Após um ciclo histórico de projeção nacional sob a gestão de Márcio Pereira, a principal agência de fomento à pesquisa de MS inicia 2026 sob nova liderança. O perfil técnico-científico do novo diretor-presidente, vindo da elite da biotecnologia e com DNA da Fiocruz, sinaliza um alinhamento direto com as metas de desenvolvimento sustentável do Governo do Estado.
Por Redação Empreende MS
O ano de 2026 começa com uma alteração tectônica na estrutura de governança da ciência e tecnologia em Mato Grosso do Sul. Desde o dia 1º de janeiro, a Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul) está sob nova direção.
O Professor Dr. Cristiano Marcelo Espínola Carvalho, nome de peso na academia e ex-Pró-Reitor de Pesquisa da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), assumiu a presidência da fundação para o triênio 2026-2028. A nomeação, assinada pelo governador Eduardo Riedel, encerra o ciclo de gestão do professor Márcio de Araújo Pereira e abre um novo capítulo focado na consolidação da pesquisa como vetor de desenvolvimento econômico.
Para o leitor do Empreende MS — fundadores de startups, gestores de inovação e investidores —, essa troca de cadeira não é um mero ato burocrático. Ela define quem terá a caneta para decidir os rumos de editais milionários que financiam desde bolsas de mestrado até o desenvolvimento de novos produtos biotecnológicos para o agronegócio.
A seguir, realizamos um “Raio-X” completo dessa transição, analisando o perfil do novo gestor, o legado deixado e o que o mercado pode esperar dos próximos três anos.
O Perfil do Novo CEO da Ciência
Quem é Cristiano Carvalho? Diferente de gestores com perfil puramente político, Carvalho traz para a mesa um currículo “hard science” (ciência dura).
Graduado em Medicina Veterinária, sua formação de base foi forjada em uma das instituições mais rigorosas do país: a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio de Janeiro, onde concluiu tanto seu mestrado (2001) quanto seu doutorado (2006) em Biologia Celular e Molecular.
Para o ecossistema de negócios, esse background é um sinal vital. Mato Grosso do Sul tem se posicionado como um futuro polo de Bioeconomia. Ter um biólogo molecular e veterinário no comando da agência de fomento sugere uma sensibilidade maior para projetos que envolvam genética, novos fármacos, bioinsumos para o agro e soluções de saúde única (One Health).
Trajetória de Gestão e Resultados Carvalho não é apenas um cientista de bancada. Sua carreira na UCDB, iniciada em 2006, foi marcada por uma ascensão constante em cargos de gestão executiva universitária:
- Coordenação de Pós-Graduação: Liderou programas de Mestrado e Doutorado em Biotecnologia, formando a mão de obra ultra qualificada que hoje atua nas empresas do estado.
- Articulação em Rede: Entre 2012 e 2017, foi coordenador estadual da Rede Pró-Centro-Oeste, gerindo colaborações complexas entre múltiplas instituições.
- O Case do INCT: Talvez o maior “cartão de visitas” de sua gestão como Pró-Reitor (cargo que assumiu em 2018) tenha sido a conquista do Bioinspr. Sob sua liderança, a UCDB tornou-se a primeira instituição de Mato Grosso do Sul a sediar um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT).
Para o empreendedor, isso demonstra capacidade de captação de recursos federais e habilidade para estruturar projetos de grande envergadura. O INCT não é apenas um laboratório; é um hub que conecta pesquisa de ponta com demandas reais da indústria.
O Processo de Escolha: Governança e Meritocracia
É importante destacar a maturidade institucional do processo que levou Cristiano Carvalho ao cargo. Sua escolha não foi uma nomeação “top-down” (de cima para baixo) arbitrária.
O processo seguiu um rito de governança corporativa pública:
- Edital Público: A vaga foi aberta para concorrência via edital, garantindo transparência.
- Lista Tríplice: O Conselho Superior da Fundect avaliou os candidatos habilitados e formou uma lista tríplice.
- Apoio Institucional: O nome de Carvalho contou com o respaldo do CRIE-MS (Conselho de Reitores das Instituições de Ensino Superior de MS), o que lhe garante legitimidade política junto às universidades (UFMS, UEMS, UFGD, IFMS, Unigran, etc.).
Ao assumir, Carvalho fez questão de reforçar esse caráter colaborativo: “Acredito que a ciência avança quando unimos esforços em prol do bem comum. São mais de 25 anos de trabalho pela ciência e este é o momento de usar essa experiência para fortalecer ainda mais a pesquisa e a inovação em nosso Estado”, declarou.
O Legado de Márcio Pereira: A Barra Elevada
A missão de Cristiano Carvalho não será simples, pois ele sucede uma gestão que colocou Mato Grosso do Sul no mapa nacional da inovação. O professor Márcio de Araújo Pereira, que deixou o cargo em 31 de dezembro de 2025, entregou resultados expressivos.
Durante seu período à frente da fundação, Pereira não apenas aumentou o volume de investimentos, mas também projetou politicamente o estado ao ser eleito presidente do Confap (Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa). Foi a primeira vez na história que um sul-mato-grossense liderou todas as 27 fundações de pesquisa do Brasil.
Sob a gestão anterior, a Fundect:
- Ampliou editais voltados para startups (como o Centelha e o Tecnova);
- Aproximou-se do setor produtivo através de parcerias com o Sistema S (Sebrae, Senai);
- Participou ativamente de discussões globais sobre mudanças climáticas e descarbonização.
A transição, no entanto, foi desenhada para ser suave e contínua. Márcio Pereira segue sua trajetória acadêmica, tendo passado o bastão da presidência do Confap para o professor Marcel do Nascimento Botelho (do Pará), enquanto Carvalho assume a operação local com a “casa arrumada” e caixa para investir.
Análise Estratégica: O Que Muda para o Empreendedor?
Com a mudança de comando, o Empreende MS projeta três eixos que devem ganhar força na nova gestão, baseando-se no perfil do novo presidente e nas diretrizes do Governo Riedel:
1. A Era das Deep Techs e Biotecnologia Com um presidente oriundo da Biologia Molecular e com histórico no INCT de Biotecnologia, é natural esperar um olhar mais atento para as Deep Techs — startups baseadas em ciência profunda. Empreendedores que desenvolvem soluções complexas (novos materiais, genética, fármacos) podem encontrar na Fundect um interlocutor mais técnico e preparado para entender os longos ciclos de maturação desses negócios.
2. Formação de Talentos para a Indústria A experiência de Carvalho como coordenador de pós-graduação sugere uma gestão preocupada com o “gap” de talentos. Podemos esperar editais focados não apenas na pesquisa acadêmica pura, mas na inserção de mestres e doutores dentro das empresas (bolsas de desenvolvimento tecnológico industrial), uma demanda antiga da Federação das Indústrias (Fiems).
3. Internacionalização da Ciência Estadual A trajetória acadêmica do novo gestor, acostumado com publicações e parcerias de nível internacional (típico da cultura Fiocruz), deve acelerar a internacionalização da pesquisa de MS. Isso abre portas para startups locais acessarem fundos e parceiros globais, especialmente no contexto da Rota Bioceânica, que exige soluções logísticas e sanitárias integradas com os países vizinhos.
O Desafio do Orçamento e a Responsabilidade Fiscal
Gerir a Fundect envolve administrar um orçamento que cresceu substancialmente nos últimos anos, fruto da vinculação constitucional de receitas do estado. O desafio de Carvalho será manter a eficiência na execução desses recursos (fazer o dinheiro chegar na ponta) sem perder o rigor técnico.
Além disso, ele assume em um momento onde o Governo do Estado persegue metas ambiciosas de “Carbono Neutro 2030”. A ciência será a ferramenta principal para certificar, monitorar e validar as práticas sustentáveis do agronegócio sul-mato-grossense. A Fundect será o órgão validador das tecnologias que permitirão ao estado vender soja e carne com prêmio “verde” no mercado internacional.
Conclusão: Continuidade com Evolução
A chegada do Professor Cristiano Carvalho à presidência da Fundect é uma boa notícia para o ecossistema. Ela representa a vitória da competência técnica e a continuidade de uma política de Estado que vê na inovação o único caminho possível para o desenvolvimento.
Para o empresário de inovação, a recomendação é clara: mantenha o radar ligado. Os próximos editais a serem lançados sob a assinatura de Carvalho trarão, inevitavelmente, o DNA de sua formação — rigor científico, foco em biotecnologia e busca por resultados mensuráveis. Se 2025 foi o ano da projeção política da ciência de MS, 2026 promete ser o ano da densidade técnica e da aplicação prática do conhecimento.
