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Empreenda MS > Empreendedorismo > A Diplomacia do Conhecimento: Fundect projeta Mato Grosso do Sul como líder na formulação da nova agenda de ciência e inovação do Mercosul
Empreendedorismo

A Diplomacia do Conhecimento: Fundect projeta Mato Grosso do Sul como líder na formulação da nova agenda de ciência e inovação do Mercosul

Empreenda MS Publicado em 27/05/2026
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11 minutos de leitura
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O Mercado Comum do Sul (Mercosul) atravessa o seu mais complexo e exigente período de reconfiguração estratégica desde a sua fundação, consubstanciada no Tratado de Assunção. Durante mais de três décadas, o bloco económico pautou a sua existência primordialmente pela eliminação de tarifas aduaneiras, pela facilitação do trânsito de cidadãos e pela negociação conjunta de commodities agrícolas e bens de consumo industrializados. Contudo, o mercado global do século XXI impõe um novo patamar de exigência para a sobrevivência das uniões aduaneiras: a soberania tecnológica. É precisamente nesta transição crítica que o Estado de Mato Grosso do Sul ascende a uma posição de liderança continental.

De acordo com as recentes diretrizes institucionais, a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect) assumiu um papel de destaque ao contribuir ativamente na elaboração da agenda de ciência e inovação para o Mercosul. O envolvimento direto de uma agência de fomento estadual na redação de diretrizes para um bloco económico multinacional não é um ato administrativo trivial; constitui um marco referencial na diplomacia científica brasileira.

Para os analistas de relações internacionais e os investidores que monitorizam a estabilidade do Cone Sul, a presença da Fundect nestas mesas de negociação atesta que Mato Grosso do Sul deixou de ser apenas a “fronteira física” do Brasil com o Paraguai e a Bolívia, passando a atuar como a “fronteira intelectual” e o polo coordenador da integração produtiva da América do Sul.

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O Esgotamento do Modelo Tradicional e a Urgência da Inovação

A justificação para a urgência de uma nova agenda baseia-se numa fragilidade estrutural das economias latino-americanas. O Mercosul atua como um dos maiores fornecedores globais de proteína animal, soja, minério de ferro e celulose. No entanto, os países membros dependem de forma quase absoluta da importação de tecnologia de ponta — desde os algoritmos que guiam os tratores autónomos até aos componentes químicos avançados dos defensivos agrícolas — proveniente da América do Norte, Europa ou Ásia.

Esta dependência tecnológica gera um défice crónico na balança de serviços e de propriedade intelectual. Para travar esta evasão de divisas, o bloco necessita de fomentar um ecossistema interno e partilhado de pesquisa aplicada. A contribuição da Fundect neste processo visa transpor as metodologias de fomento que foram bem-sucedidas à escala estadual para um cenário transnacional. Quando a fundação sul-mato-grossense exporta o seu know-how de estruturação de editais para o bloco, propõe que os governos de Buenos Aires, Assunção, Montevideu e Brasília unam os seus orçamentos de pesquisa para financiarem projetos de forma consorciada, diluindo os riscos científicos e multiplicando os ganhos corporativos.

Bioeconomia e Biomas Partilhados: Uma Ciência Sem Fronteiras

Uma agenda de ciência para o Mercosul não pode ser decalque das pautas europeias; deve responder aos dilemas exclusivos da geografia local. Um dos vetores mais nevrálgicos desta integração é a gestão dos recursos biológicos. Mato Grosso do Sul partilha ecossistemas vitais com os países vizinhos: o bioma do Pantanal e a região do Chaco ignoram os marcos fronteiriços estabelecidos pelos tratados políticos, formando um continuum ecológico que exige um planeamento científico unificado.

O envolvimento da Fundect permite colocar a bioeconomia no topo das prioridades do Mercosul. A investigação de novos fármacos a partir da flora do Cerrado ou do Pantanal, o desenvolvimento de novos materiais sustentáveis e o estudo da dinâmica hídrica da bacia do Rio Paraguai não podem ser executados isoladamente. Uma agenda de inovação comunitária possibilita que uma startup de biotecnologia sediada em Campo Grande receba financiamento para conduzir testes laboratoriais em parceria com a Universidade Nacional de Assunção, partilhando patentes e direitos autorais (royalties). Esta cooperação transfronteiriça impede a biopirataria internacional e assegura que a riqueza gerada pelo património genético sul-americano permaneça nos cofres das nações que o detêm.

Além da flora, o Aquífero Guarani — uma das maiores reservas de água doce subterrânea do planeta — sublinha a necessidade imperativa de dados científicos harmonizados. A elaboração desta pauta conjunta, com o auxílio da fundação sul-mato-grossense, garante que a tecnologia de monitorização de lençóis freáticos opere sob os mesmos padrões e algoritmos em todo o território abrangido pelos países membros.

A Defesa Fitossanitária e a Tecnologia do Agronegócio (AgTech)

O segundo grande eixo que domina as preocupações do bloco económico é a segurança sanitária. Sendo o Mercosul uma potência exportadora de alimentos, qualquer falha no controlo de pragas agrícolas ou na contenção de surtos virais na pecuária tem o condão de paralisar as exportações e causar prejuízos de dezenas de milhares de milhões de dólares em semanas. Os vírus e as bactérias que ameaçam as lavouras e os rebanhos não reconhecem postos alfandegários.

A formulação de uma agenda integrada confere a Mato Grosso do Sul, através da articulação da Fundect, o poder de influenciar a criação de protocolos biológicos unificados. A diretriz estratégica aponta para a necessidade de financiar consórcios de investigadores sul-americanos focados no mapeamento genómico de pragas e no desenvolvimento de vacinas desenvolvidas nativamente.

A inovação no agronegócio (AgTech) constitui a base desta colaboração. O fomento de startups que utilizam inteligência artificial preditiva e imagens de satélite para monitorizar a evolução das culturas deve ser encarado como um esforço do bloco. Ao padronizar os incentivos e alinhar a pesquisa, o Mercosul pode estabelecer uma “barreira sanitária digital”, em que as bases de dados das agências de defesa agropecuária de todos os países comuniquem em tempo real, bloqueando imediatamente qualquer foco infeccioso através do rastreio de precisão (blockchain aplicado à logística animal).

A Rota Bioceânica e a Integração Logística Digital

O esforço para redigir a agenda de ciência e inovação do Mercosul esbarra, invariavelmente, no maior projeto infraestrutural em curso no continente: a Rota Bioceânica. O corredor viário que atravessa Mato Grosso do Sul, o Paraguai e a Argentina em direção aos portos profundos do Norte do Chile é uma proeza de engenharia civil, mas o seu sucesso financeiro futuro dependerá, de forma absoluta, da engenharia de software.

Uma autoestrada internacional perde toda a sua competitividade tarifária se os camiões de carga ficarem retidos durante dias nas fronteiras a aguardarem vistorias em papel e carimbos consulares. A inserção da Fundect no debate do bloco sul-americano transporta a urgência de digitalizar e integrar as alfândegas. O financiamento de inovação deve contemplar a criação de tecnologias de Governo Digital (GovTech), como sistemas de leitura biométrica para condutores, portais de libertação de carga por chancela eletrónica e pesagem dinâmica de veículos em andamento.

Mato Grosso do Sul atua, neste contexto, como o “paciente zero” ou o grande laboratório de testes desta tecnologia de fronteira. Ao formular as diretrizes de inovação do Mercosul, a Fundect defende que a tecnologia de suporte logístico seja desenvolvida por consórcios de investigadores locais, garantindo que o núcleo tecnológico do comércio internacional seja mantido sob a tutela dos estados membros.

A Mobilidade do Capital Intelectual e o Financiamento

Na ótica do planeamento estratégico, não pode existir um mercado comum de bens se não existir um mercado comum de capital intelectual. Até ao momento, as legislações nacionais e as burocracias académicas dificultam imensamente que um investigador boliviano, um estudante de doutoramento argentino e um pós-doutorado brasileiro trabalhem em conjunto numa mesma startup ou num laboratório financiado pelo Estado.

A agenda delineada com a contribuição das fundações estaduais propõe uma reestruturação severa deste modelo. A meta é a criação de um verdadeiro visto de trânsito científico, homologando diplomas automaticamente e permitindo a fluidez da mão de obra altamente qualificada.

Do ponto de vista financeiro, a consolidação deste pacto de ciência pavimenta o terreno para a estruturação de um fundo de investimento comum do Mercosul vocacionado estritamente para Deep Techs (tecnologias de base científica profunda). A união dos recursos dos Fundos Nacionais de Desenvolvimento Científico de cada país permite gerar uma capacidade de investimento (“poder de fogo”) capaz de competir com as rondas de Venture Capital do Hemisfério Norte. O papel da Fundect é garantir que, na estruturação destas linhas de crédito multinacionais, as empresas e as instituições sul-mato-grossenses disponham de plenas condições regulatórias para concorrer e absorver uma larga fatia deste capital.

Conclusão: Mato Grosso do Sul na Liderança Geopolítica

A chamada para a elaboração conjunta dos desígnios tecnológicos do bloco regional sela uma transformação paradigmática na estatura política do Governo de Mato Grosso do Sul. Historicamente as capitais do Sudeste e do Sul monopolizavam as diretrizes da cooperação exterior. A proeminência atual do Centro-Oeste atesta que a governação e a prosperidade da região não dependem exclusivamente da expansão das áreas de cultivo, mas da sua inegável maturidade institucional.

Ao participar na fundação de um novo Mercosul — um bloco que se pretende afirmar não pelo volume de sacas de grãos que exporta, mas pelo elevado grau de inteligência embutido nesses produtos —, a Fundect atua como o vértice diplomático de uma transformação inadiável. A agenda de ciência e inovação em elaboração será a Constituição técnica da próxima geração de empresas sul-americanas, garantindo que o conhecimento, a pesquisa e as patentes produzidas na planície pantaneira e nos corredores universitários fluam livremente por todo o continente, cimentando o caminho para a genuína soberania tecnológica da América Latina.

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