Vendas externas de produtos industrializados crescem 5% de janeiro a agosto, puxadas por celulose e carnes, enquanto o saldo de empregos formais do setor cai 54,8% e a Fiems aponta mais de 25 mil vagas sem trabalhadores qualificados
A indústria de Mato Grosso do Sul fechou os oito primeiros meses de 2026 com o maior volume de exportações já registrado para o período: US$ 5,39 bilhões em produtos industrializados vendidos ao exterior entre janeiro e agosto, contra US$ 5,1 bilhões no mesmo intervalo de 2025. O bom momento lá fora, porém, não se repetiu na mesma intensidade no mercado de trabalho. De acordo com o Novo Caged, o saldo de empregos formais da atividade industrial no acumulado do ano foi de 2.536 vagas, menos da metade das 5.609 abertas entre janeiro e agosto do ano passado, uma redução de 54,8%. Os números foram reunidos em reportagem do jornal Correio do Estado, que cruzou dados de comércio exterior, do Caged e da Sondagem Industrial do Observatório da Indústria da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul).
O retrato que emerge é o de um setor que não está em retração. As fábricas seguem produzindo em ritmo estável, as vendas externas batem recorde e a maioria dos empresários espera demanda igual ou maior nos próximos meses. O que mudou foi a velocidade com que essa atividade se converte em novos postos de trabalho com carteira assinada, num momento em que a própria federação das indústrias reclama da falta de mão de obra qualificada para ocupar vagas já existentes.
Recorde no acumulado e também em agosto
O resultado de janeiro a agosto representa alta de 5% sobre 2025 e é o maior valor da série para os oito primeiros meses de um ano. O mês de agosto, isoladamente, também foi o melhor já registrado para o período: os produtos industrializados responderam por US$ 704,4 milhões em vendas externas, crescimento de 3% em relação a agosto do ano passado.
O peso da indústria na pauta exportadora sul-mato-grossense é expressivo. Em agosto, os industrializados representaram 72% de tudo o que o Estado vendeu ao exterior; no acumulado do ano, a fatia foi de 66%. Os percentuais permitem uma conta aproximada do tamanho total do comércio exterior do Estado: se US$ 5,39 bilhões equivalem a dois terços das exportações, o total vendido por Mato Grosso do Sul entre janeiro e agosto gira em torno de US$ 8,2 bilhões, com o terço restante formado majoritariamente por produtos básicos, como grãos in natura.
A mudança de perfil é relevante para um Estado historicamente associado à exportação de soja e milho em grão. Hoje, a maior parte da receita externa vem de mercadorias que passaram por algum processo industrial em território sul-mato-grossense, o que significa mais etapas da cadeia produtiva, mais arrecadação e mais empregos diretos e indiretos concentrados dentro das fronteiras do Estado.
Celulose e carnes respondem por três quartos da receita
Apesar do avanço, a pauta industrial continua muito concentrada. Celulose e papel lideram com folga, com US$ 2,15 bilhões e 40% das receitas industriais de exportação. Em seguida vem o complexo frigorífico, com US$ 1,89 bilhão e 35% de participação. Somados, os dois segmentos chegam a cerca de US$ 4,04 bilhões, o equivalente a 75% de toda a receita de exportação da indústria do Estado.
O restante se divide entre cadeias de porte bem menor. Óleos vegetais e produtos de sua extração somaram US$ 580,5 milhões no período; açúcar e álcool, US$ 272,4 milhões; o extrativo mineral, US$ 159,5 milhões; e o grupo de siderurgia, metalurgia e metalmecânica, US$ 125,3 milhões. Em termos proporcionais, os óleos vegetais respondem por pouco mais de 10% da receita industrial, o açúcar e o álcool por cerca de 5%, e os minérios e a metalurgia por algo entre 2% e 3% cada.
A concentração tem dois lados. De um lado, mostra que Mato Grosso do Sul conseguiu atrair e consolidar grandes plantas industriais em setores de escala global, como celulose e proteína animal. De outro, deixa o resultado das exportações bastante exposto às oscilações de preço e de demanda de poucos produtos. Uma variação forte na cotação internacional da celulose ou uma restrição sanitária ou tarifária sobre a carne, por exemplo, tem efeito imediato sobre o desempenho de toda a indústria exportadora do Estado.
China compra um terço dos industrializados
A dependência também aparece no destino das vendas. A China é, de longe, o principal mercado: até agosto, os chineses compraram US$ 1,83 bilhão em produtos industrializados de Mato Grosso do Sul, cerca de 34% do total. Os Estados Unidos aparecem em segundo lugar, com US$ 499,6 milhões, seguidos pelos Países Baixos, com US$ 333,4 milhões, país que funciona como uma das principais portas de entrada de mercadorias no continente europeu.
A diferença entre o primeiro e o segundo colocados é grande: as compras chinesas são mais de três vezes e meia as norte-americanas. A diversificação de mercados, por isso, segue no centro da agenda de comércio exterior do Estado, que aposta em novas rotas logísticas e em missões empresariais para ampliar a presença de produtos sul-mato-grossenses em outros destinos da Ásia, da América do Sul e da Europa.
Fábricas operam com 71% da capacidade
No chão de fábrica, o quadro é de estabilidade. A Sondagem Industrial do Observatório da Indústria da Fiems, que ouviu 60 empresas de pequeno, médio e grande porte de segmentos como alimentos, biocombustíveis, metalurgia, produtos químicos, máquinas e equipamentos, farmacêutico, madeira e mineração, mostra que 78% das indústrias mantiveram ou ampliaram a produção entre julho e agosto. Desse total, 53% mantiveram o mesmo nível e 25% registraram crescimento.
Em agosto, as indústrias pesquisadas utilizaram em média 71% da capacidade instalada, e 68% dos empresários disseram operar em nível igual ou superior ao considerado habitual para a época do ano. Ou seja, há espaço ocioso nas linhas de produção, mas não sinais de desaceleração generalizada.
As expectativas para o semestre seguinte também são positivas. Segundo a sondagem, 41% das empresas esperam aumento da demanda por seus produtos nos próximos seis meses, 52% projetam estabilidade e apenas 7% preveem retração. A intenção de compra de insumos acompanha esse otimismo moderado: 38% das indústrias pretendem aumentar as aquisições de matérias-primas, enquanto metade deve manter o volume atual.
O índice de intenção de investimento ficou em 54,9 pontos em setembro, mesmo após um recuo no mês, e 48% das empresas afirmaram que pretendem fazer algum investimento no próximo semestre, seja para ampliar capacidade, modernizar processos ou ganhar competitividade.
Saldo de vagas encolhe mais que a metade
É no emprego que aparece a principal diferença entre o desempenho da atividade e a capacidade de gerar novas vagas. Pelos dados do Novo Caged, a indústria sul-mato-grossense registrou 47.666 admissões e 45.130 desligamentos entre janeiro e agosto, resultando no saldo positivo de 2.536 postos. A conta mostra uma rotatividade elevada: para cada 100 trabalhadores contratados no período, cerca de 95 deixaram seus empregos no setor.
O saldo continua positivo, e a sondagem da Fiems não aponta para uma onda de demissões. Ao contrário: 91% das empresas pretendem manter ou ampliar o número de trabalhadores nos próximos seis meses. Do total, 72% devem preservar o quadro atual e 19% projetam novas contratações, enquanto apenas 9% esperam reduzir o número de empregados. O que os números indicam, portanto, é uma perda de ritmo na abertura de novas vagas, e não um corte de postos.
O comportamento da indústria se soma a um mercado de trabalho estadual que também desacelerou. No mês de agosto, Mato Grosso do Sul como um todo terminou com 35.084 admissões e 33.876 desligamentos, um saldo de 1.208 empregos formais, segundo o Novo Caged.
O paradoxo da mão de obra
O dado mais intrigante é que a desaceleração das contratações acontece num setor que diz não encontrar gente suficiente para trabalhar. O presidente da Fiems, Sérgio Longen, já afirmou que existem mais de 25 mil vagas abertas na indústria de Mato Grosso do Sul que não conseguem ser preenchidas, e relacionou esse déficit à expansão das fábricas e ao aumento da demanda por trabalhadores.
Os números disponíveis não permitem separar com precisão as causas do fenômeno, mas ajudam a formular hipóteses. Uma delas é que parte da demanda das empresas esbarra na falta de profissionais com a qualificação exigida, o que faz as vagas permanecerem abertas em vez de virarem contratação registrada no Caged. Outra é o peso crescente de segmentos intensivos em capital e tecnologia, como a celulose, em que cada nova unidade gera muitos empregos durante a construção, mas uma quantidade menor de postos permanentes na operação. A alta rotatividade observada no período também sugere dificuldade de retenção de trabalhadores.
Para o ecossistema de desenvolvimento econômico do Estado, o recado é que o crescimento industrial depende cada vez mais de formação profissional, atração de talentos e programas de qualificação alinhados às necessidades das fábricas que se instalam no interior, especialmente nos polos de celulose, bioenergia e proteína animal.
O que observar nos próximos meses
Os próximos indicadores vão mostrar se o recorde de exportações se sustenta no último quadrimestre e se o otimismo captado pela sondagem da Fiems se converte em contratações. A divulgação dos dados do Caged de setembro e das estatísticas de comércio exterior do mesmo mês será o primeiro termômetro. A combinação de demanda externa aquecida, intenção de investimento acima da linha dos 50 pontos e capacidade ociosa em torno de 29% sugere que a indústria ainda tem margem para crescer sem grandes saltos de custo.
A questão em aberto é quanto desse crescimento vai virar emprego. Se as vagas não preenchidas apontadas pela Fiems forem de fato ocupadas, o saldo industrial pode voltar a se aproximar do patamar de 2025. Se a escassez de trabalhadores qualificados persistir, o Estado corre o risco de ver sua indústria vender cada vez mais ao exterior sem que o mercado de trabalho local acompanhe o mesmo ritmo.
Fontes: Correio do Estado, Indústria bate recorde nas exportações, mas ritmo de contratações cai pela metade; Campo Grande News, editoria de Economia (Novo Caged de agosto).
