Com a implantação de eletrodos de estimulação profunda em um paciente do sistema público, o Hospital Regional da Costa Leste prova que a infraestrutura hospitalar do estado atingiu maturidade para executar procedimentos de altíssima complexidade, abrindo portas para o ecossistema de inovação médica regional.
O mercado de tecnologia aplicada à saúde (HealthTech) costuma medir o grau de desenvolvimento de uma região pela complexidade dos procedimentos médicos realizados fora de suas grandes capitais. Quando uma cidade do interior atinge o nível de excelência necessário para executar cirurgias neurológicas com implantação de componentes eletrônicos, ela envia um sinal direto para a indústria de equipamentos médicos, pesquisadores e investidores: há infraestrutura, capital humano e demanda instalada. É exatamente este salto de maturidade tecnológica que Mato Grosso do Sul acaba de registrar em Três Lagoas.
Neste mês de março de 2026, o Hospital Regional da Costa Leste Magid Thomé, unidade administrada pelo Instituto Acqua em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde (SES), realizou a primeira cirurgia de implante de eletrodos para estimulação cerebral pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no estado. O procedimento, focado no tratamento de estágios avançados da doença de Parkinson, representa não apenas um divisor de águas na vida do paciente operado, mas um marco histórico para a medicina pública sul-mato-grossense.
Para os profissionais que acompanham o desenvolvimento econômico e a interiorização da saúde de ponta, o fato de uma operação desse calibre ocorrer a mais de 300 quilômetros da capital, Campo Grande, comprova que os investimentos governamentais em infraestrutura hospitalar estão gerando retornos práticos e de alto impacto.
A Tecnologia por Trás da Qualidade de Vida
O beneficiário direto desta inovação foi o servidor público aposentado Gilberto Barbieri, de 58 anos. Residente no município de Nova Andradina, Gilberto convive com os sintomas progressivos do Parkinson há cerca de 15 anos. A doença, caracterizada por ser uma enfermidade neurológica crônica e degenerativa, afeta a capacidade motora, gerando tremores de repouso, rigidez muscular extrema e lentidão.
Ao longo de mais de uma década, a única alternativa do paciente foi o tratamento medicamentoso rigoroso. Contudo, como é comum em casos de longa data, os remédios passaram a exigir doses mais frequentes e começaram a causar efeitos colaterais severos, como movimentos involuntários contínuos. A perda de eficácia química o colocava rotineiramente no chamado estado ‘OFF’ — momento em que o cérebro envia o comando motor, mas o corpo congela e não responde.
A resposta da ciência médica para esse esgotamento medicamentoso é o implante de eletrodo para estimulação cerebral profunda (DBS – Deep Brain Stimulation). O procedimento atua na fronteira exata entre a neurociência e a engenharia biomédica.
Conduzida pelo médico neurocirurgião Eduardo Cintra Abib, a cirurgia consiste na implantação milimétrica de finos eletrodos em uma área profunda do cérebro conhecida como núcleo subtalâmico. “Colocamos um eletrodo de cada lado do cérebro, porque cada hemisfério controla o lado oposto do corpo”, explicou Abib.
A alta complexidade técnica da operação exige que o paciente permaneça acordado durante boa parte do processo. Essa etapa é crucial: a equipe médica precisa testar os movimentos do paciente em tempo real para encontrar a localização exata no cérebro onde o impulso elétrico consegue anular os sintomas de tremor e rigidez.
Após a fixação dos eletrodos cranianos, eles são conectados via cabos subcutâneos a um dispositivo gerador de pulsos — um pequeno hardware semelhante a um marca-passo cardíaco — implantado na região do peito. Esse computador em miniatura é programado de fora do corpo para emitir impulsos elétricos contínuos que reequilibram os circuitos cerebrais afetados pela falta de dopamina, característica principal do Parkinson.
O Impacto Econômico e Social da Alta Complexidade
A literatura médica aponta que o sucesso dessa intervenção tecnológica pode reduzir em até 80% a necessidade de ingestão de medicamentos diários. Para o sistema público de saúde, essa redução no consumo de drogas de alto custo e na frequência de internações por quedas e complicações motoras representa uma economia substancial a longo prazo.
Para o núcleo familiar de Gilberto, o ganho é medido em autonomia. A sua esposa, Elcia Oliveira Umbelino Barbieri, resumiu o impacto da doença relatando o isolamento social que os tremores causavam, impedindo o casal de comparecer a eventos ou viajar. O sucesso da cirurgia devolve o indivíduo ao convívio social e à capacidade de consumo, fatores intrínsecos à recuperação da dignidade pessoal. O paciente já planeja retomar atividades básicas, como viajar e pescar com os netos, ações antes impossibilitadas pelo medo do congelamento muscular súbito.
O fluxo de recuperação pós-operatória também impressiona pela eficiência. Realizada no dia 05 de março, a cirurgia exigiu apenas um dia de internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e dois dias de observação clínica, culminando na alta hospitalar no dia 08. O próximo passo envolve a programação fina do dispositivo eletrônico via software externo, ajustando a intensidade da corrente elétrica de acordo com a melhora sintomática reportada por Gilberto.
Um Novo Patamar para a Saúde do Interior
A execução de um procedimento que combina neurocirurgia de alta precisão com biotecnologia implantável coloca o Hospital Regional de Três Lagoas em um novo patamar de referência no Centro-Oeste brasileiro. A equipe envolvida contou com especialistas de ponta, incluindo o também neurocirurgião Marco Aurélio Fernandes Teixeira, os anestesistas Ariane Freitas Neves e Walter Chimello Balhester, e os enfermeiros Raisa Carvalho Batista e Felipe Gabriel Rocini Araújo.
O diretor técnico do hospital, Marllon Nunes, destacou o significado macroeconômico desta conquista. “Este procedimento representa um avanço para o SUS em Mato Grosso do Sul. Oferecer uma cirurgia de alta complexidade como a estimulação cerebral profunda demonstra a capacidade técnica do hospital e reforça seu papel como referência regional e estadual em assistência especializada.”
Para o ecossistema de negócios que permeia a saúde pública e privada — envolvendo logística de materiais cirúrgicos, manutenção de equipamentos hospitalares e prestação de serviços especializados —, a mensagem é clara. A região Leste do estado, já consolidada globalmente como o “Vale da Celulose” por sua potência industrial, começa a criar uma musculatura paralela na prestação de serviços médicos de alta complexidade.
Quando o interior do estado demonstra capacidade para reter esse nível de operação clínica, ele evita o êxodo de pacientes e de verbas públicas para os grandes centros urbanos, fortalecendo a economia local e estimulando a fixação de médicos especialistas, pesquisadores e clínicas satélites na região. A inovação médica, neste contexto, atua como um vetor incontestável de desenvolvimento regional integrado.
