Etapa do Circuito Sebrae Conexões Regionais reuniu mais de 600 pessoas para palestra de Marcos Piangers sobre emoções, família e liderança e abriu feira para pequenos negócios da Costa Leste, do crochê de Inocência à hamburgueria que esgotou o estoque
Mais de 600 pessoas lotaram a Estância Papillon, em Três Lagoas, na noite da última quarta-feira (30), para a etapa local do Circuito Sebrae Conexões Regionais. O evento, promovido pelo Sebrae/MS, trouxe ao município o escritor e palestrante Marcos Piangers com a palestra “De dentro pra fora: as emoções, o trabalho e a vida” e, em paralelo, montou uma feira de produtos e serviços e uma praça de alimentação ocupadas por pequenos negócios de Três Lagoas e de cidades vizinhas. A proposta, segundo o Sebrae/MS, foi aproximar conhecimento e geração de negócios em uma mesma noite, descentralizando o acesso a especialistas de projeção nacional.
A passagem por Três Lagoas encerrou a rodada de setembro do circuito, que também passou por Campo Grande, Coxim, Bonito e Dourados. A estratégia é levar a diferentes regiões de Mato Grosso do Sul conteúdos sobre a realidade de quem está à frente de um empreendimento, sem que o empresário do interior precise se deslocar até a Capital para ter acesso a esse tipo de programação.
O empreendedor por trás da empresa
O tema escolhido para a noite foge do roteiro tradicional das palestras de gestão. Em vez de fluxo de caixa, precificação ou marketing digital, Piangers falou de paternidade, família, comportamento e da importância de cultivar relações saudáveis — aspectos que, segundo a organização, nem sempre aparecem nas discussões sobre gestão empresarial, mas influenciam diretamente a forma de liderar, trabalhar e tomar decisões.
Reconhecido nacionalmente por abordar comunicação, inovação, paternidade e comportamento, o palestrante recorreu a histórias e situações cotidianas para mostrar como atitudes aparentemente simples repercutem tanto na convivência familiar quanto no ambiente de trabalho. Ao relacionar o cuidado com as emoções à experiência oferecida ao consumidor, ele chamou atenção para o valor da atenção genuína nas interações do dia a dia.
“Estou muito feliz por estar em Três Lagoas pela segunda vez e conversar sobre como entender melhor as nossas emoções pode melhorar as relações e tornar mais positivo tudo aquilo que fazemos. Adoro contar histórias de empreendedores, como os que estão aqui na plateia, porque são exemplos de como as relações humanas fazem diferença nos negócios. Quando você atende alguém com um sorriso e presta atenção de verdade naquela pessoa, faz com que o cliente queira voltar”, afirmou Piangers.
Para ele, a paixão pelo trabalho precisa vir acompanhada de interesse real pelas pessoas. “O ser humano precisa ser apaixonado pelo que faz, mas também pelas pessoas com quem se relaciona, sendo ou não seus clientes”, completou.
Habilidades humanas como competência de gestão
A gerente regional do Sebrae/MS, Josi Signori, explicou que a escolha do conteúdo partiu das necessidades de quem conduz uma empresa num cenário de transformações constantes, em que habilidades humanas pesam tanto quanto o conhecimento técnico. “Quando recebemos um evento como o Circuito Regional em Três Lagoas, queremos proporcionar ao empreendedor da nossa região acesso a experiências e reflexões que possam acompanhá-lo também depois desta noite. Administrar um negócio envolve números, estratégia e mercado, mas envolve, principalmente, pessoas”, disse.
Na avaliação da gerente, o autoconhecimento tem efeito direto sobre a capacidade de liderar. “Quanto mais preparado esse empreendedor estiver para compreender a si mesmo, se relacionar, liderar e fazer escolhas, mais condições terá de conduzir sua empresa diante dos desafios e das oportunidades que surgem ao longo do caminho”, acrescentou.
O tema encontrou eco na plateia. O empresário do setor imobiliário Niego Farias destacou a importância de discutir assuntos que fazem parte da rotina de quem precisa conciliar a empresa com a vida pessoal. “O Piangers traz uma visão diferente, porque fala da vida como ela realmente é. Aborda a paternidade, a família, os sentimentos e mostra como tudo isso também se aplica aos negócios. Afinal, o empreendedor não deixa de ser pai, de ter uma família e de viver essas questões quando está à frente de uma empresa”, afirmou.
A terapeuta e professora de ioga Pamella Schëfer relacionou a palestra à necessidade de rever hábitos que fazem as pessoas deixarem suas próprias necessidades em segundo plano. “A gente vive em um ritmo muito acelerado, sempre preocupada com o trabalho, com os resultados e com as próximas tarefas. E, nessa correria, muitas vezes deixamos de estar verdadeiramente presentes”, refletiu. Para ela, equilibrar carreira e afeto passa por fazer escolhas conscientes e estabelecer limites.
Feira dá vitrine a quem está começando
Enquanto o palco convidava o público a olhar para as pessoas por trás das empresas, a feira montada no próprio recinto mostrava o resultado do trabalho de quem encontrou no empreendedorismo uma fonte de renda. A mostra reuniu pequenos negócios de diferentes segmentos, que puderam apresentar produtos, conversar diretamente com potenciais clientes e fazer contatos com outros empresários. Entre os expositores havia participantes de Três Lagoas e de municípios da região.
Um dos exemplos veio da zona rural de Inocência. Tábita Raquel da Silva Godoy começou a produzir peças de crochê para complementar a renda da família, e a atividade deu origem ao “Crochê da Tábita”. O Circuito foi apenas a segunda feira de que participou, depois de estrear em um evento voltado a mulheres empreendedoras em seu município. “O Sebrae tem me ajudado a conhecer as feiras e encontrar espaços para apresentar meus produtos. Minha expectativa é ganhar visibilidade, alcançar novos clientes e, claro, vender bastante. Quanto mais pessoas conhecerem o que faço, melhor para o crescimento do meu negócio”, contou.
Tatiane Maria Simione Vital, dona do Empório Tudu Di Bom – Produtos Mineiros, em Três Lagoas, começou a empreender inspirada por uma viagem a Minas Gerais, terra de seus avós. O negócio nasceu pequeno e ganhou espaço na cidade. Para ela, o valor desses eventos está no acesso a públicos e conexões difíceis de alcançar no dia a dia. “Além de apresentar nossos produtos para um público diferente, conhecemos outros empreendedores, ouvimos suas histórias e aprendemos com as experiências de cada um. Sempre tem alguma coisa que podemos levar para melhorar o nosso próprio negócio”, disse.
Praça de alimentação esgotou estoque
A movimentação econômica se estendeu à área externa, onde uma praça de alimentação reuniu empreendedores do setor gastronômico com opções como hambúrgueres, chope artesanal, chá gelado e comida japonesa. O espaço permitiu que os estabelecimentos apresentassem seus produtos a um público novo enquanto os participantes aproveitavam o intervalo da programação.
Dono de uma hamburgueria, Roger Robert Alves do Nascimento viu no evento uma chance de ampliar a carteira de clientes e conquistar contratos para eventos futuros — e saiu de lá com o caixa reforçado. “O mais importante para nós é o networking que construímos nesses eventos. Conhecemos pessoas, apresentamos nosso trabalho e, muitas vezes, esses contatos acabam se transformando em novos contratos. Hoje, eu vendi todo o estoque!”, comemorou.
O formato ajuda a explicar o alcance do encontro. Em Três Lagoas, a proposta do Sebrae/MS ganhou três expressões complementares: as histórias compartilhadas no palco, os produtos apresentados na feira e os serviços oferecidos na praça de alimentação. Quem foi pela palestra acabou circulando entre os estandes, e quem expunha teve acesso a um público de centenas de pessoas reunidas no mesmo lugar, algo raro para negócios que costumam depender do boca a boca e das redes sociais para vender.
Costa Leste em transformação
O evento ocorre num momento de forte transformação econômica da Costa Leste de Mato Grosso do Sul. Três Lagoas liderou em 2025 o valor da produção da silvicultura no país, com R$ 1,83 bilhão, segundo a pesquisa PEVS do IBGE divulgada em setembro, puxada pela cadeia do eucalipto e da celulose. Inocência, de onde veio a artesã Tábita, recebe a construção de uma fábrica de celulose de R$ 25 bilhões da Arauco, com previsão de ativação no segundo semestre de 2027, e viu suas receitas municipais saltarem de R$ 85 milhões para R$ 154 milhões no primeiro semestre, conforme noticiou o Correio do Estado.
Grandes investimentos industriais costumam ampliar a demanda por comércio, alimentação, serviços e hospedagem, mas o aproveitamento dessa onda pelos pequenos negócios locais não é automático. Depende de formalização, gestão e acesso a mercado — justamente as frentes em que ações como feiras, rodadas e capacitações procuram atuar. Ao reunir no mesmo espaço o empresário imobiliário, a artesã da zona rural e o dono da hamburgueria, o Circuito expôs a diversidade de perfis que compõem a base empreendedora da região.
Próximos passos
Com o fim da rodada de setembro, o Sebrae/MS avalia o circuito como uma forma de levar ao interior experiências de desenvolvimento pessoal e profissional antes concentradas nos grandes centros. Para os expositores, o desafio agora é transformar os contatos da noite em clientes recorrentes — Tábita, por exemplo, pretende seguir participando de feiras para ganhar visibilidade.
Empreendedores interessados nas próximas ações do Sebrae/MS podem obter informações pela Central de Relacionamento, no telefone 0800 570 0800, ou pelo site ms.sebrae.com.br.
Fontes: Agência Sebrae de Notícias MS — Circuito Sebrae Conexões Regionais inspira novos olhares sobre trabalho, emoções e vida em Três Lagoas; Campo Grande News — Três Lagoas e Ribas lideram valor da produção de florestas plantadas no país; Correio do Estado — Arauco teme paralisação de projeto bilionário.
