Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE mostra rebanho bovino de 17,9 milhões de cabeças, com queda de 4,3%, enquanto suínos batem recorde, produção de ovos salta 18,3% e valor dos produtos de origem animal e da aquicultura chega a R$ 1,8 bilhão
A pecuária de Mato Grosso do Sul atravessa uma mudança de perfil que os números de 2025 deixam evidente. Enquanto o rebanho bovino, símbolo histórico da economia do Estado, encolheu 4,3% e registrou a segunda queda anual consecutiva, as criações de suínos e aves cresceram, a produção de ovos deu um salto de 18,3% e o valor somado dos produtos de origem animal e da aquicultura alcançou o recorde de R$ 1,8 bilhão, alta de 11,8% sobre 2024. Os dados são da PPM (Pesquisa da Pecuária Municipal) 2025, divulgada pelo IBGE na quarta-feira (30), e foram detalhados em uma série de reportagens do jornal Midiamax.
O retrato combina sinais de vitalidade e de alerta. De um lado, cadeias intensivas e integradas à agroindústria, como suínos e ovos, ganham escala. De outro, atividades como a aquicultura, a produção de leite e a apicultura recuaram, e o rebanho bovino continua em trajetória de redução, embora o Estado siga entre os cinco maiores do país.
Recorde no valor da produção
O valor recorde de R$ 1,8 bilhão se refere ao que a PPM chama de produção de origem animal e aquicultura, ou seja, itens como leite, ovos, mel e pescado, e não inclui a carne bovina, que é medida em outras pesquisas do IBGE. Desse total, os produtos de origem animal somaram R$ 1,5 bilhão, com alta de 11,6% sobre 2024, enquanto a aquicultura respondeu por R$ 256 milhões, com recuo de 13,4%. A combinação revela que o crescimento do valor veio essencialmente das cadeias de ovos e leite, mesmo em um ano de volume menor de leite.
Boi: segunda queda seguida
Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com 17,9 milhões de cabeças de gado bovino, o quinto maior efetivo entre as unidades da Federação. A redução de 4,3% em relação a 2024 configura a segunda retração anual consecutiva do rebanho no Estado.
Corumbá, no Pantanal, manteve o posto de segundo maior rebanho bovino municipal do país, com 2,1 milhões de cabeças. Aquidauana aparece em 11º lugar no ranking nacional, com 845.026 animais, e Ribas do Rio Pardo ocupa a 14ª posição, com 782.275 cabeças. Corumbá também segue com o maior efetivo de equinos do Brasil, com 34.448 animais.
A PPM não detalha as causas da redução, mas o movimento dialoga com transformações já mapeadas no uso do solo sul-mato-grossense. Levantamento do MapBiomas divulgado em setembro mostrou que a área de pastagem no Cerrado do Estado recuou cerca de 1 milhão de hectares entre 2020 e 2025, enquanto agricultura e silvicultura avançaram sobre áreas já abertas. Ribas do Rio Pardo, por exemplo, que segue entre os grandes rebanhos do país, tornou-se também um dos principais polos de florestas plantadas, de acordo com a pesquisa de produção florestal do IBGE.
Além dos bovinos, houve queda nos rebanhos de bubalinos (-2,8%), equinos (-8,9%), ovinos (-3,2%), caprinos (-23,3%) e codornas (-70%).
Suínos em recorde histórico
Na contramão do boi, a suinocultura alcançou em 2025 o maior efetivo de toda a série histórica no Estado: quase 2 milhões de cabeças, crescimento de 5,8% sobre as 1.854.172 cabeças de 2024. Com isso, Mato Grosso do Sul ocupa o 6º lugar entre as unidades da Federação com maiores rebanhos suínos.
Um dado chama atenção, porém: o número de matrizes caiu 5,6%, de 229.073 em 2024 para 216.194 em 2025. Ou seja, o plantel cresceu mesmo com menos fêmeas reprodutoras, indicador que pode refletir ganhos de produtividade nas granjas, embora o IBGE não faça essa análise na divulgação.
Os municípios de destaque concentram-se no Sul do Estado. Glória de Dourados lidera, com 347.889 cabeças, seguida por Jateí, com 246.559, e Dourados, com 231.589. Cinco cidades sul-mato-grossenses estão entre os 50 maiores efetivos suínos do Brasil: Glória de Dourados (8ª posição), Jateí (15ª), Dourados (19ª), São Gabriel do Oeste (31ª) e Brasilândia (42ª). Todas cresceram em relação a 2024, com destaque para Jateí (+14,48%) e Dourados (+13,77%). Glória de Dourados avançou 7,41%, Brasilândia 5,33% e São Gabriel do Oeste 2,47%. No número de matrizes, Jateí lidera no Estado, ao lado de Ivinhema e São Gabriel do Oeste.
O avanço confirma uma cadeia em processo de profissionalização. Na semana passada, suinocultores da cooperativa Copérdia concluíram uma capacitação em gestão da qualidade dentro de um projeto de encadeamento produtivo do Sebrae/MS com a agroindústria Aurora, iniciativa voltada a qualificar fornecedores da indústria.
Aves e ovos em expansão
O efetivo de galináceos também cresceu, 3,96%, passando de 34,2 milhões de cabeças em 2024 para 35,5 milhões em 2025. Mato Grosso do Sul manteve o 11º maior efetivo do país. Desse total, o Estado contabiliza 7,2 milhões de galinhas. Sidrolândia segue com o maior rebanho estadual de galináceos e ocupa a 21ª posição nacional, com 6,7 milhões de cabeças, embora o número seja 5,2% menor que os 7 milhões de 2024.
O desempenho mais expressivo da avicultura, contudo, veio da produção de ovos de galinha. Foram 134,1 milhões de dúzias em 2025, contra 113,4 milhões no ano anterior, um salto de 18,3% que deixou o Estado na 18ª colocação nacional. O valor da produção subiu ainda mais, 26,2%, de R$ 677,7 milhões para R$ 855,2 milhões, tornando os ovos um dos itens de maior peso no valor dos produtos de origem animal do Estado.
Nova Andradina consolidou-se como maior produtor de ovos de Mato Grosso do Sul, com 39,2 milhões de dúzias, desempenho 75,2% superior ao de 2024, quando havia produzido 22,4 milhões. Terenos, na região de Campo Grande, também se destacou, com 31,2 milhões de dúzias.
Leite: menos vacas, mais valor
A produção de leite seguiu o caminho oposto. O efetivo de vacas ordenhadas caiu 2,9%, de 148.676 para 144.342 animais, e a produção recuou 3%, de 272,653 milhões para 264,415 milhões de litros. Com esse volume, Mato Grosso do Sul ocupa a 21ª posição nacional, distante de Minas Gerais, que lidera com 10,1 bilhões de litros, e do Paraná, com 4,8 bilhões.
Apesar do volume menor, o valor gerado pela atividade cresceu 2,4% e chegou a R$ 670,6 milhões, o que indica preços mais altos pagos ao produtor. Itaquiraí mantém a liderança estadual, com 34,9 milhões de litros e 15.556 vacas ordenhadas, número 25,8% maior que o de 2024. Bataguassu subiu para o segundo lugar em vacas ordenhadas, com 7.157 animais, e Paranaíba caiu para o terceiro, com 7.095.
Peixe e mel em queda
A aquicultura foi um dos pontos fracos de 2025. Os itens do setor contribuíram com R$ 256 milhões para o valor da produção animal do Estado, queda de 13,4%. A produção de peixes somou 20,1 mil toneladas, recuo de 9,3% em relação às 22,2 mil toneladas de 2024, e deixou Mato Grosso do Sul na 13ª posição nacional.
O resultado contrasta com o cenário brasileiro: 22 das 27 unidades da Federação ampliaram a produção aquícola no período, e Mato Grosso do Sul registrou a segunda maior retração do país, atrás apenas do Amazonas, que caiu 20%. A série histórica mostra que o Estado vem perdendo volume desde 2022, quando atingiu o pico de 29,1 mil toneladas. Selvíria lidera a produção estadual, com 7,9 mil toneladas, seguida por Dourados, com 5 mil, Mundo Novo, com 3,3 mil, Aparecida do Taboado, com 2,4 mil, e Itaporã, com 1,8 mil.
A apicultura também recuou. Foram produzidos 732.047 quilos de mel, 4,5% abaixo dos 766.805 quilos de 2024, e o valor da produção caiu 3,6%, para cerca de R$ 14 milhões. O recorde estadual da série ocorreu em 2017, com 1,2 mil toneladas. Mesmo assim, o Estado segue entre os 15 maiores produtores de mel do país. Três Lagoas lidera, com 130.653 quilos, e Dourados deu um salto de 117,3%, passando da 10ª para a 4ª posição estadual, com 35.750 quilos. Jardim caiu da 3ª para a 6ª colocação, com redução de 19,4%.
O que os números indicam
O conjunto de dados sugere que a pecuária sul-mato-grossense caminha para uma composição mais diversificada, em que cadeias intensivas e integradas à indústria, como suínos, frangos e ovos, ganham participação, enquanto atividades mais extensivas ou dependentes de pequenos produtores enfrentam dificuldades. O recorde de R$ 1,8 bilhão nos produtos de origem animal e na aquicultura, puxado principalmente por ovos e leite, mostra que há espaço para geração de valor mesmo com rebanhos menores em algumas atividades.
Para o planejamento público e privado, os resultados apontam desafios distintos. Na bovinocultura, o acompanhamento da redução do rebanho em meio à expansão da agricultura e das florestas plantadas será essencial para entender o futuro da cadeia da carne no Estado. Na piscicultura, a sequência de quedas desde 2022 num cenário nacional de crescimento acende um sinal de alerta sobre a competitividade da atividade. Já nos suínos e nos ovos, o desafio é sustentar o crescimento com infraestrutura, sanidade e acesso a mercados.
Fontes: Midiamax – Pecuária de MS bate recorde de R$ 1,8 bilhão, mas rebanho bovino cai pelo 2º ano consecutivo; Midiamax – Produção suína bate recorde histórico em MS; Midiamax – MS registra queda na produção de peixes, mel e leite em 2025; Campo Grande News – Pastagens cedem espaço a agricultura e eucalipto no Cerrado de MS.
