Enquanto a indústria atrai os bilhões dos grandes investimentos, é o setor de Serviços que garante o volume e a capilaridade dos novos CNPJs. Dados da Jucems revelam um ambiente de negócios transformado pela Inteligência Artificial e pela desburocratização, mas apontam desafios de sustentabilidade para os pequenos negócios nas grandes cidades.
Por Redação Empreende MS
O ano de 2025 fechou suas cortinas deixando um legado numérico robusto para a economia de Mato Grosso do Sul. Segundo balanço oficial divulgado na manhã desta quinta-feira (08) pela Jucems (Junta Comercial de Mato Grosso do Sul), o estado registrou a abertura de 13.143 novas empresas entre janeiro e dezembro.
Para o leitor do Empreende MS — acostumado a manchetes sobre megainvestimentos em celulose e recordes de safra —, este dado traz uma perspectiva diferente. Ele não fala do PIB macroeconômico, mas da economia real, aquela feita por consultórios, escritórios de TI, pequenas lojas e prestadores de serviço que formam o tecido urbano das nossas cidades.
Este volume de constituições empresariais não aconteceu por acaso. Ele é o reflexo direto de duas forças motrizes: a modernização tecnológica do ambiente regulatório (o fim da papelada física) e o otimismo do mercado local, impulsionado pelo pleno emprego e pela circulação de renda. A seguir, dissecamos o relatório anual da Jucems para entender quem são, onde estão e o que fazem esses novos empreendedores que apostaram no CNPJ em 2025.
A Hegemonia do Setor de Serviços: 75% dos Novos Negócios
Se tivéssemos que definir o perfil do “novo empresário” de 2025 em MS, ele não seria um industrial e nem um comerciante de balcão; ele seria um prestador de serviços. Os dados são avassaladores: das 13.143 empresas abertas, 9.923 pertencem ao setor de Serviços. Isso representa 75,5% de todas as novas constituições.
Análise Econômica: Este domínio de três quartos do mercado indica uma maturidade econômica importante. Em economias em desenvolvimento, é natural que o setor terciário (serviços) ganhe relevância à medida que a renda da população aumenta e as demandas se tornam mais sofisticadas. Não estamos falando apenas de serviços básicos. O relatório de dezembro aponta uma concentração em “atividades de serviços especializados e técnicos” e “atividades administrativas”. Isso sugere o surgimento de um ecossistema B2B (Business to Business) forte, onde empresas nascem para servir outras empresas — muito provavelmente, para atender as grandes indústrias que se instalam no estado.
Saúde e Logística: Outros dois nichos de destaque no setor de serviços foram “Saúde” e “Transporte e Logística”. O primeiro reflete o envelhecimento da população e a expansão da medicina privada no interior. O segundo é uma consequência óbvia da vocação exportadora do estado: se produzimos grãos e celulose, precisamos de transportadoras, despachantes e operadores logísticos para mover essa riqueza.
O Comércio Resiste e a Indústria é “Elite”
Enquanto os serviços explodem, o comércio tradicional mantém sua relevância, mas com uma fatia menor do bolo. Foram abertas 2.751 novas empresas comerciais, respondendo por 20,9% do total. Esse número reflete a transformação do varejo. Abrir uma loja física hoje é mais caro e arriscado do que abrir uma consultoria online. O comércio que nasce em 2025 já nasce híbrido, muitas vezes operando no digital antes de ter uma porta para a rua.
Já a Indústria registrou 469 novos CNPJs (3,6% do total). Não se engane pelo número baixo. No setor industrial, a quantidade importa menos que a qualidade (densidade de capital). Uma única nova indústria pode empregar 500 pessoas e investir R$ 100 milhões, enquanto 100 novas empresas de serviços podem ser formadas por profissionais autônomos (PJs). Portanto, esses 469 novos registros industriais são vitais. Eles representam as pequenas e médias indústrias de transformação, marcenarias, confecções e metalúrgicas que formam a cadeia de suprimentos local.
O “Milagre” da Desburocratização: IA e WhatsApp
O secretário Jaime Verruck (Semadesc) atribui esses resultados a um trabalho silencioso, mas revolucionário, de “limpeza” burocrática. Segundo Verruck, o governo estadual vem investindo há mais de uma década para transformar a Junta Comercial. O resultado prático em 2025 foi a consolidação de um ambiente onde abrir empresa deixou de ser um calvário de carimbos.
Tecnologia na Ponta: O secretário destacou duas ferramentas que mudaram o jogo:
- Assistente Virtual com IA: A Jucems implementou sistemas que usam inteligência artificial para pré-analisar documentos. Isso reduz drasticamente o “vai e volta” de processos por erros formais (como um CEP errado ou uma vírgula fora do lugar no contrato social). O sistema aponta o erro antes mesmo de o processo ser protocolado.
- Certidões via WhatsApp: A burocracia agora cabe no bolso. A emissão de certidões, disponíveis 24 horas por dia pelo aplicativo de mensagens, elimina a necessidade de deslocamento e permite que contadores e empresários resolvam pendências documentais no meio da madrugada, se necessário.
“Ao tornar os procedimentos mais rápidos, previsíveis e acessíveis, o Estado ganha competitividade e atrai novos investimentos”, afirmou Verruck. Essa previsibilidade é a palavra-chave para o investidor estrangeiro ou de outros estados.
Raio-X de Dezembro: O Mês do Contraste
Ao analisarmos o recorte específico de dezembro de 2025, encontramos dados que servem de alerta para a gestão empresarial nas grandes cidades. No último mês do ano, foram abertas 847 empresas. Dessas, a liderança continuou com os Serviços (681 aberturas ou 80,4%), confirmando a tendência anual.
Porém, a geografia desses números revela uma dinâmica de “destruição criativa” (conceito do economista Schumpeter) muito acelerada nas metrópoles regionais.
O Caso Campo Grande: A capital liderou a abertura de empresas em dezembro, com 328 novos registros. Um número expressivo. No entanto, Campo Grande também liderou o ranking de empresas extintas (fechadas), com 340 baixas no mesmo período. Isso significa que, em dezembro, a capital teve um saldo negativo de 12 empresas (abriu 328, fechou 340).
Análise do Fenômeno: Esse saldo negativo pontual em dezembro é comum e pode ser explicado pela sazonalidade (muitos empresários esperam o fim do ano para encerrar formalmente atividades que já não operavam). Contudo, também acende um alerta sobre a sustentabilidade dos negócios na capital. A concorrência é mais acirrada, os custos fixos (aluguel, IPTU) são mais altos e a margem de erro é menor. Para o empreendedor de Campo Grande, o desafio não é abrir (o que ficou fácil com a Jucems digital), mas sim manter-se aberto.
O Interior que Sustenta: Enquanto a capital empatava tecnicamente, o interior mostrava vigor.
- Dourados: Abriu 87, fechou 96 (também sentindo a pressão de fim de ano).
- Três Lagoas: Abriu 52, fechou 33 (saldo positivo, impulsionado pela indústria).
- Ponta Porã: Abriu 32, fechou 16 (saldo positivo de 100% — para cada empresa que fechou, duas abriram).
- Chapadão do Sul: Abriu 26, fechou 11 (outro saldo extremamente positivo).
A Ascensão das Cidades Médias
O ranking de abertura de empresas de dezembro joga luz sobre novos polos de desenvolvimento que, muitas vezes, ficam fora do radar da mídia tradicional.
Chapadão do Sul e Inocência: Ver cidades como Chapadão do Sul (26 aberturas) e Inocência figurando no “Top 10” estadual é um sinal claro do efeito do agronegócio e dos grandes projetos florestais. Inocência, especificamente, vive a expectativa da chegada da nova fábrica de celulose (Projeto Sucuriú). O fato de estar entre os líderes de abertura de empresas indica que os fornecedores de serviços (hotéis, restaurantes, oficinas, construtoras) já estão se instalando na cidade para atender a demanda futura. É o “efeito âncora” da indústria funcionando na prática.
A Fronteira Viva: Ponta Porã e Corumbá (com 20 aberturas em dezembro) mostram que a economia de fronteira continua dinâmica, impulsionada pelo câmbio e pelo turismo de compras e pesca.
Conclusão: Um Ambiente Ágil, mas Exigente
O relatório de 2025 da Jucems conta uma história de sucesso na desburocratização. Mato Grosso do Sul conseguiu, de fato, criar um ambiente onde a barreira de entrada para o empreendedorismo é mínima. A tecnologia, citada pelo Secretário Verruck, cumpriu seu papel de facilitadora.
Temos 13.143 novas tentativas de sucesso. São 13 mil novos sonhos, planos de negócios e riscos assumidos. A dominância absoluta do setor de Serviços (75%) aponta para o futuro do trabalho: mais flexível, mais técnico e mais especializado. Por outro lado, o alto número de fechamentos na capital em dezembro nos lembra que a agilidade para abrir precisa vir acompanhada de competência para gerir.
Para 2026, o desafio do governo e de entidades como o Sebrae deixa de ser a burocracia da abertura (problema praticamente resolvido) e passa a ser a longevidade das empresas. Garantir que os 13 mil CNPJs abertos em 2025 cheguem vivos e lucrando em 2030 é a nova meta econômica do estado.
