A Universidade vai ao Campo: Residência Agrária consolida “extensão tecnológica” e profissionaliza a agricultura familiar em MS

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Programa financiado pela Fundect e executado em parceria com a Agraer coloca recém-graduados dentro das propriedades rurais. Iniciativa funciona como um “SUS do Agro”, levando conhecimento técnico gratuito para transformar pequenos sítios em negócios rentáveis.

A distância entre o laboratório da universidade e a terra do pequeno produtor acaba de ficar menor em Mato Grosso do Sul. Em um movimento para modernizar a base da pirâmide do agronegócio, o Governo do Estado, via Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia), consolidou os resultados e a expansão do programa de Residência Agrária.

Inspirado no modelo de residência médica, o projeto seleciona recém-graduados em Agronomia, Veterinária, Zootecnia e Engenharia de Produção para atuarem diretamente no campo, sob supervisão de especialistas da Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural).

Para o leitor do Empreende MS, esta iniciativa deve ser vista sob a ótica da qualificação de cadeia. Enquanto o “Agro Business” de exportação já possui consultoria privada de ponta, a agricultura familiar — responsável por 70% do alimento que chega à mesa — ainda sofre com baixa produtividade por falta de técnica. O programa ataca exatamente esse gap.

A seguir, analisamos como esse modelo de extensão tecnológica impacta a economia dos municípios.

O Modelo: Aprender Fazendo

O programa resolve duas dores simultâneas:

  1. A do Recém-Formado: Que sai da faculdade com teoria, mas sem experiência de mercado, enfrentando dificuldade de recolocação.
  2. A do Pequeno Produtor: Que não tem dinheiro para pagar um agrônomo particular para planejar sua safra ou melhorar a genética do gado.

O residente atua como um “consultor júnior” subsidiado pelo Estado. Ele leva para a propriedade as técnicas mais novas de manejo de solo, irrigação, controle biológico de pragas e gestão financeira. Em troca, o Estado paga uma bolsa mensal ao residente, garantindo que ele se dedique exclusivamente a alavancar a produção daquelas famílias.

Tecnologia na Veia: De Hortas a Drones

A “extensão tecnológica” citada pela Fundect não é apenas retórica. Os residentes estão introduzindo conceitos de Agricultura 4.0 em pequenas propriedades. Isso inclui desde o uso de aplicativos para gestão do fluxo de caixa da propriedade até a introdução de variedades de sementes desenvolvidas pela pesquisa estadual (como as da UEMS e UFMS) que são mais resistentes ao clima local.

Ao aumentar a produtividade de um assentamento ou comunidade rural, cria-se um efeito cascata econômico:

  • O produtor ganha mais e consome mais no comércio da cidade vizinha.
  • A prefeitura local consegue comprar merenda escolar de melhor qualidade (via PNAE) diretamente do produtor.
  • Reduz-se o êxodo rural, mantendo a juventude no campo com renda digna.

A Visão da Fundect: Ciência Aplicada

Para Márcio de Araújo Pereira, diretor-presidente da Fundect, o programa é a materialização da ciência aplicada. “Não faz sentido o Estado investir milhões formando um engenheiro agrônomo para ele virar motorista de aplicativo por falta de oportunidade, enquanto o produtor rural perde a lavoura por falta de orientação técnica. A Residência Agrária conecta essas pontas”, avalia.

O investimento do governo no programa é visto como estratégico para diversificar a matriz econômica, fortalecendo cadeias como a da hortifruti, do leite e da piscicultura, diminuindo a dependência de produtos vindos de outros estados (cebolas e tomates de SP/PR, por exemplo).

Análise Empreende MS: Formando os Líderes do Amanhã

Além do impacto imediato na produção, a Residência Agrária está formando a próxima geração de líderes do agronegócio sul-mato-grossense. Esses jovens profissionais, após 12 ou 24 meses de “choque de realidade” no campo, sairão do programa com uma visão de mercado e resolução de problemas que nenhuma sala de aula oferece.

Eles serão os futuros gerentes de fazendas, consultores de revendas ou gestores públicos que entenderão, na pele, que a tecnologia só é útil se ela for acessível e aplicável. Para 2026, a expectativa é que o programa ganhe escala, cobrindo mais municípios e inserindo ferramentas de gestão digital nas propriedades atendidas.

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