O espaço chancelado pelo Parktec CG esgota seus estandes e atrai polos tecnológicos de outros estados, comprovando que a eficiência competitiva no setor primário não depende mais apenas do clima, mas da capacidade de processamento de informações e da adoção de softwares de rastreabilidade.
O agronegócio brasileiro passa por uma reconfiguração profunda de sua matriz de custos e de processos produtivos. O produtor rural contemporâneo que frequenta as grandes feiras agropecuárias não busca apenas genética animal ou maquinário pesado; a demanda prioritária atual é por eficiência de gestão e previsibilidade de caixa. A materialização dessa nova urgência econômica ocorre de maneira explícita durante a Expogrande 2026.
Nas dependências do Parque de Exposições Laucídio Coelho, em Campo Grande, o tradicional modelo de negócios focado na comercialização física de animais abriu espaço para um hub de inovação. O Pavilhão Tecnológico da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul) tornou-se a grande âncora corporativa do evento. Organizado com a participação estrutural do Parque Tecnológico e de Inovação de Campo Grande (Parktec CG), o espaço reuniu startups e empresas de base tecnológica que atuam diretamente na intersecção entre a produtividade rural e o desenvolvimento econômico digital.
A proposta do chamado “Pavilhão Tech” obedece a uma lógica pragmática: aproximar quem produz no campo das ferramentas modernas capazes de otimizar, de forma mensurável, os resultados das safras e dos abates. As soluções apresentadas no espaço não são teóricas; elas englobam sistemas de gestão financeira, painéis de inteligência de dados, estruturas de monitoramento climático via satélite, plataformas de automação e softwares focados em garantir a conformidade ambiental e a sustentabilidade exigida pelos fundos de investimento ESG. A meta do ecossistema é uma só: tornar a produção sul-mato-grossense blindada contra desperdícios e altamente competitiva em nível global.
O Papel do Estado como Indutor da Inovação Aberta
A estruturação de um espaço tecnológico dentro de uma feira historicamente conservadora demonstra um amadurecimento na gestão pública da capital. O poder público atua como o avalista institucional dessa transição para a economia do conhecimento.
A prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes, utilizou o espaço do evento para ressaltar o direcionamento econômico que a cidade tem adotado para atrair talentos e capital de risco (Venture Capital).
“Estamos mostrando a força das startups e das pequenas empresas que fazem parte do nosso Parque Tecnológico, o primeiro de Mato Grosso do Sul”, enfatizou a prefeita.
A presença dessas empresas de software (AgTechs) não foi tratada apenas como uma exposição comercial temporária, mas como um indicador de infraestrutura intelectual da cidade. “É a inovação sendo aplicada na prática, contribuindo diretamente para o desenvolvimento da nossa Capital. Este espaço é uma oportunidade de troca, de conexão e de apresentação de tudo o que Campo Grande tem de potencial”, atestou a gestora municipal.
Quando a Prefeitura chancela a inovação aplicada ao agronegócio, ela sinaliza aos investidores e aos produtores de outros estados que Campo Grande possui a governança necessária para sediar polos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), reduzindo a dependência de tecnologia importada ou desenvolvida no eixo Sul-Sudeste.
A Matemática da Lotação Máxima e a Gestão de Ativos
Do ponto de vista comercial e de feiras de negócios, o Pavilhão Tech foi um sucesso matemático absoluto, comprovando que a dor do produtor rural por tecnologia é urgente. A diretora do Parktec CG, Adriana Tozzetti, confirmou que a demanda por parte das empresas de tecnologia superou a oferta de metros quadrados disponíveis no evento.
“Tivemos 100% dos espaços preenchidos”, celebrou Tozzetti. Para contornar a limitação física de estandes e democratizar a vitrine para um número maior de empreendedores, a direção do parque tecnológico adotou uma tática engenhosa de alocação de ativos: a rotação de empresas. A organização estabeleceu “dois ciclos de participação, com empresas entrando e saindo ao longo da programação, o que garante uma grande diversidade de soluções”. Essa modelagem inteligente assegurou que o visitante da feira tivesse contato com um portfólio vasto de soluções diferentes dependendo do dia da sua visita, enquanto projeta-se uma área consideravelmente maior para o ciclo do ano seguinte.
O foco do pavilhão, segundo a diretora do Parktec CG, fugiu de demonstrações puramente acadêmicas para mirar exclusivamente em problemas de balanço financeiro. “Quem chega aqui encontra soluções para produzir mais, gastando menos e tomando decisões mais inteligentes, com base em dados”, resumiu Tozzetti. A prateleira de serviços não se limitou às grandes commodities, alcançando um raio de ação transversal. O evento entregou “tecnologias para pecuária, agricultura, florestas, pequenos produtores e até ferramentas que utilizam satélites e análise climática”.
O uso de análise climática preditiva, em particular, é o seguro de vida do produtor moderno. Com a instabilidade acentuada dos regimes de chuvas, investir em uma safra baseada apenas no calendário tradicional é um risco que os bancos não estão mais dispostos a financiar. Modelos de satélite e dados de solo substituem a intuição por evidências, protegendo a margem de lucro.
Biometria Bovina: O Adeus aos Brincos de Marcação
A busca por eficiência encontrou no Pavilhão Tech o seu ápice em uma inovação que ataca diretamente um dos processos mais custosos, ineficientes e dolorosos da pecuária de corte: a identificação individual de animais.
Entre dezenas de soluções apresentadas, o destaque corporativo da feira foi a tecnologia QR Cattle, descrita como um sistema inédito no mercado nacional. O software propõe a substituição dos métodos analógicos por biometria profunda, permitindo a identificação precisa do gado bovino através da leitura visual do focinho do animal. A tecnologia opera baseada no fato biológico de que o focinho atua como uma espécie de impressão digital animal, um padrão de sulcos absolutamente único e irrepetível para cada indivíduo do rebanho.
A operação da tecnologia democratiza o acesso a dados de alta complexidade. Com o uso exclusivo de um smartphonecomum, o pecuarista ou o veterinário responsável consegue acessar de forma imediata todo o histórico de vacinas, pesagem, origem genética e movimentação de cada animal.
O impacto dessa inovação na rentabilidade da fazenda é estrutural. A biometria via smartphone garante “rastreabilidade sem a necessidade de brincos ou outros dispositivos” de fixação. O mercado pecuário gasta milhões anualmente com brincos de plástico, bottons de radiofrequência (RFID) ou ferro quente. Os dispositivos físicos, além de causarem estresse animal — fator penalizado pelas novas normas europeias de bem-estar animal —, são frequentemente perdidos ou arrancados nas pastagens, quebrando a cadeia de rastreabilidade. A perda do histórico de um animal inviabiliza a sua venda para mercados que pagam prêmios em dólar ou euro por carne certificada. A solução QR Cattle elimina o custo logístico do hardware e fixa a garantia de origem na nuvem, uma resposta perfeita às exigências alfandegárias internacionais.
A Atração de Competidores: O Intercâmbio de Inovação Aberta
A força de gravidade de um ecossistema de inovação é medida pela sua capacidade de atrair competidores e parceiros de outras jurisdições econômicas. O Pavilhão Tech da Expogrande não se limitou aos talentos sul-mato-grossenses; o espaço atraiu a atenção de instituições e startups de fora do Estado.
A presença oficial do Parque Tecnológico de Maringá, do Paraná, atesta o intercâmbio de capital intelectual e a abertura de mercado. A diretora da instituição paranaense, Ana Paula Freitas, confirmou a aposta no cenário de Mato Grosso do Sul. “Trouxemos nove empresas focadas em tecnologia para o agro, tanto para pecuária quanto agricultura”, detalhou a executiva.
A executiva do Paraná pontuou, ainda, que o modelo executado em Campo Grande desponta como vanguarda na integração setorial. “Esse modelo de pavilhão tecnológico dentro de uma feira agropecuária ainda é novidade, inclusive para nós. É uma oportunidade importante de expansão de mercado e de conexão com produtores que vivem essa realidade no dia a dia”, analisou Freitas.
A importação de soluções do Sul do país não é encarada como concorrência predatória, mas como um movimento de “Inovação Aberta”. As startups paranaenses necessitam do vasto território e da escala produtiva do Centro-Oeste para validarem seus produtos e tracionarem seus faturamentos. Em contrapartida, Mato Grosso do Sul importa metodologias de desenvolvimento e acelera a adoção de softwares por seus fazendeiros.
Ana Paula Freitas ressaltou que a comitiva de Maringá pousou na feira com o objetivo deliberado de fomentar colaborações científicas. “As nossas empresas vieram para somar com as pesquisas desenvolvidas aqui, tanto na universidade federal quanto na estadual. Essa troca fortalece o desenvolvimento tecnológico e amplia as possibilidades de inovação no agro”, encerrou a diretora.
O cruzamento entre as universidades locais, a iniciativa privada de fomento gerida pelo Parktec CG e a presença dos maiores criadores e agricultores da região prova que a economia do Centro-Oeste já não se sustenta apenas na força da sua terra, mas na capacidade de processar, analisar e monetizar os dados que brotam dela. A Expogrande de 2026 marca, definitivamente, o momento em que a inteligência artificial e os algoritmos assumiram o mesmo nível de importância que os tratores na garantia da rentabilidade rural.
