Com a profunda e iminente alteração nas regras fiscais e a consequente supressão da tradicional guerra de impostos no Brasil, a gestão sul-mato-grossense aposta na edificação de infraestrutura pesada e na desburocratização institucional para assegurar a atratividade do seu território perante os grandes conglomerados empresariais.
O tabuleiro da economia e da atração de investimentos diretos no Brasil encontra-se num processo de reconfiguração de proporções históricas. Durante as últimas décadas, os estados da federação disputaram a instalação de novos parques industriais, centros de distribuição e megaprojetos agroindustriais utilizando uma arma primária e agressiva: a concessão de pesados incentivos fiscais e reduções draconianas nas taxas de impostos estaduais. Contudo, o avanço e a regulamentação do novo sistema fiscal brasileiro obrigam os governos regionais a abandonarem esta estratégia para procurarem novos e sólidos trunfos competitivos. É perante este panorama de incerteza nacional que o Estado de Mato Grosso do Sul demonstra estar a antecipar o futuro.
As métricas oficiais e a orientação do poder executivo revelam que o território sul-mato-grossense encontra-se a preparar ativamente a sua economia para a transição e a implementação das futuras mudanças tributárias. O planeamento do Estado não assenta em medidas paliativas, mas numa manobra de alteração estrutural profunda. Para garantir a defesa da sua matriz produtiva, esta preparação baseia-se na consolidação de um cenário económico pautado, de forma basilar, por um ambiente francamente positivo de negócios. Em perfeita sincronia com esta desburocratização, a estratégia do governo engloba a planificação e a execução ininterrupta de grandes investimentos públicos.
Para os analistas financeiros, diretores de expansão corporativa e especialistas em macroeconomia, a união destes vetores comprova que Mato Grosso do Sul compreendeu com extrema clareza as novas regras do jogo do capitalismo nacional. Sem a possibilidade de oferecer isenções fiscais vitalícias, o estado que não possuir rodovias pavimentadas, processos de licenciamento céleres e um parque tecnológico pujante, ficará irremediavelmente para trás na corrida pela industrialização.
A Mecânica da Reforma e o Fim da Guerra Fiscal
Para se apreender a magnitude da estratégia delineada por Mato Grosso do Sul, é imperativo dissecar a própria natureza das mudanças tributárias que se avizinham. A espinha dorsal da nova lei fiscal brasileira estipula a transição do atual e confuso modelo de impostos em cascata para um sistema moderno fundamentado no Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) Dual. A alteração mais severa deste novo paradigma reside na mudança do local de cobrança: o imposto deixará de ser recolhido no estado onde a mercadoria é produzida (origem) para passar a ser recolhido no estado onde a mercadoria é efetivamente consumida (destino).
Esta alteração legislativa dita o fim categórico da chamada “guerra fiscal”. No modelo antigo, Mato Grosso do Sul podia isentar uma fábrica de recolher o Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) na origem, garantindo que o produto saísse das suas fronteiras com um custo incrivelmente competitivo. No novo modelo, como o imposto será pago pelo consumidor final noutro estado ou país, o governo de origem perde a prerrogativa constitucional de conceder esses descontos de forma unilateral e desregulada.
Ao perderem o trunfo do desconto nos impostos, os estados exportadores (com pequena população consumidora e imensa produção agrícola e industrial, como é o caso de Mato Grosso do Sul) enfrentam o risco de uma retração acentuada na atração de capital. É neste exato momento de viragem que o fortalecimento antecipado de um ambiente positivo de negócios adquire uma importância de sobrevivência económica e de soberania financeira.
A Infraestrutura como a Nova Moeda de Atração
A questão impõe-se de forma direta nas reuniões dos conselhos de administração: se todas as regiões passarem a possuir, em termos práticos, a mesma carga tributária nacional padronizada, o que motivará uma multinacional a instalar a sua nova unidade de processamento de celulose ou o seu frigorífico de alta tecnologia em Mato Grosso do Sul em detrimento de outro estado? A resposta a esta equação reside na segunda métrica apontada pelos relatórios da agência: a materialização de grandes investimentos públicos.
A infraestrutura pesada converteu-se na única verdadeira vantagem comparativa duradoura e insubstituível. A alocação massiva de recursos governamentais na construção de corredores de transporte tem a capacidade de abater substancialmente os custos operacionais (OPEX) das empresas, anulando a necessidade de isenções fiscais. Quando o tesouro estadual investe de forma musculada no asfaltamento de rotas de escoamento e na manutenção da malha viária, ele reduz os custos associados ao frete, minimiza o desgaste das frotas de camiões, diminui o valor das apólices de seguro de carga e comprime drasticamente o tempo necessário para colocar as safras nos portos de exportação.
Os grandes investimentos públicos englobam igualmente a vertente da transição energética e da segurança de abastecimento. Uma fábrica de fertilizantes ou um complexo siderúrgico não se instalam em territórios que padecem de apagões elétricos recorrentes ou de escassez hídrica. A construção de linhas de transmissão de alta tensão e os incentivos à geração de energia solar fotovoltaica e biomassa são investimentos de caráter existencial para garantir a resiliência produtiva da indústria. Ao assumir a vanguarda e ao bancar com orçamento estatal o risco inicial destas obras colossais, o poder executivo pavimenta — no sentido literal e figurado — o caminho para a instalação rápida e segura do setor privado.
O Ambiente de Negócios e a Redução dos Custos de Transação
Além da argamassa e do asfalto, existe uma barreira invisível que frequentemente afugenta os investidores e impede o crescimento: a excessiva burocracia e a morosidade administrativa. A premissa de estruturar um cenário positivo de negócios foca-se, impreterivelmente, na redução destes “custos de transação” que corroem o fluxo de capital.
No mercado globalizado, o fator tempo possui uma correlação direta com a rentabilidade. O capital retido por um investidor durante meses enquanto aguarda o carimbo de uma licença de operação perde valor face à inflação e gera custos de oportunidade avultados. Para o empresário que pretende atuar no agronegócio de precisão ou na construção de fábricas, um licenciamento ambiental exato, rigoroso na técnica mas previsível no seu cronograma e transparente nos seus requisitos, vale infinitamente mais do que uma mera promessa de desconto futuro de impostos.
A implementação de portais digitais, o uso de inteligência artificial para o cruzamento de dados fiscais (Governo Digital ou GovTech), a centralização do atendimento ao empreendedor num balcão único e a profissionalização extrema dos servidores públicos que efetuam as vistorias técnicas compõem a essência daquilo que se classifica como um ambiente favorável ao desenvolvimento económico. Quando um grupo asiático de processamento de celulose planeia injetar três mil milhões de dólares no estado, a garantia de que não haverá surpresas jurídicas, alterações contratuais abruptas ou embargos injustificados por parte das agências reguladoras atua como a garantia primária para a assinatura do acordo.
O Efeito Multiplicador do Capital Público
Existe um princípio basilar no planeamento económico da doutrina keynesiana: em momentos de incerteza ou de transição estrutural do modelo económico, o gasto qualificado do Governo tem a obrigação de atuar como o indutor primário da iniciativa privada. As aplicações orçamentais estaduais efetuadas em infraestrutura e em fomento tecnológico geram aquilo que se designa por externalidades positivas.
Ao executar pontes intermunicipais, expandir redes de saneamento básico e fortalecer o parque hospitalar regional, o Estado está, implicitamente, a criar condições de habitabilidade para os executivos, engenheiros e trabalhadores altamente especializados que estas indústrias trarão consigo aquando da sua fixação. Nenhum grande polo tecnológico ou vale industrial se sustenta se a região que o alberga não for capaz de reter os seus talentos através do fornecimento de um alto índice de qualidade de vida urbana. A combinação sinérgica entre os investimentos públicos em betão e as políticas públicas focadas no bem-estar comunitário formam o tecido ideal que atrai e amarra definitivamente o investimento estrangeiro direto (IED) ao solo de Mato Grosso do Sul.
Além disso, a injeção contínua deste volume de capital na execução de empreitadas governamentais cria, de imediato, um aumento pujante da taxa de emprego local (pleno emprego no setor da construção civil e engenharias de suporte). Este aumento fulminante da ocupação eleva a massa salarial em circulação na economia do estado, facto que, consequentemente, impulsiona um consumo vigoroso nas empresas do retalho, nos supermercados e nas concessionárias de serviços privados.
A Rota Bioceânica como Emblema Estratégico
Nenhum investimento estatal espelha tão cristalinamente a intenção de transformar a geografia económica da região como o apoio prestado à concretização da Rota Bioceânica. A criação deste corredor logístico internacional converte Mato Grosso do Sul na passagem obrigatória das mercadorias do Centro-Oeste sul-americano para os oceanos e para os portos orientais.
Com o fim dos benefícios fiscais artificiais gerado pelas supracitadas mudanças tributárias federais, o eixo logístico Bioceânico passa a assumir um protagonismo existencial incontestável para a sobrevivência económica da região. Ao encabeçar as articulações fronteiriças com o Paraguai, Bolívia, Argentina e Chile, construindo as estradas periféricas e viabilizando o trânsito aduaneiro rápido, o Governo oferece aos produtores de soja e celulose uma redução na ordem das semanas no tempo de frete marítimo para o continente chinês.
Esta vantagem competitiva e geométrica não pode ser anulada por decretos fiscais emitidos em Brasília ou por legislações de outros estados brasileiros. O investimento pesado neste tipo de logística constitui a única política de estado verdadeiramente irreversível e que assegura que a capital do estado, Campo Grande, e os municípios de fronteira, não sucumbam à mudança da lei, antes prosperem como terminais intermodais permanentes.
Governança Financeira e Soberania Perante a Nova Tributação
A capacidade que um estado detém para proceder a este nível vasto de investimentos provém de uma gestão rigorosa e superavitária do seu Tesouro. A preparação antecipada de Mato Grosso do Sul demonstra a adoção de um modelo de governança financeira de perfil austeramente controlado.
A máquina pública que não se encontre atolada em défices operacionais, que disponha das contas em ordem e que desfrute do nível máximo de notação de crédito (rating “Capacidade de Pagamento – CAPAG A”), tem autorização legal para contratar créditos avultados perante instituições de fomento multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) ou o Banco Mundial. São estes financiamentos que subsidiam as estradas de longo curso, os novos parques solares e as infraestruturas dos vales industriais.
Quando as mudanças tributárias alterarem de modo definitivo o método de repartição do bolo fiscal nacional — favorecendo, pela nova regra, os estados mais populosos, uma vez que o imposto migra para a etapa de consumo —, os estados com base demográfica menor poderão sofrer quebras nas suas previsões orçamentais. No entanto, se o estado estiver perfeitamente munido de rodovias excelentes, aeroportos modernos e portos secos funcionais, a indústria continuará a assentar praça no seu território para produzir, compensando a quebra da arrecadação com a pura explosão do volume físico da produção e o aumento exponencial dos salários pagos.
A Visão Empresarial como Doutrina de Estado
Em resumo, a conjuntura reportada de que Mato Grosso do Sul se encontra em plena fase preparatória para as futuras transformações da lei fiscal desvela uma mentalidade de gestão pragmática e corporativa. Esta fase de transição é o maior teste de stress a que as administrações públicas foram sujeitas na história recente do país.
As premissas da política pública revelam que a manutenção de um clima corporativo sadio, pautado pelo cumprimento estrito dos contratos e por um ambiente positivo na realização de negócios, assume o papel de isca financeira. Simultaneamente, a adoção de vultuosos e estratégicos grandes investimentos públicos atua como o garante técnico incontestável para as holdings e joint ventures globais que calculam, ao cêntimo, os seus planos de expansão para a América Latina.
Mato Grosso do Sul sinaliza que não vai observar a mudança do cenário tributário com passividade. Pelo contrário, está empenhado em construir os pilares de betão, as pontes jurídicas e a estrutura logística indispensáveis para que o estado transite do velho modelo dos paraísos fiscais regionais para o novo arquétipo das potências de eficiência económica globais. Se a nova moeda de atração do século XXI é a segurança jurídica amparada por estradas pavimentadas, o estado prova estar devidamente capitalizado para efetuar a aquisição das maiores fatias do setor produtivo brasileiro.
