Com programação estratégica em Campo Grande e ações simultâneas inéditas em 12 municípios, megaevento promovido pelo Sebrae Startups acontece neste dia 21 de março e conecta todo o ecossistema de negócios do estado.
O estigma de que a inovação tecnológica se concentra exclusivamente nos limites das capitais e das grandes metrópoles financeiras tem sido progressivamente desmontado no Brasil. Em Mato Grosso do Sul, essa descentralização atingirá seu ápice operacional no próximo dia 21 de março. Com o objetivo de integrar mentes criativas e consolidar uma base de desenvolvimento de base tecnológica, o estado se prepara para receber a 12ª edição nacional do Startup Day. Pela primeira vez em sua história, a iniciativa promovida pelo Sebrae Startups não ficará restrita a Campo Grande e ganhará fôlego simultâneo em 12 municípios estratégicos.
O mapa de execução engloba polos agroindustriais, turísticos e acadêmicos, incluindo Dourados, Naviraí, Nova Andradina, Ponta Porã, Jardim, Aquidauana, Corumbá, Coxim, Chapadão do Sul, Três Lagoas e Paranaíba, além da capital. A magnitude do projeto impressiona pelo seu poder de capilaridade: a edição anterior, em 2025, reuniu mais de 30 mil participantes distribuídos por 253 cidades nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal, estabelecendo-se como a principal vitrine de empreendedorismo tecnológico do país.
Para Tito Estanqueiro, diretor de Operações do Sebrae/MS, a decisão de pulverizar as ações por uma dúzia de cidades reflete um avanço real na capacidade do estado de absorver tecnologia aplicada. “É o maior número de municípios participantes no estado desde a primeira edição do evento, o que mostra a evolução dos ecossistemas de inovação em Mato Grosso do Sul”, atesta Estanqueiro. Segundo o diretor, o formato descentralizado permite que fundadores locais se conectem e adquiram conhecimentos táticos vitais sem precisar abandonar suas regiões de origem.
A Transição Estrutural para uma Nova Economia
O diferencial competitivo do Startup Day 2026 está em sua recusa em replicar uma programação única para todo o país. O evento foi desenhado de forma colaborativa com os atores regionais, garantindo que os painéis e rodadas de mentoria respondam diretamente às demandas de cada território. Contudo, na capital Campo Grande, o evento assumirá um caráter macroeconômico, reunindo empresários, gestores públicos e fundos de investimento nas dependências do Living Lab MS, espaço que se consagrou como a principal base de coworking e prototipagem do estado.
O fio condutor das discussões será estabelecido logo às 7h30 da manhã com a palestra magna intitulada “Um Estado em transição para uma nova economia e suas oportunidades”. A apresentação será conduzida por Jaime Verruck, Secretário de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação. A presença do alto escalão governamental no palco principal de um encontro de startups expõe o planejamento do poder público.
Mato Grosso do Sul atua para transformar sua base econômica, altamente dependente da exportação de commodities puras, em um polo de valor agregado. A transição energética, a ascensão da indústria da celulose no leste do estado e o advento logístico da Rota Bioceânica demandam níveis altíssimos de eficiência digital. Para o empresário de tecnologia e para os novos empreendedores, o recado governamental é claro: os gargalos da infraestrutura e do agronegócio local são, hoje, os melhores clientes disponíveis para soluções em inteligência de dados, logtechs (tecnologia logística) e agtechs(tecnologia agrícola).
O Mercado B2G: O Governo como Cliente
Além da visão macro, a programação matutina do Living Lab MS atacará um dos setores mais difíceis e rentáveis do mercado: a venda para o poder público. O conceito de Business to Government (B2G), ou Empresa para Governo, será esmiuçado em um talk focado em ensinar jovens empresas a navegarem pelo complexo sistema de compras estatais e municipais.
Historicamente, empresas de tecnologia iniciantes mantinham distância dos processos licitatórios devido à burocracia e ao tempo de recebimento. Hoje, com os avanços do Marco Legal das Startups, mecanismos como o Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI) permitem que a administração pública teste produtos de maneira mais ágil. Ensinar os fundadores locais a transformar o Estado em cliente pagante é uma estratégia de mão dupla: as empresas ganham fôlego de caixa e a máquina pública moderniza seus serviços ao cidadão.
Atravessando o Vale da Morte com “Smart Money”
Se a validação da ideia e o primeiro cliente são passos difíceis, a captação de recursos para escalar o negócio é frequentemente a barreira intransponível para novos fundadores. A busca por investimento anjo ou de fundos de Venture Capital será detalhada no painel de “Captação de Recursos”, que contará com uma força-tarefa de fomento composta por representantes do próprio Sebrae, da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia (Fundect), da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e do Senac.
O objetivo dessa mesa é educar o empreendedor sobre o uso estratégico das subvenções econômicas — os chamados recursos não reembolsáveis ou “a fundo perdido”. Quando o governo ou agências de fomento federal subsidiam o desenvolvimento inicial de um protótipo, a startup consegue desenvolver sua tecnologia sem precisar ceder parcelas de sua sociedade (equity) de maneira prematura. Essa dinâmica fortalece o valor de mercado (valuation) da empresa para quando ela precisar se sentar à mesa com investidores privados.
A Prática da Inovação: Rodadas de Negócios e Cultura Maker
Fugindo do formato exclusivamente expositivo, a organização estruturou momentos de testes reais de mercado. Sob a coordenação do Impact Hub, as startups participarão de Rodadas de Negócios estruturadas, garantindo o “olho no olho” com investidores e parceiros corporativos. O domínio da técnica de pitch (a apresentação rápida de vendas) será exigido na prática, testando a habilidade dos fundadores de convencer o mercado sobre a viabilidade de seus negócios.
Outro pilar de conhecimento será o foco no desenvolvimento físico. A agenda oficial na capital inclui visitas guiadas ao LabMaker. Para os empreendedores focados no desenvolvimento de hardware (equipamentos físicos, sensores, maquinário leve), ter acesso a impressoras 3D, cortadoras a laser e fresadoras com custo subsidiado elimina a imensa barreira financeira da prototipagem, permitindo que conceitos desenhados em computador ganhem materialidade para os primeiros testes de campo. O evento será coroado com o debate entre casos de sucesso, trazendo fundadores sul-mato-grossenses que romperam as fronteiras estaduais e hoje operam no mercado nacional e internacional.
A Inovação que Brota do Interior
O aspecto mais relevante desta edição do Startup Day não ocorre dentro do Living Lab, mas sim na logística construída para alcançar as outras onze cidades anfitriãs, utilizando estruturas acadêmicas e comerciais sólidas.
Em Dourados, segundo maior PIB do estado e forte polo universitário, o evento iniciará às 8h no Tereré Hub, instalado no bloco da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Economia (FACE) da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). A região do Vale do Ivinhema será contemplada com bases em Nova Andradina, no auditório da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), e na sede da Associação Comercial e Empresarial de Naviraí.
No leste do estado, núcleo da industrialização de base florestal, a ação se dividirá entre as unidades do Sebrae em Três Lagoas e as dependências da UFMS em Paranaíba, além de Chapadão do Sul, que mobilizará o agronegócio de precisão no Colégio Maper.
A fronteira sul, fundamental na intersecção do comércio bilateral com o Paraguai, usará como base as recém-inauguradas dependências do Parque Tecnológico Internacional de Ponta Porã. Ao norte e oeste, Coxim reunirá os empreendedores em sua unidade do Sebrae, enquanto a pantaneira Corumbá mobilizará seu Centro Sebrae Pantanal. Na rota turística, Jardim fará o uso das instalações do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), e Aquidauana inovou ao programar seu encontro para as 18h no icônico Espaço de Formação GETEC, na Estação Ferroviária do Trem do Pantanal.
Essa arquitetura de distribuição garante que as informações técnicas, tendências de mercado e metodologias ágeis de gestão cheguem exatamente onde a produção primária ocorre. Ao conectar produtores rurais, estudantes, professores e donos de empresas do interior com metodologias de inovação aberta, o evento cria polos regionais de tecnologia capazes de desenvolverem softwares e hardwares adaptados à realidade climática e logística de cada canto do estado.
As inscrições para participar de qualquer uma das praças estão abertas de maneira gratuita e devem ser formalizadas através da plataforma digital do Sympla, com links individualizados por município disponibilizados pelos organizadores.
Com a ação simultânea programada para a manhã do dia 21 de março, o ecossistema empresarial de Mato Grosso do Sul envia uma resposta robusta às exigências do mercado do século XXI. O fortalecimento de uma cultura colaborativa que aproxima aceleradoras, instituições de ensino e fundadores locais atua como a infraestrutura intelectual necessária para que a região Centro-Oeste deixe de importar tecnologia e passe a exportá-la com o mesmo nível de competência com que exporta seus produtos primários.
