Em um Estado com forte tradição na pecuária, a iniciativa busca aproximar a produção do campo do consumidor urbano, valorizando a carne sul-mato-grossense e o trabalho de quem a prepara. É nesse ambiente, de grande circulação de público e forte apelo à identidade regional, que pequenos negócios encontram oportunidade de exposição.
Mercado Sebrae: produto, marca e cliente novo
No Mercado Sebrae, a lógica foi aproveitar o fluxo de visitantes para aproximar consumidores de empresas que, em muitos casos, ainda estão construindo sua marca. O diretor-superintendente interino do Sebrae/MS, Luiz Aurélio Adler, visitou o espaço e destacou que a presença no festival é consequência de um trabalho anterior.
“No Mercado Sebrae, oferecemos aos pequenos negócios a oportunidade de apresentar seus produtos, divulgar suas marcas e alcançar novos clientes. Esse trabalho é resultado de consultorias e capacitações que ajudam os empreendedores a desenvolver seus produtos e, quando necessário, avançar na regularização para comercialização. A presença no festival amplia a visibilidade dessas empresas e contribui para que conquistem novos mercados”, afirmou Adler.
A menção à regularização não é detalhe. Para agroindústrias de pequeno porte, como produtores de mel, embutidos, doces e bebidas, cumprir exigências sanitárias e de rotulagem é muitas vezes o passo que separa a venda informal, restrita ao círculo de conhecidos, da possibilidade de fornecer para restaurantes, empórios e redes de varejo.
Quem esteve no espaço
A diversidade dos expositores mostra como a cadeia da carne abre espaço para negócios que vão muito além do açougue e da churrasqueira. Participaram do Mercado Sebrae empresas como Pão de Queijo Mineirinho, Apiário Trevejo, Nostra Charcuterie, Madame & Co, Kombucha Guavira, De Colher em Colher, Sabor em Arte Biscoitos Artesanais, Ponto Real Amigurumi, Flor de Luz Bijojias, Spasso Arte, Inspiraê, Yaguaretê, Maria Karaguatá, Ateliê Retalho Mania, Lú Lopes Ateliê, Brazi Doces, Vaca Braba, Eco Cerrado, Turu Arte da Terra, Boutique das Artes e Chimarrão, Mel Dallasta, Artes de Luxo Mo, BZ Artística, Bunker Destilaria, Camalote Cutelaria e Mel do Tchê.
A lista reúne desde alimentos e bebidas artesanais, como mel, kombucha, charcutaria, biscoitos e destilados, até artesanato, moda, bijuterias e cutelaria, segmento que tem ligação direta com a cultura do churrasco. É um retrato da economia criativa sul-mato-grossense, em que produtos com identidade regional, como os que remetem ao Cerrado e à guavira, buscam espaço junto a um público disposto a consumir experiências.
Para Ana Lúcia dos Santos Pires, proprietária da Pão de Queijo Mineirinho, o ganho vai além das vendas do fim de semana. “Participar de um evento como esse traz mais visibilidade e divulgação para a nossa empresa. Estar junto de outros empreendedores e ter contato com diferentes públicos ajuda a apresentar nossos produtos e fazer a marca ser mais conhecida”, disse. Ela também destacou as orientações recebidas, que ajudam a “manter a empresa atualizada e buscar novas formas de crescer”.
Loyara Trevejo, do Apiário Trevejo, ressaltou a oportunidade de explicar o próprio trabalho ao consumidor. “Aqui conseguimos apresentar os produtos, conversar com as pessoas e explicar que, por trás de cada produto, existe o nosso cuidado e dedicação. Quando o público conhece melhor o que fazemos, passa a valorizar ainda mais”, afirmou. A expectativa, segundo ela, é conquistar novos clientes, ampliar as vendas e levar a marca a mais pessoas.
Já o empresário Everson Fleck, da Nostra Charcuterie, apontou o potencial de contatos comerciais. “Como o festival recebe um público diverso, incluindo empresários de outras áreas, temos a oportunidade de conquistar novos clientes e estabelecer contatos comerciais. Esperamos que essa participação abra portas para levar nossos produtos a outras cidades e a estabelecimentos interessados em revendê-los”, afirmou.
Para micro e pequenas empresas, participar de eventos com esse perfil costuma ter custo menor do que abrir um ponto físico ou investir em campanhas de marketing, e oferece algo difícil de obter de outra forma: o contato direto com milhares de potenciais clientes em poucos dias. Além da venda imediata, os expositores testam preços, observam a reação do público a novos produtos, coletam contatos e, em muitos casos, fecham parcerias com lojistas e restaurantes que circulam pelo evento. O retorno, por isso, tende a aparecer nas semanas seguintes, e não apenas no caixa do fim de semana.
Capacitação no meio da festa
A qualificação profissional também esteve na programação. A carreta-escola do Senac MS ofereceu 19 oficinas de molhos, farofas, conservas, manteigas e sobremesas, apontadas pela organizadora como a principal novidade desta edição. Houve ainda palestras voltadas ao setor, como “Ao Ponto”, sobre atendimento e gestão de equipe para assadores, e uma apresentação sobre a influência da tecnologia na produção de carne bovina.
O próprio corpo de assadores passa por um processo de curadoria. Segundo Márcia Marinho, a escolha é feita com base em confiança, histórico de entrega e relatórios produzidos a partir das edições anteriores. “Buscamos fazer relatórios de como foi essa entrega do ano anterior para poder fazer essa curadoria. Hoje a gente conta com muitos parceiros assadores que vêm comigo há muito tempo, outros saíram, chegam novos”, explicou.
O tradicional como estratégia
Um dos aprendizados relatados pela organização tem a ver com o comportamento do consumidor. Márcia Marinho contou que já tentou incluir acompanhamentos mais sofisticados, mas recuou. “Eu senti que não é isso que o público busca. O público está buscando o tradicional no churrasco. Não tem jeito”, disse. A aposta passou a ser a técnica à vista do público, com espetos no fogo de chão, varais e parrillas maiores.
O cardápio teve cortes bovinos como protagonistas, além de porco, búfalo e avestruz. O restaurante principal, Entre Brasas e Taças, trouxe como atração o chef argentino Enzo Ponce, de Mendoza, especializado em fogo, grelha e parrilla, o que sustenta o “Internacional” do nome. A programação teve ainda oito shows gratuitos com artistas e bandas de Mato Grosso do Sul e a Fazendinha, área infantil com brinquedos e animais de pequeno porte.
Próximos passos: campeonato regional em 2027
Para a próxima edição, a organização já anuncia mudanças. A competição entre assadores, que existiu em edições anteriores, ficou de fora em 2026 por falta de tempo hábil, mas deve voltar em 2027 no formato de campeonato regional, com diferentes formas de cocção, como fogo de chão, parrilla e defumação. O objetivo declarado é “elevar o padrão dos assadores do Mato Grosso do Sul”.
A combinação de crescimento de público, inclusão no calendário oficial do Estado e entrada de patrocinadores via lei de incentivo aponta para um evento que tende a ganhar peso econômico nos próximos anos. Quanto maior o festival, maior também o espaço para que fornecedores locais, de insumos a serviços, participem da cadeia que se forma em torno dele.
Para os pequenos negócios, o desafio agora é transformar a visibilidade de três dias em relacionamento duradouro com clientes e revendedores. O Sebrae/MS informa que mais detalhes sobre as ações de fomento ao empreendedorismo podem ser obtidos pelo site ms.sebrae.com.br ou pela Central de Relacionamento, no 0800 570 0800.
Fontes: Agência Sebrae de Notícias MS; A Crítica de Campo Grande.
