Formação de 67 horas do Sebrae/MS em parceria com a Aurora certificou 21 produtores da Copérdia em Jaraguari; iniciativa de encadeamento produtivo acompanha 98 propriedades no Estado num momento em que o abate de suínos cresce 16% e a atividade busca gestão mais profissional
Vinte e um suinocultores associados à Cooperativa de Produção e Consumo Concórdia (Copérdia) concluíram no sábado (26) a capacitação Qualidade Total Rural, oferecida pelo Sebrae/MS em parceria com a Aurora Coop. A cerimônia de encerramento, com entrega de certificados, ocorreu na sede do Sindicato Rural de Jaraguari, na região de Campo Grande. A formação integra um projeto de encadeamento produtivo que qualifica produtores fornecedores da indústria e busca levar para dentro das granjas ferramentas de gestão típicas de uma empresa, como planejamento, indicadores e controle financeiro. As informações foram divulgadas pela Agência Sebrae de Notícias nesta segunda-feira (28).
A iniciativa chega em um momento de forte expansão da suinocultura sul-mato-grossense. Entre janeiro e julho de 2026, o Estado abateu 2,1 milhões de suínos sob inspeção federal, alta de 16% sobre o mesmo período de 2025 e cinco vezes acima da média nacional, segundo dados do Serviço de Inspeção Federal (SIF) divulgados pelo Campo Grande News. Com mais animais, investimentos em granjas e frigoríficos ampliados, cresce também a necessidade de gestão profissional nas propriedades que abastecem a indústria.
Da granja à empresa rural
Ao longo da capacitação, os produtores participaram de 13 encontros sequenciais e receberam sete consultorias personalizadas, feitas diretamente nas propriedades, para aplicar o conteúdo à realidade de cada negócio. No total, foram 67 horas de atividades, com temas como gestão da propriedade, qualidade dos processos, planejamento, indicadores, controles financeiros e melhoria contínua.
Para o analista técnico do Sebrae/MS Guilherme Meira, o ponto central do curso é a mudança de mentalidade. “O Qualidade Total Rural ajuda o produtor a olhar para a propriedade também como uma empresa. Durante o curso, são trabalhadas ferramentas de gestão que ajudam a organizar melhor os processos, acompanhar os resultados e identificar onde é possível melhorar”, explicou. Segundo ele, na prática, isso contribui para decisões mais assertivas, redução de desperdícios e ganhos de produtividade.
A lógica é especialmente relevante na suinocultura integrada, em que o produtor opera sob padrões técnicos definidos pela indústria e depende de eficiência para manter margens. Pequenas perdas em mortalidade, conversão alimentar ou manejo, quando não medidas, podem corroer o resultado do lote. Registrar dados, acompanhar indicadores e corrigir rotas é o que separa uma granja que apenas produz de uma que sabe quanto ganha, e onde pode ganhar mais.
O que dizem os produtores
Entre os certificados está Diogo de Souza Alves, da DJD Agropecuária, em Rochedo. “Foi muito produtivo e nos ajudará muito na gestão da granja. O curso trouxe conhecimento na gestão produtiva e financeira, que podemos aplicar no dia a dia da propriedade”, afirmou.
Frank Laurence Henrique Gomes, do Sítio Paraíso, em Terenos, também destacou a mudança de perspectiva. “O curso serviu para que tivéssemos um olhar mais profissional sobre a gestão da propriedade, os processos e os resultados. A organização da propriedade, a elaboração de processos de gestão, o acompanhamento dos resultados e a realização das correções necessárias contribuem para a melhoria da atividade, evitando retrabalhos e ampliando os ganhos financeiros e de tempo”, disse.
Os depoimentos mostram que o curso alcança produtores de diferentes municípios do entorno da Capital, como Rochedo, Terenos e Jaraguari, região onde a Copérdia concentra sua atuação no Estado.
Indústria e cooperativa no mesmo projeto
Do lado da indústria, a parceria é vista como forma de garantir qualidade na matéria-prima e sustentabilidade da cadeia. Para Marcos Tolentino Lopes, gerente corporativo de Desenvolvimento Rural Cooperativo da Aurora Coop, a proposta vai além da técnica. “Por meio dessa parceria, nós levamos treinamentos de qualidade aos nossos produtores da região para qualificar esses produtores para produzir com qualidade, mas principalmente com qualidade de vida, envolvendo as famílias, respeitando o meio ambiente e considerando a questão social”, afirmou.
Rodrigo Rosa, supervisor de Suinocultura da Copérdia em Mato Grosso do Sul, avalia que a formação ajuda a profissionalizar os cooperados e a dar continuidade à atividade com mais organização. “O papel da Cooperativa também é profissionalizar o produtor, para que ele seja eficiente na atividade que desenvolve. Nos quatro estados onde atuamos, temos contado com a efetiva participação do Sebrae”, ressaltou.
Parceria de 27 anos e 98 propriedades acompanhadas
A cooperação entre Sebrae e Aurora voltada à qualificação de produtores existe há mais de 27 anos. Hoje, 98 propriedades rurais são acompanhadas pelo projeto em Mato Grosso do Sul, distribuídas entre três cooperativas: a Cooasgo, em São Gabriel do Oeste, com 60 propriedades; a Cooperalfa, em Dourados, com 22; e a Copérdia, na região de Campo Grande, com 16.
O Qualidade Total Rural é uma das quatro etapas da trilha oferecida aos suinocultores. As outras são “De Olho na Qualidade Rural”, “Times de Excelência” e “Sustentabilidade”. Juntas, as formações trabalham gestão, qualidade, organização da propriedade, sustentabilidade e melhoria de processos, com metas como aumento de produtividade, redução da mortalidade animal, adoção de práticas sustentáveis e cumprimento das exigências da indústria.
O modelo de encadeamento produtivo é uma das estratégias mais usadas pelo Sebrae para aproximar pequenos negócios de grandes compradores. Em vez de atender produtores isoladamente, a instituição trabalha com a cadeia inteira, alinhando o que a indústria precisa com o que os fornecedores conseguem entregar. Para a empresa âncora, o ganho é previsibilidade e padrão. Para o produtor, é acesso a conhecimento e a um mercado relativamente estável.
Um setor em expansão acelerada
O contexto ajuda a explicar o interesse da indústria em qualificar fornecedores. Segundo reportagem do Campo Grande News publicada em setembro, a suinocultura sul-mato-grossense chegou ao segundo semestre com 2,34 milhões de animais abatidos entre janeiro e julho e um plantel de aproximadamente 152 mil matrizes. No ranking nacional de abates, o Estado ocupa a quinta posição, atrás de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, mas é o que cresce em ritmo mais acelerado.
Parte da expansão foi financiada por cerca de R$ 250 milhões em crédito, principalmente do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO), além de recursos próprios dos produtores, segundo o presidente da Associação Sul-Mato-Grossense de Suinocultores (Asumas), Renato Spera. O setor trabalha há cerca de três anos com a meta de ampliar em aproximadamente 50% o plantel produtivo até o fim de 2026, apoiado na disponibilidade de milho, nas condições sanitárias e no espaço para crescimento das propriedades.
A indústria também cresceu. Em São Gabriel do Oeste, a unidade da Aurora recebeu investimento de cerca de R$ 350 milhões para ampliar em 60% a capacidade de abate, que passou de 3,2 mil para 5 mil suínos por dia, com previsão de chegar a 3,6 mil empregos diretos no município, de acordo com o Correio do Estado. Um frigorífico maior demanda mais animais, com padrão uniforme, o que reforça o papel de programas que elevam o nível de gestão dos integrados.
A maior parte da carne suína produzida em Mato Grosso do Sul abastece o mercado interno. Entre 1,6% e 1,8% segue para exportação, com destaque para Filipinas, Argentina e Uruguai entre os principais destinos, segundo dados apresentados no VIII Fórum de Desenvolvimento da Suinocultura, realizado em setembro, em Dourados.
A produção está espalhada por diferentes regiões do Estado, com destaque para Glória de Dourados, Dourados, Jateí, São Gabriel do Oeste e Brasilândia. Para orientar os próximos investimentos, a Asumas preparou o Censo da Suinocultura de Mato Grosso do Sul, questionário de 70 perguntas sobre produção, estrutura, localização e situação econômica das granjas. A ideia é identificar onde ainda há espaço para crescer e quais propriedades precisam investir em automação, sanidade, gestão e estrutura, justamente as frentes trabalhadas pela trilha do Sebrae.
Gente qualificada é o novo gargalo
Se a produção avança, a mão de obra preparada passou a ser um dos principais desafios do setor. No fórum promovido pela Asumas, o tema dividiu espaço com biometano, fertirrigação, mercado de carbono e Plano Safra. “Atrair, desenvolver e reter profissionais é um desafio para o setor, e precisamos criar cada vez mais oportunidades para que as pessoas enxerguem a suinocultura como uma atividade moderna, tecnológica e com futuro”, afirmou Renato Spera na ocasião.
Nesse cenário, capacitações como a concluída em Jaraguari ganham um papel que vai além do certificado. Ao profissionalizar a gestão, o produtor fica mais preparado para incorporar tecnologia, organizar equipes, cumprir exigências sanitárias e ambientais e tomar crédito com mais segurança sobre o retorno do investimento.
Próximos passos
A trilha de formação segue com as demais etapas previstas no projeto, e o Sebrae/MS mantém o atendimento a produtores interessados em ações de encadeamento produtivo pela Central de Relacionamento (0800 570 0800) e pelo site ms.sebrae.com.br. Com a expansão do plantel, a ampliação de frigoríficos e a pressão por eficiência e sustentabilidade, a tendência é que a gestão ganhe cada vez mais peso na competitividade da suinocultura de Mato Grosso do Sul.
Fontes
Agência Sebrae de Notícias MS: Suinocultores da Copérdia concluem capacitação em Qualidade Total Rural (28/09/2026). Campo Grande News: Abate de suínos cresce 16% e chega a 2,1 milhões de animais em MS (14/09/2026); Suinocultura de MS chega a 2,3 milhões de abates e mira novos mercados (17/09/2026). Correio do Estado: Frigorífico Aurora eleva abate para 5 mil suínos por dia em MS.
