Impulsionado pela “locomotiva da celulose” e pela resiliência do agronegócio diante de boicotes internacionais, Mato Grosso do Sul registra o maior faturamento externo de sua história. O crescimento de 7,51% sobre o ano anterior consolida o estado como um player de segurança alimentar e industrial no tabuleiro global.
Por Redação Empreende MS
O ano de 2025 acaba de entrar para os anais da economia sul-mato-grossense como o momento da virada definitiva. Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, protecionismo comercial e reconfiguração das cadeias de suprimentos, Mato Grosso do Sul não apenas resistiu, mas avançou.
Dados oficiais divulgados nesta quarta-feira (07) pela Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), com base no sistema federal ComexStat, confirmam: o estado bateu seu recorde histórico de exportações, atingindo a marca de US$ 10,7 bilhões em vendas externas.
Este resultado supera o pico anterior de 2023 (US$ 10,6 bilhões) e representa um crescimento robusto de 7,51% em relação a 2024. Para o leitor do Empreende MS, este número não é apenas uma estatística macroeconômica; é um indicador de liquidez que irriga toda a cadeia produtiva local, do pequeno prestador de serviços em Ribas do Rio Pardo ao grande operador logístico em Três Lagoas.
Abaixo, dissecamos o relatório da Carta de Conjuntura do Comércio Exterior para entender onde estão as oportunidades e como o estado desenhou essa vitória econômica.
O Novo Rei da Pauta: A Era da Celulose
Se historicamente a soja foi o “petróleo” do Centro-Oeste, 2025 marca a consolidação de uma nova dinastia industrial em Mato Grosso do Sul: a celulose.
O produto assumiu a liderança absoluta da pauta exportadora, respondendo por expressivos 28,98% de tudo o que o estado vendeu para o mundo. Mais do que uma troca de posições no ranking, isso sinaliza uma mudança estrutural na matriz econômica estadual — a passagem de um modelo puramente agrário para um modelo agroindustrial de alto valor agregado.
A liderança da celulose não é acidental. Ela é fruto de uma política de Estado de longo prazo que atraiu bilhões em investimentos privados para a construção de florestas plantadas e fábricas de processamento de classe mundial. Segundo a análise da Semadesc, a perspectiva é de crescimento contínuo para os próximos anos, visto que os “elevados investimentos industriais em curso” (como as novas linhas de produção em Ribas do Rio Pardo) ainda estão em fase de maturação e expansão de capacidade.
Para o empreendedor, a mensagem é clara: a cadeia de florestas plantadas (eucalipto) é hoje o motor mais dinâmico da economia local, demandando serviços de tecnologia, manutenção, transporte e habitação nas regiões de influência.
O Trio de Ferro: Soja e Carne Bovina
Apesar da ascensão da indústria florestal, o agronegócio tradicional mantém sua força titânica. As três grandes cadeias — celulose, soja e carne bovina — formam o tripé que sustenta o superávit estadual.
- Soja (22% de participação): O grão segue como o segundo produto mais exportado. Jaime Verruck, titular da Semadesc, destaca uma característica crucial da soja: a capilaridade. Enquanto a celulose é concentrada, a soja tem sua origem diluída em mais de 60% dos municípios do estado. Isso significa que a riqueza gerada pelo grão é distribuída de forma mais homogênea pelo território, sustentando o comércio e os serviços em dezenas de pequenas e médias cidades.
- Carne Bovina (17% de participação): O terceiro lugar no pódio revela a resiliência da pecuária sul-mato-grossense. Em 2025, o setor enfrentou um teste de fogo com restrições comerciais severas, mas provou sua competitividade global ao manter quase um quinto da pauta exportadora.
Geopolítica e Resiliência: A “Dança” dos Mercados
Talvez o ponto mais fascinante da análise de 2025 seja a capacidade de adaptação estratégica do estado. O Secretário Jaime Verruck classificou o cenário internacional do ano passado como “adverso”, citando nominalmente as dificuldades impostas pelos Estados Unidos.
O Fator Americano Os EUA, historicamente o segundo maior parceiro comercial do estado, impuseram restrições que impactaram diretamente setores vitais. Verruck detalha que houve “discussões e restrições comerciais importantes” que afetaram a carne bovina, a citricultura, as ferroligas, o café e a laranja.
Para muitos estados, perder espaço no mercado americano seria fatal. Para Mato Grosso do Sul, foi um convite à inovação logística e comercial. “Conseguimos realocar produtos para outros mercados e manter o fluxo normal de produção”, explica o secretário. Um exemplo prático citado foi a própria celulose: diante de barreiras ou desaquecimento em fluxos específicos para a América do Norte, a produção foi redirecionada, garantindo que as fábricas continuassem operando a pleno vapor.
A Hegemonia Chinesa Com a retração ou dificuldade no mercado ocidental, a Ásia consolidou-se ainda mais como o grande cliente de MS. A China absorveu massivos 48,57% de todas as exportações do estado. Essa dependência de quase 50% em um único parceiro comercial é um dado que exige atenção estratégica dos gestores, mas, no curto prazo, garantiu o recorde de faturamento. A fome chinesa por proteínas e fibras (celulose) continua sendo o grande lastro da economia sul-mato-grossense.
A Revolução Geográfica: Ribas do Rio Pardo Ultrapassa Capitais Regionais
A industrialização está redesenhando o mapa político e econômico de Mato Grosso do Sul. A análise por município revela uma mudança tectônica na hierarquia das cidades exportadoras.
- Três Lagoas (O Líder Indiscutível): Mantendo seu título de “Capital Mundial da Celulose”, a cidade concentrou 19,68% do total exportado. A estabilidade de Três Lagoas no topo demonstra a maturidade do seu parque industrial.
- Ribas do Rio Pardo (O Novo Gigante): Esta é a grande novidade de 2025. Impulsionada pela entrada em operação e expansão da atividade florestal e industrial, Ribas do Rio Pardo saltou para o segundo lugar, com cerca de 11% das exportações estaduais.
O dado é chocante para quem acompanha a economia local há décadas: Ribas do Rio Pardo, uma cidade que até pouco tempo era coadjuvante, ultrapassou Dourados e Campo Grande em volume de exportações. Isso ilustra o poder transformador de um megaprojeto industrial. Para Dourados e Campo Grande, fica o desafio de diversificar suas pautas; para Ribas, o desafio de gerir um crescimento explosivo.
Logística: Por Onde a Riqueza Sai
Produzir recordes é inútil se não houver como entregar o produto. O relatório da Semadesc lança luz sobre a infraestrutura logística que permitiu o escoamento desses US$ 10,7 bilhões. O estado operou em um sistema multimodal eficiente:
- Porto de Santos (38%): Continua sendo a principal porta de saída, fortemente alimentado pelo transporte ferroviário (Malha Norte). Isso reforça a importância estratégica das ferrovias para a competitividade do custo-MS.
- Porto de Paranaguá (33%): Principal canal para a soja transportada via rodovia, mostrando que o caminhão ainda é vital para o agro.
- Porto de São Francisco do Sul (12%): Especializado em cargas frigorificadas, é o canal preferencial para as proteínas animais (carnes).
O Renascimento da Hidrovia e o Minério Um destaque especial foi dado à logística fluvial. O secretário Verruck enfatizou que a “manutenção do calado do rio” Paraguai ao longo de 2025 foi decisiva. Graças a essas obras de dragagem e manutenção, o setor mineral pôde operar sem interrupções. O resultado? Recorde de exportação de minério de ferro, superando a barreira de 8 milhões de toneladas. Corumbá, o hub dessa operação, respondeu por cerca de 5% do total exportado pelo estado. Isso prova que, quando a infraestrutura funciona (neste caso, a hidrovia), o setor privado entrega volume.
Importações: O Sinal de Investimento
Analisar apenas o que vendemos conta metade da história. O que compramos (importações) revela como o estado está se preparando para o futuro. Em 2025, Mato Grosso do Sul importou US$ 2,8 bilhões, uma retração de 3,4% em relação ao ano anterior.
O Gás Natural e as Finanças O item número um da pauta de importações continua sendo o gás natural (vindo da Bolívia). Verruck observou uma “contração no volume importado”, fato que impactou negativamente as finanças estaduais (devido à arrecadação de ICMS sobre o gás). Essa queda no volume do gás é um ponto de alerta fiscal para o governo, embora a balança comercial geral seja extremamente positiva.
Importando para Produzir Tirando o gás, o perfil das importações é extremamente saudável para o desenvolvimento. Os destaques foram:
- Máquinas para a indústria de papel e celulose: Isso indica que as fábricas continuam comprando tecnologia para ampliar ou modernizar suas linhas. É “importação de CAPEX” (bens de capital), não de consumo.
- Cobre: Importado para abastecer a indústria de fios consolidada no estado, agregando valor localmente antes da reexportação ou venda interna.
Conclusão: O Saldo do Ano e o Olhar para 2026
Mato Grosso do Sul encerra 2025 com um superávit comercial invejável (a diferença entre os US$ 10,7 bi exportados e os US$ 2,8 bi importados). Esse saldo positivo significa que entraram quase 8 bilhões de dólares líquidos na economia estadual.
A análise do Secretário Jaime Verruck resume o espírito do ano: capacidade de adaptação. Diante do fechamento de portas nos EUA, o estado abriu janelas na Ásia. Diante da queda de preços de commodities, o estado entregou volume e produtos industrializados.
Para 2026, as fundações estão lançadas. Com a infraestrutura logística recebendo atenção (hidrovias e ferrovias), a indústria de celulose em plena expansão em Ribas e Três Lagoas, e o agronegócio capilarizado em 60% dos municípios, o Mato Grosso do Sul deixa de ser uma promessa para ser uma realidade consolidada de prosperidade no Centro-Oeste brasileiro.
O recorde de US$ 10,7 bilhões não é o teto; é o novo piso.
