Com a presença de delegações de 133 países, a conferência promovida pela ONU debate a sobrevivência de espécies migratórias, oficializa a expansão de áreas protegidas no Brasil e coloca a governança climática do Centro-Oeste no centro das discussões multilaterais.
A partir desta segunda-feira (23), o mapa geopolítico e ambiental do planeta tem um novo ponto focal de convergência: a cidade de Campo Grande. A capital sul-mato-grossense assumiu o papel de anfitriã da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens (COP15 CMS). Organizado pelo Governo do Brasil sob a chancela da Organização das Nações Unidas (ONU), o encontro internacional iniciou suas atividades com o lema oficial “Conectando a natureza para sustentar a vida”.
A dimensão do evento reflete a urgência econômica e ecológica do tema. A conferência conseguiu reunir um contingente de aproximadamente 2 mil representantes oficiais enviados por 133 países. Esse público formador de opinião global engloba desde chefes de governos e cientistas de ponta até ambientalistas, lideranças de povos indígenas, representantes de comunidades locais e membros ativos da sociedade civil internacional. O objetivo central do encontro é estabelecer e debater novas estratégias de proteção para as espécies migratórias, concentrando os esforços na preservação estrutural dos habitats que compõem as complexas rotas de deslocamento desses animais ao redor de todo o globo.
Para o leitor focado no desenvolvimento de negócios e na atração de investimentos atrelados aos critérios ESG (Ambiental, Social e Governança), sediar um encontro com esse nível de autoridade multilateral ultrapassa a pauta estritamente biológica. Trata-se de uma oportunidade ímpar de vitrine institucional para o estado, demonstrando como a gestão do território e a preservação de biomas sensíveis operam como ativos econômicos altamente valorizados no mercado internacional.
O Equilíbrio entre Crescimento e Neutralidade de Carbono
O papel estratégico de Mato Grosso do Sul no atual debate climático global foi o ponto de partida do discurso do governador Eduardo Riedel durante a abertura da COP15. Em conversa direta com a imprensa, o chefe do Executivo estadual fez questão de enfatizar o potencial do Pantanal e a posição do estado como um provedor de respostas estruturais para as exigências que o planeta impõe hoje aos mercados produtores.
A visibilidade do território sul-mato-grossense ganhou tração nas rodadas de negociações. Segundo o governador, o Pantanal já ocupa um assento central nas discussões internacionais, fato evidenciado após uma série de agendas com autoridades e diplomatas estrangeiros. Em diálogos mantidos com representantes do Ministério do Meio Ambiente e embaixadores de diversas nações, o bioma sul-mato-grossense foi consolidado como um verdadeiro polo de atenção global.
Essa atenção é justificada pela matemática da biodiversidade local. Riedel destacou que o estado abriga um dos biomas mais ricos do mundo, funcionando como ponto de parada e rota de passagem para mais de 190 espécies migratórias, além de concentrar cerca de 600 espécies de aves apenas dentro dos limites do Pantanal.
A grande mensagem governamental para o mercado investidor e para o agronegócio, contudo, foi a defesa da coexistência entre a expansão econômica e o respeito ambiental. O governador pontuou que o desenvolvimento sustentável e o crescimento financeiro caminham lado a lado no estado. Apresentar taxas de crescimento econômico na faixa de 5% ou 6% ao ano é um dado altamente relevante para qualquer economia, mas Riedel ponderou que garantir essa expansão enquanto o estado avança rumo à meta de carbono neutro e assegura a proteção da biodiversidade é algo que chama a atenção do capital estrangeiro de forma muito mais significativa.
A Arquitetura das Políticas Públicas de Fomento
Para não ficar apenas no campo do discurso diplomático, a gestão estadual colocou na mesa do evento internacional as iniciativas práticas e financeiras que já estão em fase de execução operacional. O estado comprovou que já possui projetos estruturados de pagamento por serviços ambientais (PSA), um mecanismo moderno que remunera o proprietário rural pelas boas práticas de preservação.
Além do PSA, Riedel citou o apoio financeiro e logístico às brigadas de incêndio e às ações diretas de conservação. No campo institucional, o estado apresentou os avanços do Pacto pelo Pantanal, que engloba melhorias tangíveis em infraestrutura e educação, além de destacar que o Fundo Pantanal já iniciou suas operações formais, compondo um conjunto consistente de ações de proteção. Na esfera legislativa, vale lembrar que o Brasil opera, desde o ano de 2023, sob a regência da Lei do Pantanal, um marco regulatório proposto pelo próprio Governo de Mato Grosso do Sul que fixou as diretrizes rigorosas para a conservação, restauração e exploração ecologicamente sustentável de toda a área do bioma.
A projeção governamental é que a realização da COP consolide, de maneira definitiva, a inserção institucional e científica do estado no competitivo cenário global. A forte presença das universidades locais no evento, estabelecendo laços e firmando parcerias de intercâmbio com instituições do exterior, foi citada como a ponte necessária para conectar a ciência desenvolvida no coração da América do Sul com o resto do mundo.
Governança de Dados e Liderança Climática
A robustez da governança sul-mato-grossense foi endossada por auditorias independentes apresentadas durante a agenda da convenção. Logo após a cerimônia oficial de abertura, o estande do Governo do Estado recebeu a entrega do Anuário Estadual de Políticas Climáticas, um documento analítico extenso elaborado pela organização Centro Brasil no Clima.
O diagnóstico revelado pelo estudo técnico é um diferencial competitivo gigantesco para o ambiente de negócios local: Mato Grosso do Sul foi atestado como o único estado da Federação que cumpre integralmente todos os critérios de governança climática exigidos entre os entes subnacionais.
A trajetória para atingir esse patamar envolveu a elaboração e a implantação formal da Política Estadual de Mudanças Climáticas, bem como a estruturação do Fórum Estadual de Mudanças Climáticas. O estado também promoveu dois encontros estratégicos no ano de 2024 — realizados nos meses de abril e novembro, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e o Governo de Mato Grosso — focados em debater, levantar dados e propor soluções aplicáveis às variações do clima.
O secretário da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Jaime Verruck, detalhou a entrega do eixo de informações do estado, que compilou os principais indicadores socioeconômicos locais. Para o secretário, o maior destaque institucional no relatório foi a formalização da criação do Fundo Clima e do Fundo Clima Pantanal. Verruck reforçou que Mato Grosso do Sul é, atualmente, o único estado brasileiro que possui todas as suas estruturas de defesa ambiental devidamente amparadas e estabelecidas em legislação. Esse amparo legal sinaliza que a máquina estatal está preparada para avançar na análise dos impactos das mudanças climáticas sobre a economia regional e apta a adotar as medidas mitigadoras exigidas pelo cenário. Para a gestão estadual, o anuário funciona como uma base técnica e concreta para avaliar, através de indicadores claros, se as políticas públicas desenhadas estão efetivamente gerando resultados no combate à crise climática.
A Urgência Global e as Ameaças à Infraestrutura
Enquanto o estado anfitrião demonstrou suas fortalezas locais, a pauta da conferência jogou luz sobre a crise severa enfrentada pelos ecossistemas mundiais. A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, Marina Silva, utilizou seu espaço para enfatizar o compromisso nacional com o fortalecimento da cooperação multilateral, lembrando que a realização deste evento, agendado poucos meses após a COP30 do clima, reforça a postura do país perante a diplomacia sustentável.
A escolha do Pantanal como cenário das discussões foi tratada pela ministra com forte simbolismo, descrevendo a região como uma terra de encontros e de rios em transformação, onde múltiplas formas de vida coexistem em equilíbrio. Marina Silva clamou por uma conexão real entre a elaboração de políticas públicas, o rigor da ciência moderna e a sabedoria dos conhecimentos tradicionais para assegurar a preservação do planeta.
Contudo, os dados apresentados pela delegação ministerial revelam um panorama econômico e ambiental altamente crítico. Relatórios analisados na COP15 indicam de forma alarmante que 49% de todas as espécies migratórias avaliadas sofrem atualmente com o declínio de suas populações. O cenário é ainda mais sombrio ao se constatar que 24% dessas espécies já se encontram diretamente ameaçadas de extinção em curto prazo. A degradação contínua dos ecossistemas, o avanço da crise climática e a poluição irrestrita não afetam isoladamente a fauna, mas impactam diretamente o equilíbrio da vida e a segurança alimentar das cadeias de produção humanas. A ministra defendeu que a COP15 precisa gerar avanços concretos para a conectividade ecológica, exigindo coragem para agir de maneira imediata.
Pressões Humanas e as Diretrizes da CMS
A secretária-executiva da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS), Amy Fraenkel, fez eco ao apelo por integração internacional, pontuando que a manutenção da vida depende vitalmente da identificação, proteção e conexão dos habitats em escala intercontinental. Para o mercado de construção civil, logística e infraestrutura, as palavras de Fraenkel servem como um alerta regulatório: a fragmentação dos ecossistemas impulsionada pela atividade humana é apontada como a maior causa de vulnerabilidade e risco de sobrevivência para as populações de fauna silvestre.
O avanço não planejado sobre áreas naturais amplia consideravelmente os conflitos entre humanos e a vida selvagem, fomentando paralelamente o comércio e a caça ilegais. Para organizar a reação a essas pressões, a pauta da CMS conta com mais de 100 pontos na agenda de negociações. Os negociadores internacionais passarão a semana debatendo ameaças de grande impacto para setores industriais, analisando as consequências da mineração em águas profundas, as alterações causadas pelas obras de infraestrutura, os efeitos nocivos da poluição química, sonora e luminosa, e as consequências devastadoras da captura acidental e da destruição de habitats.
Durante as reuniões, a convenção também analisará o avanço de propostas técnicas para incluir um lote de 42 espécies adicionais no tratado de proteção internacional. A lista de expansão contempla animais de forte apelo e simbolismo emblemático, como a hiena-listrada, o tubarão-martelo e a coruja-das-neves.
A CMS, estabelecida em 1979 e ativa como um tratado ambiental das Nações Unidas, conta hoje com a participação de 133 países signatários espalhados pelas Américas Central e do Sul, África, Europa, Ásia e Oceania. O Brasil atua como signatário da convenção desde o ano de 2015. Atualmente, o tratado oferece uma plataforma de proteção para 1.189 espécies globais, um portfólio de conservação que abrange 962 aves, 94 mamíferos terrestres, 64 mamíferos marinhos, 58 espécies de peixes, 10 répteis e conta com apenas um único inseto listado oficialmente em seus anexos: a famosa Borboleta-Monarca (Danaus plexippus).
A Ampliação de Ativos e a Visibilidade do Pantanal
Aproveitando o palco global e a presença de milhares de formadores de decisão, o Governo Federal Brasileiro sinalizou seu comprometimento institucional executando a expansão direta de seu território protegido. Durante o segmento de alto nível da convenção, realizado no domingo (22), o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, anunciou oficialmente a incorporação de mais de 148 mil novos hectares de áreas preservadas ao mapa nacional.
O pacote de ampliação territorial inclui o aumento da área do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense e das terras abrigadas pela Estação Ecológica do Taiamã. Além das expansões, o governo anunciou a criação inédita da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Córregos dos Vales do Norte de Minas. Conduzida pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a medida atua para garantir a conectividade ecológica de espécies, fortalecer a salvaguarda de recursos hídricos fundamentais para a região e promover a valorização econômica e cultural dos modos de vida mantidos pelas comunidades tradicionais locais.
A realização deste encontro colossal no coração do Centro-Oeste brasileiro tem um propósito claro de marketingterritorial. Segundo João Paulo Capobianco, presidente designado da COP15 e atual secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, o Pantanal é um bioma que, apesar de compartilhado entre o Brasil, o Paraguai e a Bolívia — sendo que 70% de sua área brasileira encontra-se em Mato Grosso do Sul —, ainda sofre com o desconhecimento por parte das populações fora do país.
Mesmo figurando como um elo insubstituível para a parada de mais de 190 espécies de aves migratórias e sendo o país de maior biodiversidade abrigando o Pampa, o Cerrado, a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, o Brasil viu na convenção a chance de corrigir esse déficit de imagem. “Queremos aproveitar a presença de grandes autoridades mundiais para conhecer o bioma de perto e colocá-lo em evidência”, frisou Capobianco, delineando o plano estratégico de posicionar o ecossistema sul-mato-grossense na vitrine máxima da sustentabilidade global.
O encerramento programado para a rodada de negociações e painéis técnicos tem o potencial de formatar os novos padrões regulatórios e de conformidade para indústrias, fundos de investimento e governos para as próximas décadas. Para Mato Grosso do Sul, a realização impecável de um evento multilateral desta envergadura atesta que a infraestrutura administrativa, tecnológica e hoteleira da capital está preparada para os negócios do século XXI, provando que é economicamente viável unir o avanço do desenvolvimento regional à proteção integral do capital natural.
