Lote 4 do Leilão de Transmissão nº 4/2026, marcado para 30 de outubro na B3, prevê 1.167 km de linhas de 500 kV entre Rio Brilhante, o Paraná e Goiás, 3.600 MVA de transformação e 8.225 empregos diretos; disputa será vencida por quem aceitar a menor receita anual
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) coloca em disputa no próximo dia 30 de outubro, na sede da B3, em São Paulo, um pacote bilionário de obras de transmissão de energia que tem Mato Grosso do Sul no centro do traçado. O chamado Lote 4 do Leilão de Transmissão nº 4/2026 reúne R$ 4,1 bilhões em investimentos estimados, 1.167 quilômetros de novas linhas e 3.600 megavolt-amperes (MVA) de capacidade de transformação. É o lote de maior valor de todo o certame, que soma R$ 8,9 bilhões em oito lotes espalhados por sete estados. A expectativa da agência é que, só no Lote 4, as obras gerem 8.225 empregos diretos ao longo do período de construção.
O desenho do lote tem Rio Brilhante, no centro-sul de Mato Grosso do Sul, como ponto de convergência. É de lá que partem as duas principais linhas de 500 quilovolts (kV) previstas: uma rumo a Sarandi, no Paraná, e outra em direção a Chapadão, conectada por sua vez a Rio Verde Norte, em Goiás. Na prática, o projeto cria um corredor de alta tensão que amarra o Estado a dois vizinhos e reforça a capacidade do sistema elétrico de atender a uma economia que vem crescendo em ritmo acima da média nacional, puxada por celulose, biocombustíveis e agroindústria.
O que está em jogo em cada sublote
O Lote 4 foi dividido em dois sublotes, 4A e 4B, que serão disputados separadamente e, depois, considerados em conjunto, conforme as regras do edital. A estratégia de apregoar os blocos em separado antes da agregação final foi adotada, segundo a própria Aneel, para estimular a competição e buscar lances mais econômicos para o conjunto.
O sublote 4A tem investimento estimado em R$ 2,21 bilhões e envolve obras em Mato Grosso do Sul e no Paraná. A peça central é uma linha de transmissão de 500 kV entre Rio Brilhante e Sarandi, com 310 quilômetros de extensão por circuito. O pacote inclui ainda novas instalações na subestação de Rio Brilhante, com equipamentos de transformação e de compensação síncrona — máquinas usadas para ajudar a controlar a tensão e dar estabilidade à rede elétrica.
Já o sublote 4B, avaliado em R$ 1,91 bilhão, abrange Mato Grosso do Sul e Goiás. Estão previstas duas linhas de 500 kV: uma entre Rio Verde Norte e Chapadão, com 217 quilômetros, e outra entre Chapadão e Rio Brilhante, com 330 quilômetros. O edital não detalha quanto do total de R$ 4,1 bilhões será aplicado especificamente em território sul-mato-grossense, mas a geografia do traçado indica que boa parte das estruturas — e da mão de obra mobilizada — estará no Estado.
Pelo cronograma estabelecido pela Aneel, os empreendimentos do Lote 4 terão até 60 meses, contados a partir da assinatura dos contratos de concessão, para entrar em operação comercial. Se o leilão ocorrer como previsto e os contratos forem assinados nos meses seguintes, as novas linhas devem estar energizadas na virada da década.
Para que servem as novas linhas
Segundo a documentação técnica da agência reguladora, os empreendimentos têm três finalidades principais: ampliar a capacidade de atendimento elétrico a Mato Grosso do Sul, aumentar a chamada capacidade remanescente de geração — ou seja, o espaço disponível na rede para que novas usinas possam se conectar e escoar a energia que produzem — e contribuir para a futura interligação internacional entre Brasil e Bolívia.
O segundo ponto tem peso particular para o Estado. Mato Grosso do Sul concentra hoje usinas de etanol que geram energia a partir do bagaço da cana, projetos de biogás e biometano, fábricas de celulose que produzem a própria eletricidade e exportam excedentes, além de um crescente interesse em geração solar. Sem linhas com capacidade de escoamento, parte desse potencial fica represada. Ampliar a capacidade remanescente significa, na prática, abrir caminho para que novos projetos de geração saiam do papel e vendam energia ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
O terceiro ponto, a interligação com a Bolívia, tem uma história recente. Quando aprovou pela primeira vez o edital do leilão, em reunião extraordinária em 22 de junho, a diretoria da Aneel retirou do pacote um lote específico de interligação com o país vizinho, sob o argumento de que era preciso obter mais informações sobre o sistema elétrico boliviano e compatibilizar os cronogramas de implantação dos dois países, segundo registro da Agência Infra. O reforço previsto no Lote 4, porém, segue sendo apontado na documentação técnica como uma contribuição para essa integração futura — o que mantém o tema vivo na agenda energética da fronteira oeste.
Como funciona a disputa
O modelo de leilão adotado pela Aneel para a transmissão é o de menor receita. As empresas e consórcios interessados disputam o direito de construir, operar e manter as instalações por meio de propostas de Receita Anual Permitida (RAP) — o valor que a concessionária passará a receber todos os anos pela prestação do serviço. Vence quem oferecer a menor RAP, observadas as regras do edital. Quanto maior o desconto (o chamado deságio) em relação ao teto, menor o custo que será repassado ao sistema e, em última instância, às tarifas pagas pelos consumidores.
Para o Lote 4, a receita anual máxima prevista é de R$ 762,63 milhões, sendo R$ 409,32 milhões para o sublote 4A e R$ 353,32 milhões para o 4B. É a partir desses tetos que os competidores darão seus lances no pregão de 30 de outubro.
O edital do Leilão nº 4/2026 foi aprovado pela diretoria da Aneel em 22 de setembro, com publicação do aviso de licitação no Diário Oficial da União prevista para dois dias depois, segundo o portal especializado Cenário Energia. O texto passou antes pela Consulta Pública nº 006/2026, aberta entre 9 de abril e 25 de maio, que recebeu 258 contribuições de 33 participantes do mercado — 94 delas foram aproveitadas integralmente. O documento também recebeu validação prévia do Tribunal de Contas da União (TCU), etapa obrigatória para licitações desse porte no setor elétrico.
Um leilão de R$ 8,9 bilhões em sete estados
Além do Lote 4, o certame de 30 de outubro reunirá projetos na Bahia, em Goiás, no Paraná, na Paraíba, em Rondônia e em São Paulo, além de Mato Grosso do Sul. No total, serão licitados 1.866 quilômetros de novas linhas de transmissão e seccionamentos, além da continuidade da prestação de serviço em 483 quilômetros de linhas já existentes.
O pacote completo prevê ainda 12.694 MVA de capacidade de transformação, a continuidade de 600 MVA já instalados e quatro compensações síncronas. Os prazos para conclusão variam de 42 a 60 meses, conforme o lote. A Aneel estima que a execução de todas as obras gere 20.312 empregos diretos — o que coloca o Lote 4 sozinho como responsável por cerca de 40% das vagas projetadas para todo o leilão.
Rede elétrica sob pressão do crescimento
O reforço na transmissão chega em um momento em que a demanda por infraestrutura elétrica em Mato Grosso do Sul tem crescido junto com os grandes investimentos industriais. Na Costa Leste e no chamado Vale da Celulose, a chegada de novas fábricas já vinha exigindo obras específicas na rede.
Em maio de 2025, por exemplo, o BNDES aprovou financiamento de R$ 117,5 milhões para a Anastácio Transmissora de Energia S.A., do grupo paranaense Interalli, construir uma linha de aproximadamente 74 quilômetros entre as subestações Inocência, em Paranaíba, e Ilha Solteira 2, em Selvíria, além de ampliar a subestação de Anastácio. A obra, com custo total estimado em R$ 180 milhões, foi pensada para atender a região onde a chilena Arauco constrói sua fábrica de celulose em Inocência. Em julho do mesmo ano, a própria Arauco firmou com o Imasul um termo de compromisso de R$ 1,07 milhão em compensação ambiental por uma linha de transmissão acima de 138 kV entre Inocência e Selvíria, conforme publicado no Diário Oficial do Estado.
Esses projetos pontuais, no entanto, resolvem demandas localizadas. O Lote 4 tem outra escala: são linhas de 500 kV, o nível de tensão usado nos grandes troncos do sistema nacional, com potencial de mudar a forma como o Estado se conecta ao restante da rede e de destravar investimentos em geração em diferentes regiões.
O que observar até o dia 30
O resultado do leilão vai indicar, em primeiro lugar, o apetite dos grandes grupos de transmissão pelo Centro-Oeste. Certames recentes do setor têm registrado deságios expressivos em relação aos tetos de receita, sinal de competição acirrada entre empresas nacionais e estrangeiras. Um desconto elevado no Lote 4 reduziria o custo de longo prazo da obra para o sistema; um deságio baixo, ou a ausência de propostas em algum sublote, acenderia um alerta sobre o risco percebido pelos investidores no traçado.
Em segundo lugar, será preciso acompanhar a fase posterior à disputa: assinatura dos contratos de concessão, licenciamento ambiental das linhas — que cruzam áreas rurais e exigem negociação de faixas de servidão com proprietários — e a mobilização de canteiros. É nesse momento que os 8.225 empregos diretos estimados pela Aneel começam a se materializar.
Para Mato Grosso do Sul, o leilão é mais uma peça de um quebra-cabeça de infraestrutura que inclui ferrovias, rodovias, gás natural e a Rota Bioceânica. Sem energia suficiente e confiável, nenhuma dessas frentes se sustenta. A disputa de 30 de outubro, na B3, dirá quem vai construir uma parte importante dessa base — e por qual preço.
Fontes: Campo Grande News — Leilão de transmissão prevê R$ 4,1 bilhões em investimentos em MS, PR e GO (18/10/2026); Cenário Energia — ANEEL aprova edital e confirma Leilão de Transmissão para 30 de outubro (22/09/2026); TAGD Advogados/Agência Infra — ANEEL aprova leilão de transmissão em outubro e exclui lote com a Bolívia (22/06/2026); Campo Grande News — BNDES aprova R$ 117,5 milhões para ampliar energia no Vale da Celulose (14/05/2025) e Arauco vai pagar R$ 22,9 milhões de compensação ambiental por fábrica e “linhão” (25/07/2025).
