Coopims foi constituída em assembleia em Campo Grande e quer organizar venda coletiva, compra de insumos, etnoturismo e proteção de conhecimentos tradicionais das etnias do Estado; entidade ainda passa por registro na Jucems antes de obter CNPJ
Lideranças indígenas de Mato Grosso do Sul fundaram, na quinta-feira (24 de setembro), em Campo Grande, uma cooperativa de alcance estadual para que as próprias comunidades passem a negociar sua produção, sem depender de atravessadores. Batizada de Coopims (Cooperativa Estadual dos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul), a entidade teve estatuto e regimento interno aprovados em assembleia realizada no auditório do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) e pretende atuar em frentes que vão da agricultura e da pecuária ao turismo de base comunitária. A iniciativa foi divulgada nesta quarta-feira (30) pelo Campo Grande News.
O objetivo central é dar escala e poder de barganha a quem produz nas aldeias. Em vez de cada família ou comunidade vender isoladamente a um comprador que dita o preço, a proposta é que os cooperados negociem de forma coletiva, escolham para quem vender e passem a ter acesso mais direto a mercados privados, a programas públicos de compra de alimentos e a linhas de financiamento que hoje dificilmente chegam a produtores dispersos e sem estrutura jurídica.
À frente da nova entidade está Lisio Lili, liderança do povo Terena, eleito presidente na assembleia de fundação. Ao comentar a criação da Coopims, ele fez questão de marcar a diferença entre um projeto pensado de fora e uma organização conduzida pelas próprias comunidades: “Não é uma cooperativa para os indígenas, é uma cooperativa dos indígenas, criada por nós e para o fortalecimento das nossas comunidades”, afirmou.
Uma cooperativa desenhada pelas lideranças
A Coopims nasceu da articulação entre três organizações do movimento indígena sul-mato-grossense: o Fórum dos Caciques de Mato Grosso do Sul (Focams), o Conselho Municipal de Direitos e Defesa dos Povos Indígenas (CMDDI) e o Instituto Cacique Enir Terena (ICET). O MPMS cedeu o espaço para a assembleia e teve integrantes acompanhando a reunião, mas a condução do processo coube às lideranças.
O modelo de governança aprovado segue o princípio clássico do cooperativismo: cada cooperado tem direito a um voto, independentemente da etnia a que pertence, da comunidade de origem ou do volume de produção que entrega. Isso significa que uma pequena família produtora terá o mesmo peso nas decisões que um grupo com lavoura maior, um desenho pensado para evitar que a cooperativa seja capturada por poucos.
A Assembleia Geral será a instância máxima da entidade. Caberá a ela aprovar as contas, eleger os dirigentes e decidir a destinação das sobras, nome técnico dado ao resultado positivo das operações de uma cooperativa, que pode ser redistribuído entre os associados ou reinvestido em estrutura comum.
Da compra de insumos à venda da safra
Na produção rural, a cooperativa quer atacar três gargalos conhecidos de quem planta em pequena escala: o custo dos insumos, o acesso a máquinas e a comercialização. A proposta inclui compra conjunta de sementes, fertilizantes e outros materiais, o que tende a reduzir o preço unitário; o compartilhamento de máquinas e implementos entre comunidades; e a organização da venda da produção de forma centralizada.
Antes de as atividades começarem de fato, os cooperados deverão passar por capacitação em gestão e em produção agropecuária. A etapa é considerada estratégica porque cooperativas dependem de controles financeiros, planejamento de safra, prestação de contas e cumprimento de contratos, competências que precisam estar distribuídas entre os associados para que a entidade funcione de forma sustentável.
Para financiar os projetos, a Coopims pretende recorrer a bancos de fomento. Segundo os responsáveis pela iniciativa, porém, a prioridade neste momento não é sair captando recursos, e sim estruturar os projetos e verificar as possibilidades legais antes de qualquer pedido de crédito, uma cautela importante em um ambiente em que a regularidade fundiária e documental das áreas indígenas costuma ser um obstáculo ao financiamento tradicional.
Turismo e cultura sob controle das comunidades
Outra frente prevista é o turismo de base comunitária e o etnoturismo, segmento em que Mato Grosso do Sul tem potencial pouco explorado, dada a diversidade de povos presentes no Estado. Pelo modelo discutido, cada comunidade decidirá quais experiências poderão ser oferecidas aos visitantes e o que poderá ou não ser apresentado, de modo que o uso comercial de elementos culturais permaneça sob controle de quem é dono dessa cultura.
O mesmo princípio deverá orientar as atividades ligadas ao artesanato, às sementes nativas, às plantas do bioma, às imagens, às expressões culturais e aos conhecimentos associados à medicina indígena. Entre as ações planejadas está justamente a busca por mecanismos de proteção desse patrimônio contra a apropriação indevida.
Para os produtos associados às diferentes etnias, a cooperativa pretende estudar ferramentas como as indicações geográficas, registro concedido no Brasil pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) que reconhece a origem e a reputação de um produto ligado a um território ou a um saber específico. Na prática, um selo desse tipo pode agregar valor, diferenciar a mercadoria no mercado e dificultar imitações.
Os próximos passos: Jucems, CNPJ e assembleias
Apesar da fundação formal, a Coopims ainda não está pronta para operar. A assembleia do dia 24 marcou a constituição da cooperativa e a aprovação de seus documentos básicos. Agora, os responsáveis trabalham no registro junto à Junta Comercial do Estado de Mato Grosso do Sul (Jucems) e, na sequência, na obtenção do CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) junto à Receita Federal, passo indispensável para emitir notas, firmar contratos e acessar crédito.
Somente depois dessa formalização os projetos começarão a ser elaborados, de acordo com as necessidades de cada aldeia, região ou grupo de produtores. Cada proposta deverá ser submetida aos cooperados, e a aprovação em assembleia virá antes da busca por parcerias, da captação de financiamento e do início efetivo das operações. O rito, mais lento do que uma decisão centralizada, é coerente com a ideia de que a cooperativa responda às comunidades, e não o contrário.
Um momento de atenção à produção nas aldeias
A criação da cooperativa ocorre em um período de maior atenção à produção nas terras indígenas do Estado. Na sexta-feira (25), um dia depois da assembleia em Campo Grande, o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, assinou na Aldeia Pirajuí, em Paranhos, três termos que somam R$ 7,2 milhões para comunidades guarani-kaiowá, segundo reportagem do Campo Grande News. São R$ 2 milhões para apoio à produção agrícola, cerca de R$ 2 milhões para aquisição de alimentos e aproximadamente R$ 3,19 milhões para a elaboração de planos de gestão territorial em dez áreas indígenas de Mato Grosso do Sul, com execução dividida entre Embrapa, Conab e Instituto Federal do Paraná (IFPR).
Ao comentar os investimentos, o ministro resumiu o objetivo de ampliar as condições de produção dentro das comunidades: “Que as comunidades indígenas tenham as mesmas chances que as comunidades não indígenas. Que possam produzir seu próprio alimento e manter suas famílias”, disse. A divulgação federal, porém, não detalhou quantos equipamentos poderão ser adquiridos nem quais comunidades serão atendidas.
As duas iniciativas não têm relação formal entre si, mas se complementam no diagnóstico. Recursos públicos para plantar e programas de compra de alimentos ganham efetividade quando existe, do lado das comunidades, uma estrutura capaz de organizar a oferta, cumprir contratos e negociar em bloco. É esse espaço que a Coopims pretende ocupar.
Cooperativismo em alta em MS
O movimento também dialoga com uma tendência mais ampla do mercado de trabalho sul-mato-grossense. Dados da Pnad Contínua do IBGE referentes a 2025, divulgados na semana passada, mostraram que a associação de trabalhadores a cooperativas subiu para 4,8% dos ocupados no Estado, enquanto a sindicalização despencou nos últimos anos. Para comunidades com produção pulverizada e pouca estrutura de comercialização, o modelo cooperativo aparece como caminho para ganhar escala sem abrir mão da autonomia.
Experiências recentes com empreendedorismo indígena no Estado ajudam a dimensionar o potencial. Em setembro, por exemplo, uma turma do Empretec Rural realizada pelo Sebrae/MS na Aldeia Lagoinha, em Aquidauana, reuniu 23 participantes e resultou na articulação de uma feira itinerante entre aldeias, sinal de que há demanda por formação em gestão e por canais próprios de venda, justamente os dois pilares que a nova cooperativa coloca no centro de sua proposta.
O que está em jogo
Se conseguir sair do papel, a Coopims pode se tornar um dos principais instrumentos de desenvolvimento econômico das terras indígenas de Mato Grosso do Sul, reunindo em uma mesma estrutura produção agropecuária, turismo, artesanato e proteção de conhecimentos tradicionais. Os desafios, contudo, são proporcionais à ambição: articular povos diferentes, com realidades territoriais distintas, garantir capacitação antes das operações e construir credibilidade junto a compradores e bancos.
Os próximos meses devem ser dedicados à burocracia do registro e à elaboração dos primeiros projetos. A partir daí, as assembleias da cooperativa dirão quais aldeias e cadeias produtivas saem na frente e em que ritmo a proposta de negociar a própria produção deixa de ser intenção para virar prática.
Fontes: Campo Grande News – Povos indígenas de MS se unem para negociar a própria produção; Campo Grande News – Agro indígena recebe R$ 7,2 milhões para produção e compra de alimentos; Agência Sebrae de Notícias MS – Empretec Rural fortalece empreendedorismo indígena em Aquidauana.
