Com a posse histórica da primeira mulher a chefiar a Embrapa Gado de Corte em mais de cinco décadas, Governo do Estado sinaliza ao mercado que a eficiência competitiva, a ciência de dados e a diversidade institucional são os novos motores para a atração de capital privado no agronegócio.
O agronegócio sul-mato-grossense deixou, de forma definitiva, a fase do extrativismo extensivo para ingressar na era da economia do conhecimento. No mercado global contemporâneo, a rentabilidade de um pasto ou de uma lavoura não é mais medida apenas pelo volume de chuvas, mas sim pelo nível de tecnologia embarcada em cada hectare. Foi exatamente com foco nessa transição produtiva que as lideranças políticas e científicas do estado se reuniram nesta segunda-feira (23), em Campo Grande, para a cerimônia de posse da nova diretoria da Embrapa Gado de Corte.
O evento marcou um alinhamento direto entre a máquina administrativa estadual e o principal polo de pesquisa agropecuária do país. O governador Eduardo Riedel participou do encontro com uma mensagem pragmática voltada ao setor produtivo e aos fundos de investimento: o Governo de Mato Grosso do Sul reafirma seu apoio institucional e estratégico à produção de pesquisa, tecnologia e desenvolvimento aplicado à pecuária.
Para os gestores, empresários e empreendedores que orbitam a cadeia do agronegócio, o posicionamento oficial demonstra que o Estado atua para mitigar o risco tecnológico do produtor. Quando o Executivo trabalha em simbiose com centros de excelência como a Embrapa, a inovação sai mais rápido dos laboratórios e chega com segurança econômica às fazendas, transformando métodos de manejo em margem de lucro e atratividade internacional.
A Ciência como Motor da Eficiência Competitiva
A elaboração de políticas públicas em Mato Grosso do Sul tem operado com uma métrica central do mundo corporativo: a eficiência. Durante a cerimônia, Riedel detalhou como o estado vem estruturando seus pacotes de incentivo econômico, fugindo do modelo tradicional de isenções genéricas para adotar um formato de estímulo atrelado à produtividade e à modernização.
“Temos uma grande missão pela frente que é pensar nos modelos de incentivos, em todas as cadeias produtivas do Estado”, pontuou o governador. A visão estratégica apresentada visa blindar a economia estadual contra oscilações de mercado de uma única commodity. Para isso, o capital de fomento está sendo pulverizado para fortalecer a cadeia de proteínas de forma integral. “Mato Grosso do Sul talvez seja o estado que mais aplique recursos buscando eficiência competitiva, seja no suíno, frango, agricultura, leite, peixe, com o único objetivo de deixar o produtor mais eficiente”, cravou.
No vocabulário econômico, a “eficiência competitiva” mencionada pelo chefe do Executivo traduz-se na capacidade de produzir mais alimento, utilizando menos área, menos recursos hídricos e reduzindo os custos operacionais. É nesse ponto que a Embrapa Gado de Corte — unidade vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) — atua como a engrenagem principal. O desenvolvimento de novos cultivares de pastagem, o melhoramento genético de rebanhos e a implementação de softwares de gestão pecuária são as ferramentas que garantem que o suinocultor, o avicultor e o pecuarista do estado consigam competir de igual para igual (e frequentemente com vantagem de preços) nos mercados asiáticos e europeus.
O Horizonte de 2030 e as Agendas Globais de Capital
O ganho de eficiência no campo está atrelado a um relógio climático rigoroso. Fundos de Venture Capital (Capital de Risco) e grandes compradores institucionais fecharam o cerco contra cadeias produtivas que geram passivos ambientais. Lendo esse cenário, Riedel reiterou um compromisso que baliza a atração de novos negócios para o território: a meta de transformar Mato Grosso do Sul em um estado Carbono Neutro até o ano de 2030.
Para alcançar um balanço onde as emissões de gases de efeito estufa sejam totalmente neutralizadas pela capacidade de absorção do território, a inovação tecnológica no agronegócio é inegociável. Pastagens degradadas emitem carbono; pastagens bem manejadas, integradas a sistemas de lavoura e floresta (ILPF), sequestram carbono, transformando a fazenda em um ativo de finanças verdes.
Esse direcionamento insere o estado diretamente no radar das macrotendências econômicas. “Existem hoje três agendas globais que dizem respeito diretamente a nós, que são a transição energética, a segurança alimentar e a sustentabilidade”, analisou o governador. Essa leitura é o mapa de navegação das economias modernas. O mundo precisa de comida em escala exponencial, mas exige que a produção dessa comida não esgote os recursos naturais e que a energia utilizada no processo seja limpa.
“Mato Grosso do Sul está posicionado no coração delas [das três agendas globais]. O Estado vem se colocando estrategicamente neste lugar em que somos competitivos, atraindo capital privado para gerar oportunidades às pessoas, com emprego e renda”, completou Riedel. A lógica apresentada é cristalina: a ciência fornecida pela Embrapa não atende apenas a propósitos acadêmicos; ela é o lastro de segurança que o investidor privado multinacional exige antes de injetar bilhões de dólares em novas indústrias, frigoríficos de alta tecnologia e usinas de biomassa na região.
O Marco da Diversidade e a Nova Liderança Institucional
Além da reafirmação de metas econômicas, o encontro em Campo Grande registrou uma mudança estrutural na governança corporativa da pesquisa brasileira. A cerimônia oficializou a transmissão de cargo para a nova chefe-geral da Embrapa Gado de Corte, a pesquisadora Mariana de Aragão Pereira.
A posse carrega um peso histórico incontestável: Mariana é a primeira mulher a assumir o comando máximo desta unidade em mais de 50 anos de existência da instituição. Aprovada por meio de um criterioso processo de seleção, a nova presidente assumiu o posto formalmente em 1º de janeiro de 2026, com um mandato estabelecido para os próximos dois anos, passível de renovação por igual período.
Para o ecossistema de negócios modernos, que valoriza intensamente a pluralidade de visões nos conselhos de administração (princípio fundamental da letra “S” do ESG – Governança Social), a ascensão de uma liderança feminina ao topo de uma instituição que dita os rumos da pecuária nacional é um atestado de maturidade gerencial.
Em seu discurso, Mariana de Aragão Pereira demonstrou entender o tamanho da representatividade do momento, mas focou no ganho coletivo para a operação. “Este também é um momento simbólico, pois pela primeira vez uma mulher assume a liderança dessa unidade. Recebo esse fato não como uma conquista individual, mas como um sinal da evolução da própria instituição, que se fortalece sempre quando traz essa diversidade”, avaliou a nova chefe-geral.
A fala da presidente sinaliza uma gestão focada em resultados e na ampliação de espaços por mérito técnico. “Precisamos desta oportunidade para mostrar também que temos muito para contribuir. Assumo esse desafio com profunda gratidão e com um grande senso de responsabilidade”, afirmou, traçando o tom de uma liderança que unirá a pesquisa de base à inovação estratégica nos próximos anos.
O Ecossistema de Inovação Aberta no Agro
A Embrapa Gado de Corte caminha para um momento de celebração de seu legado. Em 2025, a unidade completou exatos 50 anos de história, período no qual se consolidou como a referência máxima, nacional e internacional, no desenvolvimento de pacotes tecnológicos aplicados à pecuária tropical. Sem as pesquisas conduzidas em Campo Grande nas últimas décadas, o Brasil dificilmente teria assumido a posição de maior exportador de carne bovina do mundo.
O Governo do Estado, compreendendo o valor desse patrimônio intelectual, fez questão de prestigiar o evento para reforçar a interdependência entre a administração pública e a pesquisa. “A contribuição da Embrapa é histórica, ela é a base na formação da competitividade da pecuária de corte em nosso Estado e no Brasil”, enalteceu Riedel.
O governador apontou, ainda, o modelo de operação que garante o sucesso contínuo da instituição: a inovação aberta. O conceito de trabalhar isolado nos laboratórios ficou no passado. A tecnologia agropecuária contemporânea exige a formação de polos multifacetados. Riedel destacou que a Embrapa atua “estando na vanguarda do conhecimento, trabalhando em rede com as universidades e empresas, tendo várias ações de produtividade que transformam o futuro da nossa atividade econômica”.
Quando uma instituição federal de pesquisa dialoga de portas abertas com os centros universitários estaduais e entende as dores diárias das empresas privadas locais (startups agro, cooperativas e tradings), o resultado prático é a geração de patentes, metodologias ágeis e sistemas integrados que chegam à prateleira comercial com altíssima taxa de adoção pelo mercado.
Conclusão: O Legado Tecnológico de um Estado Competitivo
A posse da nova diretoria da Embrapa Gado de Corte transcende os muros da instituição e reflete a ambição de Mato Grosso do Sul para o futuro a curto e médio prazo. “Reiteramos neste evento o nosso compromisso com a instituição”, finalizou o governador, assegurando que a parceria entre o Estado e a ciência seguirá como a espinha dorsal do desenvolvimento regional.
A quebra de um paradigma de cinco décadas com a liderança técnica da pesquisadora Mariana de Aragão Pereira injeta novos ares na governança do setor. Em paralelo, a decisão estatal de atrelar seus incentivos fiscais e financeiros à eficiência produtiva das cadeias de suínos, frangos, grãos, peixes e leite cria uma musculatura econômica resistente a crises externas.
Ao ancorar suas ações de Estado nas agendas globais de segurança alimentar, transição energética e sustentabilidade carbônica, Mato Grosso do Sul comprova que a pesquisa agropecuária não é um centro de custos, mas sim o seu principal departamento de geração de receitas. Para as empresas de tecnologia, investidores e produtores rurais, a mensagem consolidada em Campo Grande é uma só: o campo do futuro é movido a dados, eficiência e diversidade, e a aliança para liderar essa nova era já está firmada.
