PNAD Contínua do IBGE mostra que Mato Grosso do Sul tinha 307 mil trabalhadores por conta própria em 2025, mas apenas 95 mil com registro de pessoa jurídica; entre empregadores, formalização chega a 81,2%, e o Estado lidera o país em ocupados que trabalham dentro de veículos
Mato Grosso do Sul ganhou mais trabalhadores por conta própria em 2025, mas a fatia deles que tem empresa formalmente aberta encolheu. Segundo o módulo de Características Adicionais do Mercado de Trabalho da PNAD Contínua, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta quarta-feira (23), o Estado somava 307 mil pessoas trabalhando por conta própria no ano passado, das quais 95 mil, ou 30,8%, possuíam CNPJ. Em 2024, eram 295 mil autônomos e 94 mil com registro, o equivalente a 32,1%. O número absoluto de formalizados subiu, mas a proporção recuou 1,3 ponto percentual, porque o contingente de quem trabalha por conta própria cresceu mais rápido que a formalização.
O dado ajuda a dimensionar um desafio conhecido de quem atua no ecossistema empreendedor sul-mato-grossense: a distância entre empreender e ter um negócio regularizado. Sem CNPJ, o trabalhador autônomo fica fora de uma série de instrumentos que dependem do registro, da emissão de nota fiscal à conta bancária empresarial, passando pelo acesso a linhas de crédito voltadas a pequenos negócios e pela possibilidade de vender para empresas e para o poder público.
Formalização mais que dobrou desde 2012, mas ainda não chega a um terço
Apesar do recuo no último ano, a série histórica mostra um avanço de longo prazo. Em 2012, primeiro ano da pesquisa, Mato Grosso do Sul tinha 224 mil trabalhadores por conta própria, e apenas 32 mil deles, ou 14,3%, contavam com CNPJ. O percentual foi crescendo ao longo dos anos até atingir o pico de 32,1% em 2024, antes de voltar para 30,8% em 2025.
Na prática, a proporção de autônomos formalizados no Estado mais que dobrou em 13 anos. Ainda assim, cerca de sete em cada dez sul-mato-grossenses que trabalham por conta própria seguem sem registro empresarial, um retrato de que a informalidade continua sendo a regra, e não a exceção, nesse grupo de trabalhadores.
Na comparação com as demais unidades da Federação, Mato Grosso do Sul aparece com o sétimo maior percentual de trabalhadores por conta própria com CNPJ do país. Santa Catarina lidera o ranking, com 41,4%, seguida por São Paulo, com 39,4%. No extremo oposto está o Pará, onde apenas 6,6% dos autônomos tinham registro em 2025.
O quadro estadual acompanha, com números um pouco acima da média, o movimento nacional. No Brasil, segundo a mesma pesquisa, 7,1 milhões de trabalhadores atuavam por conta própria com CNPJ em 2025, o maior contingente da série histórica. O grupo representa 27,1% dos 26,1 milhões de autônomos do país. Em 2012, a proporção nacional era de 15%.
Diferença entre homens e mulheres é pequena entre autônomos
Entre os trabalhadores por conta própria de Mato Grosso do Sul, a diferença de formalização por sexo é reduzida. Dos 307 mil autônomos, 193 mil eram homens, dos quais 31,2% tinham CNPJ. As mulheres somavam 114 mil, e 30% delas possuíam registro. A distância entre os dois grupos ficou em 1,2 ponto percentual.
O cenário muda quando se observa quem emprega outras pessoas. Nesse grupo, a diferença entre homens e mulheres se amplia, e a formalização, de modo geral, é muito mais alta, o que indica que o registro empresarial tende a acompanhar o crescimento do negócio.
Entre empregadores, 81,2% atuam em empreendimentos com CNPJ
Em 2025, Mato Grosso do Sul tinha cerca de 81 mil empregadores, dos quais 66 mil exerciam a atividade em empreendimentos com CNPJ. Isso significa que 81,2% estavam vinculados a negócios registrados, enquanto 18,8% não tinham registro. O resultado representa alta de 2,2 pontos percentuais em relação a 2024, quando o índice era de 79%.
É o segundo maior percentual da série iniciada em 2012. O recorde foi registrado em 2023, quando 83,4% dos empregadores atuavam em empreendimentos formalizados. No início da série, o índice era de 76,3%, e o ponto mais baixo ocorreu em 2019, com 66,5%.
No ranking nacional desse indicador, Mato Grosso do Sul ficou na oitava posição em 2025. Santa Catarina teve o maior percentual, de 94,2%, seguida por São Paulo, com 92,2%. O Pará registrou o menor índice, com 49,1%.
Entre os empregadores sul-mato-grossenses, 59 mil eram homens e 22 mil, mulheres. Entre eles, 82,8% estavam em empreendimentos com CNPJ; entre elas, 76,6%, uma diferença de 6,2 pontos percentuais. A distância entre empregadores e trabalhadores por conta própria, por sua vez, chegou a 50,4 pontos percentuais em 2025, a maior evidência de que a formalização ainda está concentrada em quem já conseguiu dar escala ao próprio negócio.
Escolaridade e MEI explicam parte do avanço
Para o IBGE, a formalização entre autônomos está diretamente ligada ao nível de instrução. No recorte nacional, 50,8% dos trabalhadores por conta própria com ensino superior completo tinham CNPJ em 2025. Entre aqueles sem instrução ou com ensino fundamental incompleto, o percentual caía para apenas 11%.
O analista do IBGE William Kratochwill atribui a diferença ao perfil de atuação: profissionais mais escolarizados costumam trabalhar em áreas de prestação de serviços e têm maior acesso aos mecanismos de formalização. “Quanto mais instrução a pessoa tem, mais preparada está para o mercado”, afirmou o pesquisador, segundo o Campo Grande News.
Outro fator apontado para o crescimento dos formalizados é a expansão do MEI (Microempreendedor Individual), modalidade criada em 2008 para simplificar a regularização de pequenos negócios. De acordo com Kratochwill, o modelo permite ao trabalhador ter uma empresa registrada, emitir documentos fiscais, abrir conta bancária empresarial e receber pagamentos de maneira formal.
CNPJ não é sinônimo de pejotização
O avanço do número de trabalhadores com CNPJ costuma ser associado ao debate sobre a chamada pejotização, quando profissionais passam a prestar serviços como pessoa jurídica em vez de serem contratados com carteira assinada. O IBGE, no entanto, faz uma ressalva importante: o indicador da PNAD mede apenas se empregadores e autônomos possuem registro no CNPJ. Ele não identifica diretamente situações de pejotização nem permite concluir, sozinho, que uma relação de trabalho tenha sido convertida em contratação de pessoa jurídica.
Ainda assim, o tema divide opiniões. De um lado, o registro como pessoa jurídica pode ampliar oportunidades para quem deseja atuar de forma independente. De outro, gera discussões sobre a perda de direitos garantidos pela CLT, como férias remuneradas, 13º salário e FGTS. O Ministério do Trabalho e Emprego tem manifestado preocupação com o uso do MEI como substituto de empregos formais, sob o argumento de que a migração irregular pode reduzir contribuições destinadas à Previdência Social e a outros fundos.
MS lidera o país em trabalho exercido dentro de veículos
A pesquisa também investigou o local em que as pessoas exercem o trabalho principal, e um dado chama atenção em Mato Grosso do Sul. Dos 1,145 milhão de ocupados com 14 anos ou mais no Estado em 2025, 90 mil, ou 7,9%, tinham um veículo automotor como local de trabalho. É o maior percentual entre todas as unidades da Federação. Pernambuco aparece em seguida, com 7,6%, enquanto Rondônia registra o menor índice, de 3%.
O crescimento é expressivo ao longo da série: em 2012, eram 33 mil pessoas trabalhando em veículos no Estado, ou 3,7% dos ocupados. A categoria inclui, entre outros, motoristas e entregadores de aplicativo, mas o IBGE ressalta que o levantamento identifica o local de exercício do trabalho e não permite afirmar que todos os 90 mil estejam ligados a essas atividades.
A maior parte dos ocupados sul-mato-grossenses, 627 mil pessoas (54,7%), trabalhava em estabelecimento do próprio empreendimento. Outras 181 mil (15,8%) atuavam em local designado pelo empregador, patrão ou freguês, e 144 mil (12,6%) trabalhavam em fazendas, sítios, granjas, chácaras ou locais semelhantes, reflexo do peso do agronegócio na economia do Estado.
Sindicatos encolhem, cooperativas voltam a crescer
O mesmo levantamento revelou mudanças na forma como os trabalhadores de Mato Grosso do Sul se organizam. O número de ocupados associados a sindicatos caiu de 170 mil em 2012 para 88 mil em 2025, uma redução de 82 mil pessoas, ou 48,2%. A taxa de sindicalização passou de 14,5% para 6% dos ocupados no período.
Em sentido oposto, a participação de empregadores e trabalhadores por conta própria associados a cooperativas de trabalho ou de produção voltou a subir depois de dois anos de estabilidade. Em 2025, 19 mil das 389 mil pessoas nessa condição estavam ligadas a cooperativas, o equivalente a 4,8%, ante 4,2% em 2024. O índice ainda está abaixo dos 5,9% de 2012, mas coloca o Estado na 10ª posição nacional, em um ranking liderado pelo Rio Grande do Sul, com 8,7%, e por Santa Catarina, com 7,8%.
O que os números indicam para o ecossistema empreendedor
Lidos em conjunto, os dados desenham um mercado de trabalho em que o empreendedorismo por conta própria ganha espaço, mas em que a formalização ainda avança mais devagar do que o número de pessoas que decidem trabalhar para si. A combinação de mais autônomos, menos sindicalização e retomada do cooperativismo sugere que novas formas de organização produtiva estão em curso no Estado.
Para instituições de apoio ao empreendedor, programas municipais de desburocratização e políticas de crédito orientado, o recuo na taxa de formalização dos autônomos funciona como um sinal de alerta: há um contingente crescente de sul-mato-grossenses gerando renda por conta própria que ainda está fora do alcance dos instrumentos voltados às micro e pequenas empresas. Transformar esse público em negócios registrados, com acesso a crédito, mercado e proteção previdenciária, segue como um dos principais desafios do desenvolvimento econômico local para os próximos anos.
Fontes: Campo Grande News — Só 30,8% dos trabalhadores por conta própria têm CNPJ em MS, aponta IBGE; Número de PJ bate recorde, mas maioria ainda trabalha sem empresa aberta; Sindicatos perdem quase 50% dos associados em MS, enquanto cooperativas crescem. Dados: IBGE, PNAD Contínua — Características Adicionais do Mercado de Trabalho 2025.
